Um papo sobre arte: com Daaniel Araújo e George Frizzo

por - 14:09

Daaniel_Por_Daaniel e George_Por_Marilia Camelo

O lance é o seguinte, cerca de três anos atrás começamos uma parada sem saber muito no que ia dar. Resolvemos começar a criar coletâneas especiais para o Hominis Canidae, inicialmente pensando em coletas comemorativas de aniversário, mas resolvemos que seria legal tentar fazer uma por mês. Um dos principais motivadores para que fizéssemos isso foi George Frizzo, designer baiano radicado em Fortaleza e velho conhecido meu. Ele fez a arte de uma das primeiras coletas lançadas por nós e disse que quando precisasse ele faria outras, tanto que acabou fazendo em todos os aniversários até o presente instante.


Porém o que começou com uma brincadeira, hoje em dia nós dá muito orgulho. Orgulho em dizer que já temos 40 coletas lançadas, todas com arte própria e feita por artistas de diversos locais do Brasil. São exatos 38 artistas que já fizeram alguma arte para nós, tem gente de João Pessoa, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife e por ai vai. Outro que tem mais de uma arte no currículo é o pernambucano Daaniel Araújo, que já fez arte pro HC, pra mixtape do Cena Independente #2 e a do Cena Independente especial de Pernambuco.


Resolvemos então iniciar uma sessão por aqui, onde tentaremos falar um pouco sobre arte e dar um pouco mais de espaço para os artistas que já participaram de alguma de nossas coletas. Pra começar, falamos com os dois maiores colaboradores dessa breve historia virtual que temos. Com vocês, um papo sobre arte com essas pessoas distintas e geniais, com vocês Daaniel Araújo e George Frizzo...


Conciencia_Daaniel


O que te fez querer trabalhar com artes visuais? Pintura, como designer, etc?

Daaniel: Eu sempre quis me comunicar, na década de 90 fazia alguns desenhos e escrevia algumas coisas, tinha uma real vontade de comunicar, mas o produto dessa época era muito pessoal eu não sabia exatamente o que eu procurava com isso. Era mais uma vontade de fazer coisas.  Quando decidi fazer design esperava trabalhar criando marcas e produtos, naturalmente com o aprofundamento das técnicas de desenho, composição, fotografia, foram crescendo em mim uma necessidade de exercitar um lado mais autoral sempre foi algo que fiz em paralelo e em algumas circunstancias em concordância com meus trabalhos como designer gráfico, mas nem sempre.


Quando você se descobriu designer? Quando você percebeu que trabalharia com artes visuais?


George: Comecei a trabalhar com artes gráficas quando comecei a me envolver com música. Bem cedo. Antes, na escola, gostava de ficar desenhando nos cadernos pra passar o tempo, mas foi quando montei minha primeira banda que comecei a pensar no visual. Então a música e as artes gráficas vieram quase juntas. Eu fazia todo o material gráfico da banda que tocava; fazia as capas das fitas, dos discos, as camisetas, os cartazes dos shows, por pura necessidade mesmo. Ai a coisa foi evoluindo e passei a fazer trabalhos também para outras bandas. Cobrava quase nada só pelo prazer de fazer um material bacana para as bandas que estavam começando e que também não tinham muita grana pra pagar. Com um tempo também passei a fazer cartazes e material gráfico pros lugares onde essas bandas tocavam que eram lugares que eu frequentava também. E a coisa foi indo. Mas só fui trabalhar profissionalmente com Design e programação visual um bom tempo depois.


Capa SOH_George Frizzo


Mas você fez algum curso ou é autodidata? Pra você, quanto de "autodidatismo" e quanto de estudo técnico são necessários para trabalhar como designer gráfico?


George: Eu tenho formação acadêmica em Design Gráfico. Mas aprendi muita coisa na marra, observando outros designers, lendo tutoriais, pesquisando coisas na internet. É legal o lance do autodidatismo, mas acho importante ter noção da parte técnica das coisas. Uma coisa não exclui a outra, só complementa, acho que o ideal seria meio a meio. Quando comecei a trabalhar com Design eu estava me formando na faculdade em uma parada meio nada a ver com Design, Ciências Sociais. Mas sentia necessidade de um estudo formal em Design pra melhor no que eu trabalhava. Mas foi um lance meu.


Tu falou que na década de 90 já fazia uns desenhos, nessa época tu morava na Inglaterra? Você acha que essa experiência em outro continente influenciou no seu tipo de traço/arte?


Daaniel: Pois é, morei sim entre 94 e 2000 morei cinco anos lá. Acho que voltei recém feito 17, terminei a high school por lá e voltei para Brasil pouco depois disso. Passei um tempo meio perdido na ideia do o que fazer da vida, passava grande parte do tempo escrevendo coisas, letras para musica, escutando música e fazendo desenhos aleatórios no caderno quando não me interessava na aula. Optei pelo design, pois já tinha estudado design gráfico, marcenaria e arte plástica na escola na Inglaterra, sempre gostei muito de ter tido a oportunidade de ter estudado isso antes de pensar em um curso especifico.


