O polvo abissal

por - 11:06

Hydrothermal Vent Octopus


Naqueles dias meu maior desejo era ser um carro alegórico de carnaval enorme, o enredo que tocasse enquanto eu desfilava me agradaria fosse sobre o que fosse. O que importava é que eu seria grande de uma forma diferente, seria bonito e imponente, sentiria o flash das máquinas fotográficas queimando minhas retinhas no meio de uma avenida famosa qualquer. Aos meus pés todo confete ao qual tinha direito. Mas eu tinha duas pizzas debaixo dos braços, as bochechas eram salientes, minha roupa apertava o meu corpo roliço, e de quebra eu vinha sendo implacavelmente perseguido por uma mania de apertar forte as pálpebras, na verdade um tique, e eu tinha nome de adulto. Calixto.


Mas eu tinha uma alegria baseada em uma expectativa burra, as corridas de tampinhas que tomavam conta das minhas tardes claras e cheias de areia do parquinho perto da minha casa me fariam caber melhor em minhas roupas e dariam um tiro com um rifle prateado bem no meio das fuças do meu tique.


E havia uma garota, Jaqueline, que não me dava a menor bola porque eu não era um carro alegórico, eu era a própria bola que ela não me dava, eu era rechonchudo feito um pão de queijo amanteigado. Ela não, ela era magrinha e tinha cabelos brilhantes, não me lembro da cor, eles apenas brilhavam. Tinha olhos que pareciam saches de mel que a gente coloca na boca e morde bem forte de um lado e do outro da boca, esperando que ele estoure de repente pra sentir o líquido doce diabolicamente derramar na língua.


Por isso toda vez que ela me olhava nos olhos eu via suas intenções de abelha, um enxame saindo furioso de sua colmeia, e eu me sentia picado por todas elas, e ficava ainda mais inchado, e sentia o corpo dormente, e eu saia correndo. Ela foi por muito tempo minha única paixão, até que eu descobri o Super Nintendo e o Cine Privé.


Faltava pouco pro natal, bem pouco mesmo, era véspera. E essas coisas, por alguma razão que me escapa jorravam em mim, como um hidrante vermelho quebrado a expelir água violentamente para cima, na frente das janelas da minha cabeça.


As luzes coloridas da Esplanada, o centro da cidade repleto de gente andando sobre os pés apressados, a correria pelos presentes, o clima estranho de confraternização, o arroz com passas, as frutas cristalizadas, a farofa agridoce da minha mãe, as retrospectivas de fim de ano na televisão.


Eu esbarrava lentamente em tudo isso e meu adorável pote de salsicha em conserva ia caindo no ridículo, e eu nem sequer poderia me desculpar por deixá-lo de lado.


A verdade mesmo é que eu preferia ser um robô intergaláctico pra não precisar fingir acreditar em Jesus Cristo pra poder comer essas coisas gostosas, mas minha mãe ia chorar se eu não aparecesse pro natal, ainda mais porque morava a poucas quadras. Eu não sei o que aconteceria se ela soubesse que ano passado eu troquei toda a família e suas guloseimas, e claro, Jesus, por uma lata de salsicha em conserva. Eu menti, disse que ia passar o natal com minha namorada e rebati com monossílabas cáusticas quando ela sugeriu que a levasse para lhes apresentar e passar o natal conosco. Nem namorada eu tinha, inventei a tal Larissa pra ficar sozinho em casa com uma garrafa de uísque nacional.


Eu havia decidido que dessa vez eu apareceria. Tranquei a porta do meu apartamento e desci as escadas girando as chaves no indicador, e quando cheguei à garagem rezei com toda minha pouca fé para que o carro não pegasse, pra eu ter ao menos uma desculpa óbvia e cínica para não dar as caras, mas não aconteceu.


Passei num supermercado, chegar de mãos abanando é meio constrangedor, mesmo em festas da família. Queria comprar algo caro, mostrar pra minha mãe, pro meu pai e para o resto da família que as coisas estavam correndo bem comigo e que eu era relativamente bem sucedido com meu emprego de quarenta horas semanais. Comprei um licor de alcaçuz com meu cartão de crédito.


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Dei uma volta pela Esplanada, depois pela W3 norte, será que as putas trabalhavam no natal? Era cedo ainda pra conferir. Será que se eu desse uns goles no licor alguém perceberia? Meu pai nem gosta de bebida doce, acho que ninguém gosta. Talvez tivesse sido melhor comprar um vinho seco. Parei no estacionamento de um comércio atrás de uma parada de ônibus e me recostei no carro.


A garrafa ia esvaziando e a hora passava. Eu podia sentir lá nos meus tímpanos o telefone tocando sem parar no meu apartamento, minha mãe ligando pra saber onde eu estava, se eu ia ou não, mas eu conversava com um polvo abissal e não tinha tempo pra pensar em outras coisas. Foi quando um estrondo correu pelo asfalto numa velocidade aterradora.


Acendi um cigarro e fui até a beira da pista pra ver o que havia acontecido, um pequeno burburinho se formava a partir de três ou quatro moças e um motorista de ônibus em volta de um motoqueiro.


Desci até a altura do semáforo pra ver o que estava acontecendo. Um taxista havia avançado o sinal, eles disseram.


Não demorou muito vi as luzes de uma ambulância vindo da direção do lago, dois carros da polícia chegaram e os policiais faziam perguntas. O motoqueiro não se movia, não gemia, não esboçava reação.


— Acabei de chegar. Disse a um dos policiais que, desconfiado, não parava de olhar pra garrafa na minha mão.


O motoqueiro foi levado sem vida. A moto estava a uns trinta metros de onde ele havia caído.


Eu tragava meu cigarro, o polvo abissal envolveu seus tentáculos sobre mim.


— É, meu rapaz, existem coisas muito ruins acontecendo neste mundo. Ouvi a voz do motorista do ônibus como se fosse a voz da minha consciência.


— Perdão, o que o senhor disse?


— Eu disse que existem coisas muito ruins acontecendo neste mundo, sabe? Coisas que só um pote de sorvete napolitano pode curar. Dizendo isso deu um tapinha nas minhas costas e subiu de volta pro ônibus enquanto mais carros da polícia chegavam ao local.


Voltei com o polvo abissal envolto em meu pescoço, a garrafa quase vazia, eu deslizava em meus pensamentos como se eles fossem geleia de morango.


Acendi mais um cigarro e de novo me recostei sobre o carro, olhando para as mulheres vestidas de forma provocante que começavam a descer a rua para mais uma noite de trabalho. Será que alguma delas era Jaqueline?


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