O público e o privado na manutenção de uma cena musical

por - 11:07

teatro_do_parque


Lembra quando o Recife tinha várias bandas de rock na ATIVA? Pois é... por onde andam, o que estão fazendo e por que não estamos mais vendo elas fazerem shows? Os motivos são vários, mas derivam de um só: falta de grana. Um mal que desestimula a produção e a circulação musical em grande parte do mundo, fazendo com que cada integrante repense suas prioridades e tenha que trabalhar com outras atividades ou se multiplicar para tocar junto com outras bandas.


Como o incentivo privado no Recife é quase inexistente, ou melhor, só existe como local de show, que na prática você paga mais do que recebe (os cachês de algumas casas de shows mal pagam o que uma banda gastou com ensaio, por exemplo). E como as casas de shows que restaram com alvará não tem todos os equipamentos e backline necessários pra uma banda que tenha quatro integrantes ou 2 guitarras, lá se vão mais custos com amplificador e técnico de som, porque os operadores das casas parecem fazer tudo, menos seguir um rider técnico.


Nessas condições, quem não vai dar razão a uma banda que prefere se reservar do que ter que passar por esse perrengue? Chegamos a um ponto em que não sabemos mais se uma banda acabou, está parada ou está ativa.


Retomando... essa precariedade na iniciativa privada não vem de agora. Sempre vi lugares com ótima estrutura mas que eram mal-administrados, sem falar dos lugares com infra precária, mas com donos com as melhores intenções.


Ainda assim, dava pra se virar e assistir a cada semana um show diferente nos dois ou três lugares de praxe na cidade. Só que isso nunca resolveu os problemas financeiros de nenhuma banda. Era questão de sobrevivência e exposição para um público que em geral não comparece direito aos shows e que reclama do preço de ingresso.


Patio_publico

Virando então a página do descaso da iniciativa privada, a grande diferença que vimos há cinco e seis anos deste cenário de hoje é justamente a falta de investimento público no setor. Em Pernambuco temos atualmente APENAS o Funcultura como aparato institucional de fomento a produções culturais. Com isso, muita gente vem dependendo e usando os projetos do fundo não como um incentivo como deveria ser e sim como um novo trabalho. Não que isso signifique um problema em si. O problema é ver projetos aprovados e gente com talento com discos na gaveta. O artista aprova o projeto do seu CD, grava, lança, mas depois não tem mais onde tocar. E quando toca é unicamente através desta verba.


E quando não dependíamos só do Funcultura? Basta lembrar que na época em que o Recife era ironicamente a "maior casa de shows a céu aberto", a cidade se movimentava, as bandas tocavam, os shows aconteciam, havia circulação de artistas com mais frequência e não acontecia este vazio de apresentações ao vivo neste circuito.


Notem que a oferta de shows promovida pela Prefeitura do Recife até 2009 fazia com que as bandas continuassem na ativa, estimulando uma constante produção por conta principalmente dos cachês que eram acima da média. A verba de cachês dos shows e de eventos especiais em Museus, Teatros e no Pátio de São Pedro ajudou a fomentar e manter viva a carreira de artistas independentes e bandas de diversos estilos que conseguiam fazer justamente o que não conseguem hoje: lançar disco, tocar regulamente e criar um público.


Por mais que haja motivo para criticar este tipo de comportamento até paternalista da Prefeitura do Recife, isso acabava sendo mais benéfico do que prejudicial para a cena. De uma forma ou de outra, a verba destes cachês circulava e ajudava a manter a cadeia produtiva de maneira direta ou indireta com a compra de instrumentos, horas em estúdios, equipe técnica... A grosso modo, estes cachês eram reinvestidos na própria cena. Foi graças a este "subsídio" que tivemos uma melhora significativa na qualidade de gravações e lançamentos a partir dos anos 2000.


E nesta cadeia produtiva musical e independente sempre houve uma codependência entre público/privado na realização de projetos e discos. Mas quando um músico tem que tirar do bolso mais do que investiu para ter que fazer seu show acontecer acabou-se essa sustentabilidade. E neste convívio simultâneo entre shows "de graça", apresentações feitas em bares, festas e festivais, dava pra notar uma união maior entre os agentes culturais e bandas. Um pouco diferente de hoje, onde os poucos que estão na ativa têm que trabalhar e se esforçar ainda mais no empreendedorismo para fazer algo acontecer.


Patio_show


Foi em 2009, no início da gestão do ex-prefeito João da C., que todos os equipamentos culturais da Prefeitura ficaram sem verba orçamentária em nome de uma contenção de despesas em nome da "crise". Uma crise incrivelmente seletiva que corta verbas para o Concurso de Música Carnavalesca e o SPA das Artes, mas que derrama um recurso exorbitante para o buffet do camarote do Carnaval, a realização de um Shopping Day e de uma "Virada Cultural" fake. Isso sem falar do abandono do Teatro do Parque, que era um palco de perfil popular, propício para abrigar shows tanto de MPB como de grupos independentes, além de festivais e outros projetos que aconteciam em seu jardim. Até mesmo a Terça Negra, que acontecia semanalmente no Pátio de São Pedro, teve sua continuidade prejudicada com este "corte" de verbas.


