Queens of The Stone Age - ...Like Clockwork

por - 11:05

Queens of The Stone Age - Like Clockwork

...Like Clockwork

Queens of The Stone Age

Matador (2013)

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Matador Records


Todo mundo acaba passando por uma adolescência musical. É uma “evolução” como as várias outras que acontecem no seu corpo, como o crescimento e os pensamentos errados. A minha adolescência musical começou quando eu parei de ouvir Beatles e comecei a procurar alguma coisa nova. Aí vieram os intermináveis meses daquelas bandas pops que se diziam emo, depois quase um ano de headbanger, seguido pela febre skatista-maneiro-blink 182. Depois disso vieram, muito rapidamente, a fase do indie rock, do samba-rock barbudo do Los Hermanos, e por fim, da música instrumental e experimental em geral: shoegaze, post-rock, essas viagens. Desde sempre, eu parecia estar numa caçada. Eu decompunha cada uma das coisas que eu ouvia e separava os vários aspectos: isso eu curtia; essa outra parte não. A partir daí, eu conseguia chegar até alguma coisa que eu gostasse ainda mais do que a obra analisada. Meio frio né? Como o mecanismo de um relógio... O que importa é que eu cheguei num certo impasse entre a época do metal pesado e do indie, samba rock. No Metallica e nessas outras bandas, o peso era claro e satisfatório, mas faltava alguma coisa. O indie tinha essa outra coisa que faltava, mas às vezes era um tanto quanto broxante. Foi quando eu descobri o Queens of the Stone Age.


Eu não vou dar o background da banda, porque eu imagino que todo mundo conheça a trupe do Josh Homme. Descobri o QOTSA a pouco tempo, provavelmente em 2010, e nunca consegui entender o que é exatamente que me prendia a eles. Até que eu assisti um show deles pela primeira vez, no Lollapalooza desse ano. E ouvi o ...Like Clockwork, o primeiro disco de inéditas deles desde o Era Vulgaris (2007). O álbum ainda não chegou às lojas, mas como o mundo inteiro é muito espertinho hoje em dia, o CD já está por aí. 2013 tem sido o ano dos grandes hypes e da divulgação: tivemos o Daft Punk que não lançava material inédito há um bom tempo e preparou um documentário para apresentar seu novo disco; O Queens Of The Stone Age, por sua vez, enviou algumas cartas misteriosas para revistas de música e por fim, liberou uma série de vídeos (animações lindas feitas por Boneface, responsável também pela artwork do disco) que contam uma espécie de história que traduz muito bem o conteúdo do disco.


De qualquer forma, tratam-se de dez músicas que conseguiram exprimir o espírito da banda. Além da bonita estratégia de divulgação, a banda contou com várias participações especiais, como Nick Oliveri, o lendário e querido ex-baixista careca e barbudo do Queens; Trent Reznor, do Nine Inch Nails e tantos outros projetos; Brody Dalle, esposa de Josh e cantora do The Distillers; Mark Lanegan, ex-membro do Queens; Alex Turner, vocalista do Arctic Monkeys e pupilo dedicado de Homme; Jake Shears, o vocalista do Scissor Sisters (sim meus amigos, Scissor Sisters); sem contar Dave Grohl, o workaholic do Foo Fighters nas baterias, e até Sir Elton John.


Segundo o próprio Josh, ...Like Clockwork é como “correr num sonho, num cabaré de codeína”, e eu acho que foi uma das descrições mais esclarecedoras sobre o disco. Você vê, o trabalho deles é uma representação de um poço emocional incrivelmente fundo e sujo. Mesmo. E a verdade é que todas as pessoas vão dar de cara com esse poço, em um momento ou outro. Alguns artistas vão sair correndo e jurar pelas suas mães que não existe poço nenhum. Outros vão acabar caindo e vão escalar o caminho de volta até a superfície como se não houvesse nenhuma alternativa. ...Like Clockwork, meus amigos, é o Queens rindo da cara do poço. O Queens Of The Stone Age assumiu, pelo menos pra mim, uma carga ideológica importantíssima: as letras, principalmente nesse disco, são bem fortes e depressivas. Trechos como “& I know. You will never believe/ I play this as though I’m alright/ If life is but a dream, then/ Wake me” deixam bem claro que as coisas não estão bem. Mas a magia acontece precisamente nesse instante: a partir do momento em que se aceita o caos como ele é, torna-se livre.


Em ...Like Clockwork, Josh Homme zomba da morte. Os versos depressivos são acompanhados de uma ironia e sarcasmo libertadores, e em alguns momentos você acaba esquecendo que estão cantando sobre solidão, afogamento na vida, promessas quebradas e depressão. O instrumental da banda segue o mesmo rumo: Num ambiente escuro e assustador, uma quebradeira louca consegue se transformar instantaneamente numa canção de ninar (de um bebê chapado, talvez, mas ainda assim uma canção de ninar). Você pode sentir todas as dores da vida em cada um dos acordes, mas chega-se a um ponto em que a beleza presente naquilo tudo se sobressai. As melodias e as harmonias intricadas fazem um misto bizarro com o rock cru e dopado, mas tudo se encaminha como num processo de hipnose. Quando você se dá conta de onde está, o silêncio embala um piano que toca enquanto Josh Homme canta alguns dos versos mais tristes, sérios e bonitos que eu já ouvi: “Holding on too long is just fear of letting go/ Because not everything that goes around, comes back around, you know?”.


Quando você finalmente aprende a deixar o medo e a confusão irem embora durante um dos vários trechos catárticos de ...Like Clockwork, a música acaba, de repente, como se estivesse confirmando que nem tudo que vai, volta. O novo álbum do QOTSA pode ser resumido da seguinte maneira: ...Like Clockwork parece ser o que aconteceria caso um monge budista encontrasse o nirvana enquanto enche a cara e toma antidepressivos na parte mais baixa da cidade maior e mais suja do mundo, assistindo ao pôr do sol.

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4 comentários

  1. MAGNIFICA RESENHA. Faço de suas palavras as minhas.

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  2. QOTSA é a banda mais foda existente. Sem mais.

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  3. Poxa, cara. Gostei da resenha e do blog.
    To a procura de um blog bacana, gostava mt do Tiago Superoito, mas ele abandonou o site.
    Fui pro Miojo Indie, mas ela é cheia de burocracia. Apesar de eu amar o Indie Rock (sim, gosto do Arctic Monkeys, e a banda, pra mim, é diferente das outras q surgiram década passada e, sim, sei q a Miojo Indie gosta de loucura e efeitos).

    Já curti seu blog no face e vou fuxicar mais aki. Apesar de eu achar q nunca vou encontrar um tão bom quanto o do Superoito.
    Bela resenha, é o melhor álbum. Só perde pro do Nick Cave (eu gostei).

    Vc pode me recomendar mais um site?

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  4. muito boa a resenha!!!

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