Bem vindo ao Texas: a visão de duas recifenses que foram encurraladas pelo Choque

por - 14:07

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Sempre tive medo de policiais, desde a adolescência. Teoricamente, não tinha motivos aparentes para isso: vinda de uma família pequeno-burguesa do Recife, sou branca e tenho olhos claros ou seja, teoricamente, não apresento nenhuma ameaça à “paz” da sociedade. Teoricamente. Porque também desde a adolescência, aprendi com minha mãe a lutar pelos meus direitos e ir para manifestações e afins. E é aí que o bicho pega. Na passeata, percebi logo que a polícia não enxerga diferença entre os manifestantes. Somos todos um incômodo. E quanto maior o número de pessoas, maior o incômodo. Maior o incômodo, maior a violência da polícia para “restituir a ordem”.


Ontem, ao sair de casa para encontrar Pri no ato contra o aumento da tarifa, ouvi do amigo com quem divido apartamento alguns alertas preocupados e pedidos de cuidado. Até aí tudo tranquilo, cheguei no Teatro Municipal com a ajuda de uma funcionária do metrô, que além das direções me disse, sorridente: “luta mesmo, minha filha, que eu não posso sair dessa cabine para lutar também”.


Na frente do Municipal, tudo lindo. Nunca havia sentido aquilo, em nenhuma das manifestações que fui – talvez um pouco no Ocupe Estelita – era um mar de gente, lutando pelos direitos de sua cidade e seu país (se você não entendeu ainda, não é sobre 20 centavos). Claro, eu estava temerosa: não tinha ido nas passeatas anteriores por causa de um freela, mas acompanho os noticiários (oficiais e não oficiais) e escuto os barulhos das bombas/tiros daqui de casa. Mas ao longo da caminhada, vendo tanta gente feliz, se abraçando, cantando, se reencontrando, perdi o medo. Estava ali revendo uma das minhas melhores amigas, e estávamos, as duas, nos sentindo vivas como nunca.


Chegando perto da Rua Maria Antônia, percebi o clima mudando. Uma das manifestantes que passava ao meu lado falou para a amiga: “fica junto de mim, aqui é perigoso, eles podem encurralar a gente”. Logo em seguida, uma jornalista conversou sorridente conosco e nos deu aquelas máscaras brancas de hospital. “Vou ser presa se me pegarem com isso”, disse ela, com um sorriso temeroso. Na hora falei: “vai nada!”, mas, minutos depois, entendi perfeitamente o que ela dizia.


Entre aqueles gritos ensaiados em boa parte dos atos Brasil afora, um se fazia extremamente vivo: caminhando, gritávamos “SEM VIOLÊNCIA!”, enquanto as pessoas nos prédios apoiavam e tiravam fotos. Ao entrar na Maria Antônia a resposta foi outra: dessa vez, da PM. Tiros de balas de borracha, bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo. A máscara, entregue por uma estranha gentil, nos salvara pela primeira vez. Quem acompanhou sabe: mesmo os "vândalos", que sempre estão presentes nesses atos, estavam contidos pela multidão. A ação foi provocada, de forma injustificável, pela polícia.


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Fomos para a Augusta. Entre mudanças de rota para fugir da PM, o gás nos atingiu em vários momentos: na Consolação, onde esperávamos sentadas o resto dos manifestantes chegarem para seguir com a passeata. Em outra rua (acho que na Bela Cintra), onde nós e outros fomos encurralados contra as grades de um edifício, enquanto a polícia soltava suas bombas. Ao fugir dali e entrar na Augusta, vi uma jovem, talvez uma estagiária, chorando muito. O fotógrafo que estava com ela tentava acalmá-la e pedia que ela ficasse junto dele.


Sem entender muito bem o que estava acontecendo, ainda me recuperando de todo aquele gás que tomava o meu corpo, a máscara e os óculos já encharcados de lágrimas, fomos ajudadas novamente por um grupo que tinha uma garrafa de vinagre, para atenuar o efeito do gás. Caminhando mais um pouco, uma cena que achei que nunca viveria na pele: nós duas, com mais 30 pessoas, encurraladas pelo Choque. Sim, vocês não leram errado. O comandante deles, abusando do poder como aquele jeitinho especial, fez com que todos sentassem no chão, as mãos na cabeça, nos intimidando aos gritos. Do prédio na nossa frente, um casal xingava os policiais e tirava fotos. Na calçada, pessoas eram proibidas de continuar seu caminho para casa, por um outro policial que os ameaçava.


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Naquele momento, muitas coisas passaram pela minha cabeça. A primeira, a oração de São Jorge. A segunda, a de que os camburões do Choque chegavam à cena, e que poderíamos ser levados por eles, pelo simples ato de estar na rua lutando pelos nossos direitos. A terceira, de que eu estava na maior cidade do Brasil e me sentia em um noticiário sobre protestos no exterior, sendo privada da minha liberdade de expressão e tratada como escória. Em seguida, lembrei da minha família, do meu namorado, dos meus avós, de como eles se sentiriam se eu fosse presa (e talvez até torturada). Com a cabeça de Pri encostada nas minhas costas, tudo o que eu fazia era chorar e cantar baixinho, enquanto tudo isso ia e vinha, junto com a vontade de vomitar.