Estes vários anos sem incentivo municipal, que estimulava a produção cotidiana dos artistas locais, veio dar nisso que vemos. Temos uma cidade com poucos palcos e para eventos de mínimo ou de grande porte, mas que continua sendo impeditivo para artistas de pequeno e médio porte, que acabam arcando com todas as despesas para um retorno incerto. É por isso que muita gente tem se preservado, as bandas tem mais gravado e ensaiado do que tocado ao vivo. É por isso ainda que tem proliferado muito mais as festas com DJ do que as festas com bandas.


Fica aqui o recado a quem está envolvido com a nova gestão da Prefeitura do Recife: é preciso brigar pela volta da dotação orçamentária aos equipamentos e gerências da Secretaria de Cultura. Este investimento público em shows e projetos ao vivo de grupos autorais é o mínimo que uma gestão compromissada com a cultura pode fazer. Há que se ter em mente que este mecenato é justo e necessário para suprir a carência de recursos na iniciativa privada, que como sabemos, prefere arriscar no que é certo e garantido de lucro. Sendo assim, se não quisermos passar mais tempo vendo bandas improvisando shows em estruturas precárias e passando aquele tempo parado por falta de perspectivas, esta é uma distorção que o Recife precisa corrigir urgentemente.

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6 comentários

  1. Concordo, Jarmeson. Mas sinto também que os produtores da cidades estão desestimulados, certamente por conta de tudo isso que você apontou. Mas, de qualquer maneira, onde estão os guerreiros de outrora ou os novos? Fixa essa reflexão também. Importante criar também uma movimentação, mesmo que de início não-lucrativa, para chamar a atenção de quem possui dinheiro (privado) e verba pública. A gente sabe que nesse ramo, ser "maria vai com as outras" é como funciona.

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  2. Só para aprofundar um pouco o que disse sucintamente a nossa Viviane Menezes:
    A realidade do "mercado" musical é esse, inclusive na maior parte das grandes capitais brasileiras, o que sempre faltará aos músicos e produtores é atitude movida à criatividade, afinal este quadro também é uma oportunidade para ideias simples e eficientes.

    O Recife é uma cidade tão competitiva que ajuda e prejudica ao mesmo tempo; Ajuda aos músicos e demais envolvidos na cadeia a não copiar o outro, embora ultimamente montar uma programação nos nossos festivais parece mais um ato de reciclagem; e prejudica demais quando todo mundo pensa que pode resolver tudo sozinho, aliás - é impossível fazer arte no Brasil de hoje sem o espírito empreendedor e coletivo.

    O investimento da PCR viciou muita gente que deveria sim investir ao invés de receber tanta grana, a violência ganhou as ruas ao ponto de aprisionar qualquer cidadão mais bem intencionado a sair de casa, o público renova com a mesma velocidade que as notícias vão e vem pela internet, sem mídia de massa e com credibilidade ninguém fica conhecido, enfim, o buraco é muito mais profundo que uma ajuda da Prefeitura da Cidade do Recife, mas depende demais das bandas que precisam encarar sua arte como profissão e fazer a diferença em tudo.

    A.M.

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  3. banda ALLBEDOS continua com tudo...e fuck off geral!

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  4. até concordo..
    mas pra chamar banda sueca e americana pra tocar em festival grande, chamam...
    ou banda nacional mesmo, mas ruim..
    o abril pro rock e o coquetel molotov, q poderiam ser grandes vitrines para as bandas novas recifenses acabam por dar preferencia à 'novas cenas' sulista ou gringa... o espaço q dão para os artistas daqui é secundário dentro da programação geral... sem falar que chamam um ou dois artistas, só pra dizer que chamou..e botam eles pra tocar bem cedo e na maioria das vezes em palcos menores..qdo eles podiam sim estar nos palcos principais!!.. sem falar nos cachês que são verdadeiras esmolas!!.. e os produtores ainda fazem isso como se fosse um favor pra banda.. "olhaí, eu to ajudando vcs, tô fazendo a minha parte pela cena local".. é quase como se estivessem contratando estagiários..

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  5. A banda Prometheu liberto está começando a organizar um festival chamado "Festival Recife Independente", para movimentar as bandas.Vamos organizar a segunda edição(a primeira aconteceu em abril, no teatro mauricio de nassau)lá pra agosto.

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  6. Keyse, o festival No Ar, assim como o APR, acontecem uma vez ao ano. As bandas precisam aparecer e tocar durante o ano. Se não há esse trabalho de shows, como a cena vai funcionar?
    O papel dos festivais assim com as bandas de sua cidade é de dar mais visibilidade e destaque dentro da sua grade de acordo com o merecimento ou público que atrai. Já tivemos anos em que bandas novas já tocaram no Teatro ou mesmo mais tarde dentro da programação da Sala Cine UFPE. É uma "hierarquia" que ocorre com qualquer grande evento no mundo, onde os artistas mais recentes se apresentam antes das atrações convidadas. Afinal, a chance que o público tem de ver esses artistas de fora é bem menor do que uma atração conterrânea, justo por isso é que mais gente espera por elas. Quanto ao fator de gosto, se acha que uma é boa e outra é ruim, aí é questão pessoal mesmo.

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