Touch of Evil: Jardim das ciladas

por - 11:05

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Todo alvoroço em volta de Citizen Kane acaba por ofuscar outras obras da filmografia de Orson Welles. Se todos reconhecemos o pioneirismo de linguagem desenvolvida por Welles em seu primeiro longa, assistindo suas outras fitas, chegamos à conclusão de que a inquietude inventiva do diretor não pertence apenas a uma obra. Quanto mais assistimos a seus filmes, melhor compreendemos a grandiosidade de seu maior clássico.

Citizen Kane é muito lembrado pela perfeição técnica. Embora essa perfeição também esteja presente em Touch of Evil, neste é perceptível o lado mais experimental do diretor. Não que Citizen Kane não seja, mas no primeiro longa de Welles a invenção é manifestada de forma limpa, há uma higiene estética. Em Touch of Evil a invenção aparece mais espontânea, livre, por vezes desesperada.

Um pequeno exemplo é a primeira cena , considerada um dos maiores planos sequências da história do cinema. A câmera passeia entre elementos determinantes para a trama: a bomba, o carro a ser explodido, o casal a ser assassinado, o mocinho e sua esposa, até chegar na explosão. O famoso plano sequência é tecnicamente impecável, limpo, harmonioso, uma perfeita coreografia de câmera, cenário, figurantes e personagens. Porém, no momento da explosão, há um corte brusco. A câmera dá um close-up quase grotesco no carro em chamas. A cena volta para Vargas (o mocinho interpretado por Charlton Heston), ele corre em direção ao carro em chamas e Welles opta pela trêmula câmera na mão. Descobrimos a primeira armadilha criada por Welles.

Apesar de Citizen Kane não ter sido na época tão bem recebido pelo mercado norte-americano, o próprio mercado, bem como o cinema mundial, dali em diante, aderiu às invenções de Welles, muito em função de suas qualidades técnicas. Já Touch of Evil opta por elementos execrados por Hollywood, que já vinham sendo explorados pelo neo realismo e posteriormente pela nouvelle vague. Fico imaginando os executivos da Universal, se deslumbrando com a primeira sequência do filme, ousada, porém sedutora, hipnotizante (como em Citizen Kane, só que 17 anos depois), e se deparando a seguir com uma violência estética pouco assimilada à indústria da época: câmeras diagonais, câmera na mão, planos médios ou fechados filmados quase da altura do chão, personagens ambíguos em um território que deveria ser maniqueísta, ritmo vertiginoso, informações entrelaçadas.

Horrorizada com o resultado, a Universal despediu Welles e decidiu remontar o filme, além de acrescentar à fita cenas adicionais, filmadas por terceiros, com o intuito de deixar o filme mais compreensível.

Essa opção pela linguagem mais visceral não é novo território para Welles, basta assistir ao seu primeiro curta-metragem, The Heart of Age, no qual a habilidade técnica não é a característica mais notável. Percebemos, no entanto, uma influência gritante do cinema de vanguarda europeu do começo do século.

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Touch of Evil é uma obra que faz Welles regressar à forma mais bruta e orgânica de sua invenção. Em uma cena, Vargas usa o telefone de uma loja, a proprietária é cega. Welles usa uma cega real para interpretar o papel. Enquanto Vargas usa o telefone, a cega fica em primeiro plano. Esse detalhe dá um caráter humano à cena, coisa até hoje muito pouco assimilada pelo cinema comercial.

Outra armadilha do filme está em sua configuração dramática e na presença secundária do protagonista da trama, Vargas, agente policial do lado mexicano da fronteira. Ele é atropelado pela presença de outra personagem, capitão Hank Quinlan, interpretado pelo próprio Welles. Quinlan é um policial do lado norte-americano da fronteira, veterano, corrupto, alcoólatra e traumatizado pelo assassinato de sua esposa, que morreu estrangulada. No auge de seus 120 quilos, Welles interpreta a personagem mais interessante da fita. O que poderia ser um vilão mau-caráter saído de um filme noir, acaba sendo um personagem extremamente ambíguo, violento e frágil, que vive em conflito consigo mesmo e caminha para a autodestruição em nome de seus impulsos, parecido com o seu Charles Foster Kane.

Vargas está em lua-de-mel com sua esposa Susan (Janet Leigh), acabam presenciando na fronteira a explosão de um carro, no qual morre um milionário e uma dançarina de cabaret. O agente logo começa a trabalhar no caso e se depara com Quinlan. Os dois se chocam desde o primeiro encontro. O confronto aumenta quando Quinlan planta provas falsas na casa de um suspeito mexicano, recém-casado com a filha do milionário assassinado. Em nome da justiça, Vargas declara guerra à carreira de Quinlan.