Talvez por perceberem que os moradores dos prédios poderiam testemunhar a nosso favor, o batalhão nos “liberou”, mas não sem antes fazer mais um terrorismo: aos gritos de “CORRE”, jogaram mais bombas contra nós. Trinta pessoas, quatro ou cinco bombas, o Choque de um lado e do outro, não tinha para onde correr. Entramos em um bar, ao lado da Peixoto. Lá dentro, mais relatos, de manifestantes e não manifestantes, sobre a violência dos policiais. Na televisão, coberturas ao vivo mostravam imagens de uma São Paulo sitiada. Se me dissessem que era mais um filme estilo Tropa de Elite, eu acreditava. Difícil era crer que aquilo era verdade, que eu acabara de ser vítima de uma polícia que condenava um direito extremamente simples: a liberdade de expressão. Liberdade que eu usei para lutar por direitos que se estenderiam também àqueles policiais e suas famílias, que provavelmente moram no subúrbio e também sofrem com os abusos dessa cidade.


Apesar do susto e da preocupação causada em amigos e familiares, meu amor por São Paulo não diminuiu. Aumentou, assim como a vontade de luta (acho que minha família vai ter um treco ao ler isso). Porque aqui caminhei junto de milhares de pessoas que não estão mais adormecidas. Que saíram do Facebook, deixaram a novela de lado por uma noite, e foram às ruas. “Cidade muda não muda”, dizia um dos cartazes. E o Brasil precisa se erguer. A luta agora, mais do que nunca, não é sobre 20 centavos, é sobre um País que precisa ser livre, sair de vez de 1968. A Avenida Paulista e as demais ruas de São Paulo precisam, sim, ser retomadas. Pelo povo.


 

Não se arrisca por uma causa que não é tua


“Tu é de Recife. Cuidado, não se arrisca por uma causa que não é tua”. Ouvi essa frase ontem, em frente ao Teatro Municipal e ela não saiu da minha cabeça até agora.


Estou em São Paulo de férias. Período que normalmente eu desconecto um pouco da vida real, esqueço os jornais, internet, uma maneira de respirar ares menos densos do que a rotina de um trabalho em jornal me fazem respirar. Na última terça feira, caminhando pela Av. Paulista vi um pedacinho do ato contra o aumento das passagens. Muita gente já concentrada, muita gente chegando, nenhuma confusão. Só observei de longe e segui meu caminho. Mas ai começaram a chegar muitos, muitos carros da polícia. Foi inevitável pensar: vai dar merda.


Na quarta feira vi a merda estampada nas capas dos jornais, na boca de Jabor, no editorial da Folha de São Paulo e fiquei sabendo do ato marcado para quinta feira. Confesso que fiquei um pouco sem ânimo de ir, trabalho o ano inteiro cobrindo protestos, e em um primeiro momento não fazia o menor sentido ir pra um protesto nas minhas férias. Essa ideia foi embora no mesmo instante em que resolvi dar uma lida mais a fundo sobre o que estava acontecendo aqui em SP. E percebi que indignação e revolta não tiram férias. Fui pro Theatro Municipal sozinha, com uma câmera de filme, pensando a princípio em só acompanhar a concentração, porque tinha torcido o tornozelo há menos de 2 semanas e ainda tava difícil andar. Cheguei lá e vi uma multidão, mais do que uma multidão, um sentimento muito forte presente em cada pessoa ali de uma necessidade urgente de ver esse país diferente. A emoção tomou conta. E ao contrário do que ouvi, essa causa é minha sim. Morar em Recife não me afasta dessa luta porque essa não é a luta de uma cidade, é a luta de um povo, de um país. Eu faço parte disso e não teria como não saí pelas ruas gritando "vem, vem, vem pra rua vem, contra o aumento!".



Segui em caminhada, junto com a Gabriela Alcântara, amiga de Recife que tá morando por aqui. Caminhamos por várias ruas, cantando, sorrindo e mais do que isso, acreditando que é possível mudar esse país. No meio do percurso, uma jornalista se aproximou e conversou um pouco com a gente e nos deu máscaras cirúrgicas pra gente se proteger. Na hora cheguei a pensar que não precisaria daquela máscara. Tava tudo tão bonito e completamente pacífico que não cabia imaginar um possível confronto, mesmo sabendo de como tinha sido o último ato.


