A metralhadora e a balela

por - 11:08

K9 Um Policial Bom Pra Cachorro


A preocupação maior era com uma verruga grotesca que aparecera de um dia para o outro, bem na ponta do meu nariz.


Domingo comia e bebia até rir de tudo, até mesmo dos programas de auditório que infestam a TV nesse dia desnecessário. Não que o domingo não devesse existir ou que eu o detestasse completamente, mas é que num domingo nada se justifica a não ser as tentativas constantes de superá-lo. Tudo que se quer é uma metralhadora para cravar de balas o teto quando qualquer coisa estúpida o irrita mais do que o motivo torpe pelo qual você está bêbado de vinho barato antes do meio dia, e aí até a coreografia das mulheres que dançam no palco dos programas de auditório te hipnotiza e faz todo sentido do mundo. Puta que pariu...


A velha poltrona rangendo cada vez mais alto toda vez que eu me curvava para pegar o copo de requeijão cheio de vinho para dar mais um gole, o Bombril na minha antena, me dando esperanças de que o chuvisco não vai tomar conta da tela distorcendo e encobrindo as bundas das dançarinas, o assoalho da sala cheio de farelo do pão francês que comi ontem antes de adormecer. Aqueles malditos do supermercado me ludibriaram de novo, me venderam apresuntado ao invés de presunto. Eu rezava a Nélson Gonçalves para me acudir nesse dia de febre, mas isso eu não confessava nem às paredes.


Felizmente, para o bem ou para o mal, a fita que eu havia alugado me poupou um pouco dos programas de auditório, era 1992 e naquela época as pessoas ainda alugavam filmes. K-9: Um Policial Bom Pra Cachorro, com o bestial James Belushi. Diálogos sensacionais entre Dooley e Jerry Lee, atuações preciosas nunca antes vistas e jamais outrora repetidas em sua simplicidade e essência, uma verdadeira joia da Sétima Arte.


VHS, inesquecível, eu diria. Rebobinar a fita, caso não, levar multa, eram tempos difíceis, ainda não éramos tetra. Por que eu aluguei tal filme? Não saberia responder até que chegasse segunda-feira.


Locadora


Depois de ficar convencido através daquele filme de que não há limites para o sadismo humano, eu estava prestes a superar o domingo, rebobinei a fita e saí para devolve-lo na locadora, passava das dez e meia da noite e eu precisava fugir de outras coisas tenebrosas, como o Fantástico, o Topa Tudo Por Dinheiro, e principalmente da minha verruga nova. Na locadora...


— E aí ele disse: Não, nós não temos bananas. Haha!


Assim como tenho a certeza no âmago de minha alma de que não existe vida após um filme do James Belushi, eu tinha certeza de que aquela era uma piada de um cinéfilo para um cinéfilo, José Wilker teria se dobrado de rir, era uma coisa óbvia, que outro tipo de piada se contaria dentro de uma locadora?


Coloquei-me em uma pequena fila, logo atrás de uma moça que olhava fixamente para a televisão no suporte logo acima da cabeça do dono da locadora, não consegui identificar o filme que eles estavam exibindo, e também não quis perguntar, mas achei muito bom, em menos de cinco minutos que estive lá dentro mais de vinte pessoas foram brutalmente mortas por um homem com um sobretudo preto em um salão de festas, elas caiam como moscas. Como diria meu pai, aquilo sim era filme de macho, e ninguém dialogava com animais.


Depois de sair da locadora faltava bem pouco para superar o domingo completamente, então fui até o supermercado xingar o infeliz que havia me enganado com a balela do presunto e do apresuntado, “é tudo a mesma coisa”, ele disse. Era um safado, isso sim, e eu um estúpido caindo dentro do vale profundo daqueles que tem hoje cara do que já passou, ele provavelmente ria de mim até ficar sem ar agora mesmo, nesse exato instante.


Dei de cara com as portas fechadas, não era uma franquia vinte e quatro horas. Peguei uma garrafa de vidro que havia no chão e a espatifei contra a porta principal do supermercado. Tive que me contentar em voltar para casa perguntando à minha nova verruga sobre os motivos de sua chegada inesperada, e então me dei conta de que a convivência seria inevitável, assim como o apresuntado em cima da mesa da cozinha, os farelos de pão pela casa e a chegada do domingo novamente daqui uma semana.

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