Quinlan é racista e xenófobo, não gosta de mexicanos. Novamente caímos numa armadilha. Fica embutido no filme um festival de conflitos étnicos. Teria Welles a percepção sarcástica de que é muito mais fácil para uma sociedade segregadora como a norte-americana se encantar mais pelo vilão branco e racista que pelo mocinho mexicano de pele escura? Mesmo que essa pele escura seja um bronzeamento grotesco do ator Charlton Heston? A guerra étnica inconsciente dentro da trama prossegue.

Vargas, o mexicano fake, é casado com uma branca norte-americana, Susan. No decorrer do filme, ela passa por uma sequência de apuros causados pela mafiosa família Grandi. Os membros desse clã são interpretados por latinos originais, esses mexicanos reais atormentam a vida da personagem loura como um bando de demônios.

Vargas, um mexicano em ascensão social, é apenas suportado pelos brancos por conta de suas condições. Ao mesmo tempo, ele persegue toda a família criminosa Grandi, seus conterrâneos. Vargas se desespera para solucionar o caso da explosão, temendo uma crise diplomática entre Estados Unidos e México. O investigador mexicano, que vislumbra a possibilidade de se adequar ao sonho americano, não quer ver sua reputação ir por água abaixo em função dessa crise.

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Temos dentro da trama dois tipos de mexicanos: de um lado, os Grandi, mexicanos marginais; do outro, Vargas, o mexicano de alma branca (sua alma branca é a pele clara de Charlton; um ator branco pintado vale mais para hollyhood que mexicanos naturais). Vargas odeia os Grandi, que acabam sempre descontando em sua esposa loura. Quinlan odeia Vargas por ele estar disputando o seu espaço social: enquanto Vargas é um mexicano que prospera, Quinlan é um branco decadente e desiludido com a própria profissão. O policial corrupto não odeia os Grandi, mas os trata como baratas inofensivas e até estrangula um deles como se fosse uma galinha. A família Grandi está no grau mais baixo de aceitação, pois são menosprezados por todas as outras personagens.

A luta entre Vargas e Quinlan é social. Vargas defende o acusado mexicano não por solidariedade ao conterrâneo, mas, sim, porque Quinlan sempre joga em sua cara a sua origem, bem como questiona seus espaços conquistados na sociedade. O assassinato da sequência inicial do filme perde todo o sentido para Vargas. A sua honra e vaidade fala mais alto que tudo. Já não responde em nome da justiça, mas para conquistar seu lugar na sociedade. Prova disso é o jeito como abandona sua esposa nas mãos dos perigos criados pela família Grandi.

Quinlan continua a preencher um espaço absurdo dentro do drama e é rodeado por outros personagens fascinantes, como Tanya (Marlene Dietrich), “Tio” Joe Grandi (Akim Tamiroff), o vilão cubista e o Sargento Pete Menzies (Joseph Calleia), espécie de Sancho Pança de Quinlan. É também notável a presença do ator Dennis Weaver, que interpreta o hilário e neurótico vigia do motel Mirador. A fotografia soturna e ousada de Russell Metty, bem como a música de Henry Mancini são dois espetáculos à parte.

Apesar de nos últimos tempos a figura de Orson Welles ficar em destaque entre os realizadores mais importantes da história, o cineasta sempre incomodou a indústria cinematográfica e teve uma carreira repleta de dificuldades em função de seu espírito inquieto e desbravador. Touch of Evil continua atual e é possível ainda hoje sentir os impactos da obra de um artista fadado ao sacrifício de criar e sofrer as consequências de suas sucessivas invenções. O que notamos é que além de ser um criador sagaz, Welles tentou sempre dialogar com Hollywood e as produtoras, conteve-se, criou artifícios e pequenas ciladas para driblar a indústria. Mesmo assim, a sua obra continuou a atormentar o cinema comercial. Talvez, se Hollywood o apoiasse, ele pudesse ir mais longe e, quem sabe, o mundo não suportasse.

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Direção – Orson Welles
Roteiro - Orson Welles
Elenco original - Orson Welles, Charlton Heston, Janet Leigh, Marlene Dietrich, Akim Tamiroff
Estúdio – Universal Pictures
Produção – Albert Zugsmith
Direção de fotografia – Russell Metty
Direção de arte – Robert Clatworthy e Alexander Golitzen
Figurino – Bill Thomas
Edição – Edward Curtiss, Aaron Stell e Virgil W. Vogel
Música – Henry Mancini
EUA – 1958

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