A conquista de um (novo) Belo Horizonte – O protesto contra o aumento da tarifa em terras mineiras

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Os elementos mais fortes do universo são crescentes e contagiantes como faíscas, doenças ou o próprio fluxo das águas. O medo, a fúria, a coragem e até mesmo o amor, são forças que nascem dos momentos mais inesperados, nas proporções mais ínfimas e descartáveis possíveis, e espalham-se como pelo ar.


Hoje nos espalhamos em medo, em coragem, em fúria e em muito amor pelas ruas disputadas de Belo Horizonte, na espécie de batalha mais bonita que existe: A batalha pelo coração das pessoas.


Hoje assisti o numero de manifestantes que se reuniam inicialmente na praça da Savassi triplicar, quintuplicar, crescer inacreditavelmente de numero a cada grito, a cada verso improvisado nos megafones, a cada par de pés que soltava o chão e levantava bandeiras, punhos em riste e cartazes com a certeza de que quando voltassem ao asfalto duro e intransigente, o mundo que os rodeava se tornaria outro.


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Assisti nesse dia muitas das cenas mais bonitas de toda a minha vida; A senhora de idade que acenava sorrindo da janela e pedia para que esperássemos a sua companhia ali embaixo; vi o medo se dissipar entre os olhos de todos os manifestantes alertas enquanto a Policia Militar - que em outros estados foi a grande vilã das manifestações – cumpria o seu papel e PROTEGIA o povo que marchava em busca da liberdade, seja na praça que recebe o seu nome, seja nas ruas interditadas contra a vontade do Governo Estadual, que proibiu qualquer tipo de manifestação durante a Copa das Confederações; Senti o corpo inteiro tremer como se a rua fosse um enorme caldeirão, um interminável estádio de futebol que repetia as mesmas palavras de ordem, mudança, revolução e liberdade como um só organismo vivo.


As canções surgiam enquanto os manifestantes testavam versos e frases de efeito, e a cidade inteira se calou para ver aquele gigante que surgia: Os mais velhos retornaram às ruas, saudosos dos tempos de passeatas; os motoristas dos ônibus agarraram nossas bandeiras e buzinaram em apoio à causa. Alguns policiais até riam e conversavam com o povo.


Acho que nunca mais vou me esquecer da cena que pintou a praça sete: O pirulito de concreto coberto de pessoas, a sua ponta surgindo entre as bandeiras e o vento. O vento que nos mostrava que ali, naquele momento, não havia necessidade de vinagre, nem de rostos escondidos, nem de medo ou desentendimento.


O grito ressoou único e passou por cima de todas as diferenças sociais, espirituais e de idade. E quando finalmente alcançamos a Praça da Estação cantando e arrastando trabalhadores e transeuntes de todos os perfis em rumo às barreiras que cercavam a praça do povo - ocupada por quem assistia a copa das confederações no evento oficial – não havia o que pudesse nos parar.


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É claro que o movimento encontrou discussões, pequenas desavenças e discordâncias durante o trajeto. É claro que a ação ficou dividida, e que haviam tanto aqueles a favor do protesto pacífico e os poucos que desejavam invadir o evento da Copa. É óbvio também, que não conseguiríamos o apoio de toda a população: motoristas irritados acabaram por avançar com seus carros em direção aos manifestantes que fechavam um sinal – e pasmem – foram socorridos pela PM. O movimento acabou por se dispersar ao final, as pessoas sedentas pelo retorno à luta, na segunda feira, junto ao resto do país e do mundo que nos assiste, nesses dias tão difíceis.


Pode ser que o nosso futuro não mude. Pode ser que essa manifestação se perca em meio a tantas outras reivindicações e urgências da sociedade. Mas assim como o medo, a paixão, a coragem, o vinagre, o suor, as lágrimas e as pessoas, a revolução e a mudança costumam se espalhar no ar. Como o fluxo interminável das águas, a cidade acordou hoje de um sono profundo e inerte; mas os sentimentos que pairam hoje no nosso horizonte me deixam mais do que crente de que não nos adormeceremos novamente. Agora os fatos, mais precisamente explicados:


-Tudo começou com a reunião de organização do Manifesto na Praça da Savassi, às 13 horas. -A policia militar cercava o local e inspecionou mochilas de alguns dos jovens que chegavam à praça. Nenhum enfrentamento ocorreu. -Depois da reunião e da realização do COPELADA, partida de futebol lúdica para todos aqueles marginalizados pela copa, os manifestantes desceram a Cristovão Colombo em direção à Praça da Liberdade. -Numeros crescentes, o movimento seguiu em direção à Praça Sete, e após outra concentração e ocupação, seguiu para a Praça da Estação. - Na praça da estação, acontecia evento da Copa das Confederações, e os manifestantes se dirigiram às entradas do local, segurança reforçada, para gritar as suas reivindicações. -A Policia Militar agiu com tranquilidade e foi de vital importância para a realização do protesto. Aparentemente, nenhum enfrentamento entre policiais e manifestantes aconteceu. -Saindo da Praça da Estação, ao fechar um sinal de trânsito, manifestantes encontraram problemas com motoristas de carros que avançaram em direção à mobilização. A policia interviu criando um cordão de isolamento e não houveram, me parece, maiores problemas. - Foi definida a organização de um SEGUNDO manifesto, nessa segunda-feira, data que marcará ações em todo o país.


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