Juntos-até-no-fim_Daaniel Araujo

Isso explica os seus trabalhos com madeira, acrílico, etc, porque isso não se aprende em design. Qual é sua maior inspiração para fazer seus trabalhos audiovisuais?


Daaniel: Na verdade eu pessoalmente nunca fiz muitos trabalhos áudio visuais, sempre foi Luiz Pessoa (parceiro de banda Sãomer Zwadomit) que cuidou mais dessa parte, mas o Áudio Visual em si é uma grande inspiração assim como musica normalmente trabalho escutando musica, pois o dia a dia aqui no atelier pode ser bem solitário, então clipes e trechos de filme cenas que eu lembro que me marcaram por algum motivo terminam virando ideias para meus trabalhos.


No que ter estudado Ciências Sociais está presente ou influencia no seu trabalho de design?


George: Sei lá. Não tem como eu dizer, isso pra mim é só design e aquilo é algo que tem uma preocupação social. Acho que misturo tudo, mesmo que inconscientemente e essa influencia da sociologia nem sempre fique aparente. É como uma bagagem que a gente vai adquirindo ao longo do tempo e que de certa forma refletem no que a gente faz. Mas assim como a sociologia, tem a literatura, tem o cinema, tem as viagens e tem principalmente a música.


CHC_ANO1_CAPA_CONTRA_George Frizzo


Quais são teus ídolos?


George: Cara, eu não sou muito de cultivar ídolos. Acredito que o ídolo é uma ilusão, é uma construção que o fã faz de uma pessoa que admira muito, multiplicando as qualidades desse "ídolo" e criando uma nova personalidade que não corresponde a realidade. É uma viagem minha achar isso, mas eu realmente não sou muito de me apegar a personalidades e coloca-las em um pedestal. Tem muita gente que tem trabalhos legais tanto na música quanto no Design e Artes gráficas que de certa forma, pouco ou muito, mesmo que subliminarmente, me influenciam no que faço, não só no trabalho de Design como em tudo. Gosto de ouvir muita coisa e por causa do programa de rádio online (Superdrive) que faço, acabo ouvindo muita coisa nova como Astronauta Marinho, daqui de Fortaleza, tem também o Jair Naves, Tame Impala, Terra Tenebrosa, Ghost BC. Tem os clássicos como Interpol, Sonic Youth, Mogwai, Neurosis, Slayer, Napalm Death, por ai vai.


No Design e artes gráficas eu poderia citar Eduardo Recife, Thomas Schostock, Renato Alarcão, Sesper, Dani Hasse, Raul Luna. Tem também o pessoal da Mooz, do Bicicleta Sem Freio, da Monstra daqui de Fortaleza, o Weaver, Jabson, Michel, Everton, Franklin, e sempre surgem novos designers e artistas gráficos que são foda. Sei lá, tem tanta coisa bacana sendo feita no mundo que acho muito limitado a se prender a um único "ídolo".


Quem são seus ídolos?


Daaniel: Tenho muitos ídolos, alguns mais por suas ideias, outros por seu trabalho. Termina que são muitos ídolos, mas para citar alguns. Digo que Andy Walhol, Picasso, Kandinsky, Pink Floyd e Radiohead dominam bastante meu imaginário.


Perigo_Por Daaniel Araujo


Pra fechar, você se considera um artista? E quando você percebeu que queria viver de sua arte? Se sente confortável com isso?


Daaniel: Me considero um artista em formação, a escolha de viver da arte é um sonho antigo pois sempre adorei pensar sobre arte e fazer arte que fosse musica ou desenho, logo uma hora me percebi munido de capacidade de gerar trabalhos para atender minhas próprias ideias. Conforto é um sentimento muito complicado para mim quando se fala em quesitos de trabalho, trabalhei por muitos anos em empresas de Design e Publicidade em algum momento a situação confortável da rotina me deixou muito inquieto, eu tenho um problema com fazer as coisas de uma única forma então conforto é uma coisa que inevitavelmente fica complicado quando você trabalhar nos planos das ideias, no meu ponto de vista é claro.


Pra terminar, eu vejo relação entre todas as artes que você fez pro hominis. A minha pergunta é: você tenta contar alguma historia ou passar alguma historia com suas artes?


George: Bem, sim e não. Procuro fazer cada trabalho baseado em uma ideia inicial, não necessariamente uma historia, ou um "conceito", mas uma ideia em forma de imagem que tenha alguma relação com a informação que ela deva passar no cartaz, ou na capa de um disco ou livro. A partir dessa ideia inicial vou montando a "arte" até chegar no resultado imaginado. Muitas vezes o resultado final é totalmente diferente da ideia inicial. E é essa a graça do negocio, não seguir uma fórmula. O resultado final pode fazer sentido ou não. Deixo essa analise pros outros.


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