Destinatários

por - 14:06

Carta

De surpresa agora, sem dormir vários dias, correndo seus riscos. Não nego que ele tenha feito muito, mas pelo visto já não faz mais nada.


Casara-se jovem demais, comprou um piano de calda, um trambolho que segundo sua mulher e filhos não servia para nada além de ocupar espaço e juntar poeira. Mas eu sabia que não era bem isso, juntava poeira, é verdade, pois para o pobre coitado tocar um piano era um mistério tão escabroso quanto pilotar um helicóptero. Certa vez me disse que usava o piano para guardar preciosidades da época em que não era casado.


A campainha da minha casa que só dava sinal de vida quando mórmons chegavam até minha porta para tentar me convencer sobre alguns feitos de Jesus Cristo, tocou aquele dia em um timbre diferente. Era ele trazendo o diabo do trambolho, dizendo ter se separado da mulher, e, portanto, não tinha onde deixar o piano.


Amizade é uma merda de vez em quando. Não pude dizer não, simplesmente não conseguia negar abrigo ao trambolho, eram muitos anos fazendo tudo que não presta juntos. Só agradeço por ele não ter pedido pra ficar também, disse que ia ficar na casa da mãe e que só precisava de um tempo pra convencer a velha a colocar o piano em algum lugar da casa.


Foi embora e me deixou aquela maravilha, bem no meio da minha sala, que já era enorme, agora então, nem se fala.


Sentei no sofá e abri uma cerveja, bestificado com o tamanho daquela porra. Tentei tocar uns acordes, algum pedido especial? Não tinha plateia, mas que merda. Além de ter um piano em casa que não é meu, não tinha plateia. Que coisa mais triste, eu deveria ser casado, assim teria algum pretexto pouco óbvio para ter um piano empoeirado no meio da minha sala.


Passaram-se um, dois, quinze dias, até que o desgraçado desapareceu completamente e não veio buscar seu helicóptero. Tentei de todas as formas procurá-lo para que ele fosse buscar meu calvário, mas nada dele aparecer. Depois de mais algum tempo, num dia qualquer depois dos quinze, andava eu em círculos em volta do piano, tocando algumas coisas entre uma passagem e outra pelas teclas, quando acendeu-se em mim por conta de um marasmo qualquer, a curiosidade de saber se ainda havia algo dentro daquele piano.


Abri sua calda, entre os martelos diversos envelopes, um deles endereçado a mim, outros endereçados para amigos que tínhamos em comum, além daqueles para pessoas nas quais nunca havia ouvido falar e mais alguns para celebridades que iam desde Chico Buarque até Woody Allen.


Antes de abrir meu envelope o telefone tocou. A ex-mulher do meu caro amigo estava do outro lado da linha, voz consternada, me convocando para a missa de sétimo dia. Um instante breve de silêncio veio ao meu encontro.


Sim, eu vou. Desliguei o telefone. Fiquei me perguntando por horas por que não tinha sido informado sobre tudo aquilo que precede uma missa de sétimo dia, confesso não ter obtido resposta satisfatória, talvez estivesse na carta, pensei.


Abri a carta, e, ao terminar de ler, coloquei o piano em minha caminhonete com ajuda de dois mórmons que passavam pela minha rua e fui deixar o piano na casa de uma das pessoas para a qual uma das cartas era endereçada, uma amiga em comum, ninguém famoso.

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