Quando chegamos perto da rua da Consolação, pro nosso desconsolo, fomos recebidos por bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo, balas de borracha. Violência gratuita, sem sentido contra uma multidão que apenas caminhava. Depois desse primeiro ataque do Choque o ato se dividiu, pequenos grupos seguiram por ruas diferentes, tentando fugir dos ataques. Segui com um grupo de cerca de 300 pessoas. Assustada, com os olhos ardendo, coração bombando mas com a certeza que não seria capaz de recuar naquele momento. Éramos poucos, caminhávamos pelas ruas com o grito "sem violência" procurando caminhos onde a polícia não estava. Não queríamos confronto, caminhávamos pacificamente. De repente o barulho das bombas: a polícia estava perto. Muitos correram, eu fiquei junto com mais um pequeno grupo, espremidos na grade de um prédio, tentando se proteger. O Choque fechou a rua (perto da Bela Cintra, imagino). E começou a jogar bomba de gás lacrimogêneo. Estávamos parados e recebendo na cara o gás. Não enxergava mais nada, só ouvia os gritos, as bombas estourando, o barulho dos tiros, e sem saber bem para onde estava indo, corri, tossindo muito, completamente tonta, sem ar e em pânico. Aquele momento foi por um instante o mais apavorante que vivi na vida. Por um momento, porque depois piorou.


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Agora éramos no máximo 30 pessoas, desnorteadas, assustadas, caminhando sem saber para onde, algumas choravam, outras tossiam sem parar, até que o Choque nos encurralou, mais uma vez, e ainda mais agressivos. Fecharam a rua, não deixaram ninguém sair ou entrar. Nós, com as mãos para cima, só pedíamos "parem de jogar gás, por favor, parem!!". Mandaram a gente sentar no chão, mandaram a gente rastejar até onde eles queriam que ficássemos, mandaram a gente colocar a mão na cabeça. O policial que estava no comando demonstrou um completo descontrole emocional e um ódio, ÓDIO completo por nós que estávamos ali, desarmados, acuados. Ele gritou, xingou, humilhou, sem o menor pudor, enquanto fotógrafos registravam tudo do outro lado da rua e várias pessoas no prédio da frente gritavam sem parar "abuso de poder!" "covardes" "polícia nojenta" "vergonha do país". Ali, eu senti o maior medo da minha vida. Sentada no chão, mãos na cabeça como uma criminosa, com falta de ar, ouvindo o choro baixinho da menina que tava do meu lado, que devia ter no máximo 18 anos e vendo pelo canto dos olhos, 1, 2, 3 camburões passando devagar na nossa frente. Me vi dentro de um deles. Me vi nas mãos daqueles policiais completamente insanos. Me vi sem saber o que poderia acontecer comigo e com quem estava do meu lado. De repente o policial grita "sai daqui correndo, corre vagabundo, corre" e nós, os vagabundos, saímos correndo, como se fossemos bandidos fugindo. E como estímulo para a nossa fuga, o choque ainda jogou 4 bombas de gás na nossa frente. Tão na nossa frente que cheguei a pisar em uma delas.


Conseguimos correr até um bar na Augusta e enfim conseguimos respirar. Eu e Gabi não conseguíamos falar nada. Era impossível dizer qualquer coisa ali... Até então eu não conseguia entender, processar, sentir o tamanho do absurdo que vivemos naquelas horas. Foi uma noite difícil. Muito difícil. Muito triste, revoltante, doído mas ao mesmo tempo muito esclarecedora.


Acordei com uma ressaca social sem igual. O gosto amargo do gás se foi, mas ficou o gosto amargo da revolta, da raiva que ficou no coração. Mas também me sinto um pouco mais feliz em ter visto tanta gente mobilizada, acordada pro mundo, acreditando que é possível sim mudar esse país. Pensei muito em Recife ontem. Continuo pensando na verdade, no país inteiro. Pensei em como muita gente anda com os olhos fechados pro mundo, com o gás da acomodação impedindo de ver, de reagir... Ao contrário do lacrimogêneo, o gás da acomodação deixa sequelas graves.


 

Gabriela Alcântara tem 23 anos, é jornalista e produtora audiovisual e mora em São Paulo há pouco mais de três meses.

Priscilla Buhr tem 28 anos, é fotógrafa e fotojornalista e resolveu usar um dia de suas férias em São Paulo para lutar por uma causa que é de seu país.

 

*TODAS ESSAS FOTOS FORAM FEITAS PELO PESSOAL DA LOST ART NESTA LINDA GALERIA

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4 comentários

  1. Muito massa saber que tem um pessoal que não está vendo faixas de território quando falamos em uma manifestação que ainda está sendo pautada, pelo menos ao olho do grande público, por aumento do ônibus.
    Acho que vale uma organização melhor dos manifestantes e deixar claro que a pauta não é pequena como se parece, pois isso pode acabar diminuindo o impacto do movimento.

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  2. Li o texto rapidamente e desconsiderei quando li: "vai dá merda." Uma jornalista que não sabe conjugar verbos não merece meu tempo.

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  3. Belo texto minha filha. Fica um misto de orgulho e medo! Mas, você não é de Recife, você é do mundo Gabriela Alacantara filha de um Silva. Deus te abençoe e São Jorge te proteja

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  4. Orgulhosa da filha linda, guerreira Gabriela. Priscila você está certa a luta é do povo brasileiro. Meninas é importante que o comando da manifestação de posicione com relação aos protesto não serem apenas pelo passe livre, se não fica parecendo uma massa de gente lutando sem muito foco. Eles precisam divulgar na mídia, nas redes sociais que a luta é por muitos outrso motivos e quais?

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