Discretas impressões sobre o Pequenas Sessões – Parte 1

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[caption id="attachment_21121" align="aligncenter" width="640"]Barulhista Barulhista por João Carvalho[/caption]

Na quinta feira (6), um monte de gente ligou o foda-se pro fato de ter trabalho na manhã do dia seguinte, pegou busão por horas, aguentou o trânsito desagradável que Belo Horizonte costuma exibir nessa época do ano, e até mesmo enfrentou a ameaça de chuva iminente (que por sorte, não chegou a realmente descer) em alguns cantos da cidade. O motivo disso, senhoras e senhores, não foi um jogo de futebol, nem um comício da Dilma. No dia 6 de junho, começou a deliciosa maratona de shows do Pequenas Sessões. Antes de começar a resenha em si, acho que é importante dar um pouco de pano de fundo: o Pequenas Sessões é um festival já relativamente conhecido aqui em Belo Horizonte, reunindo sempre uma penca maravilhosa de bandas predominantemente instrumentais de vários lugares desse mundão, com a recepção sempre agradável dos anfitriões do Constantina e do Lise – projeto do baterista da primeira, Daniel Nunes. Talvez seja esse, afinal, o grande trunfo do Pequenas Sessões: essa sensação de gente que abre a porta de casa pras visitas se acomodarem. Os convidados variam a cada ano e a ideia é que role uma troca entre as bandas que compartilham o palco, tocando simultaneamente ou não. E foi exatamente esse clima caseiro e convidativo que eu encontrei no centoequatro quando cheguei pro show.


Pra quem não sabe, o centoequatro era uma esquecida fábrica de tecidos que foi transformada em centro cultural. O bacana dela é que o espaço parece ter sido conservado, sendo ainda constituída de vãos enormes e salas gigantes que são perfeitas pra outra especialidade do festival independente: as exibições visuais. Sempre achei que a música e o cinema se completavam e que os cenários musicais mais estabelecidos nunca exploravam essa ligação bem o suficiente. É curioso perceber que esse é um dos maiores prós da música alternativa, principalmente instrumental, hoje. Em especial no que se trata de bandas belorizontinas, as apresentações audiovisuais parecem aumentar, quando já não parecia haver como, a beleza poética desse som. De qualquer forma, vamos às explanações práticas:


O Pequenas Sessões não se resume aos shows, que ocorreram nos dias 6,7, 8 e 9 de junho; o festival ofereceu também uma porrada de palestras, bate-papos e oficinas voltadas especialmente pra esse fazer de arte. Mas como vocês podem imaginar, a parte que eu vou compartilhar com vocês é a de sonzera mesmo. Nos próximos dias, vou botar uns trechos de como foram os três dias de show e possivelmente, do show de despedida do Pequenas Sessões.




[caption id="attachment_21122" align="aligncenter" width="640"]Constantina Constantina por João Carvalho[/caption]

Constantina + Hurtmold + L_ar (Leandro Araujo)


A ideia, aparentemente, foi começar arrebentando a boca do balão. O Constantina é uma banda mineira de carreira longa, bastante conhecida pelas bandas de cá. O som dos caras é instrumental, apesar do último disco deles, Haveno (2011) ter ganhado uma versão vocalizada que conseguiu acrescentar poesia sem destruir a pegada da banda. Por volta das onze e meia, o show começou. A expectativa para a apresentação era enorme e ninguém sabia ao certo se os paulistanos do Hurtmold iriam entrar no meio ou esperar o fim do show. Além disso, foi o primeiro show do Barulhista (membro da banda e autor do lindo projeto que já passou aqui pelo Altnewspaper) na banda sem boné. Apesar dos pesares, tudo arrancou muito bem, e a banda que tocava à frente das lindas projeções do L_AR (projeto do Leandro Araujo) avançou num setlist lotado de músicas conhecidas do grupo. Algumas coisas me chamaram a atenção no show do Constantina, que eu admito, foi o meu primeiro: a execução é maestral, linda. Com ajuda de convidados para cantar a versão vocalizada de algumas das músicas do Haveno, os sons ficam na mesma pegada que os originais e ainda assim, não excessivamente improvisados. O que eu não esperava era uma resposta tão forte do público. Na ausência de letras que pudessem ser cantadas, eles responderam mais alto que a banda, imitando os sopros que embalam a espécie de hino-sonhador que é "Bagagem Extra". E assim, o Constantina navegou no meio do seu mar de sons: as ondas calmas e as pesadas, ainda assim incrivelmente redondas.




[caption id="attachment_21123" align="aligncenter" width="640"]Hurtmold Hurtmold por João Carvalho[/caption]

Complementando a ideia de “sejam bem vindos” que eu comentei lá em cima, a ambientação do salão onde ocorreram os shows foi feita de forma bem intimista, com luzes fraquinhas e alguns pufes e banquinhos pro pessoal que se cansasse. A interação com o público acontecia daquela forma simples e completa que só as bandas “de casa” costumam encontrar, e as melodias são, como sempre, de chorar. O fim do show deixou um clima de carinho e calma no ar, que foi logo tomado pelo começo do Hurtmold, que apesar de não ter exatamente tocado uma música junto do Constantina, emendou o começo do seu show na última faixa da banda mineira. A ideia de diálogo foi cumprida muito claramente, ainda que na teoria, inclusive pelo perfil dos dois shows: a abertura harmônica e simplesmente bonita do Constantina contrastou com a tempestade caótica do Hurtmold. Vindos de São Paulo, a banda é um dos maiores expoentes da musica experimental brasileira, e é conhecida por outros públicos também como, por exemplo, “a banda de apoio do Marcelo Camelo”. E uma dica: o show deles é pauleira. Talvez pela experiência absurda dos membros, o Hurtmold encontra um momento de desafio. A banda que já lançou material incontável antes do disco Mils Criança (2012) consegue ainda assim se reinventar, com uma estética sedutora e bizarra: descrever o som deles é complicado, mas podemos dizer que foi um show hipnótico. O baixo extremamente forte parecia dar a impressão de explodir as suas entranhas, enquanto a sua mente se perdia tentando compreender se o que eles faziam era caos ou ordem. E é exatamente com isso que o som deles se assemelha: uma disputa interna entre o caos e a ordem.


É muito difícil saber se Takara e os outros membros estão improvisando ou se tratam apenas de tempos e levadas incrivelmente complexas misturadas a sons da música brasileira e do jazz. Em algum momento, você simplesmente desiste de tentar entender e se entrega. Calados, os paulistas não encontraram impedimentos no meio do caminho, e o show foi violento, intenso e de deixar bocas caídas. Depois de um bis berrado por todos os lados, a banda finalmente encerrou a programação da noite, que ainda pedia para não terminar. Fui pra casa com a agradável certeza de que se a noite de abertura fora desse jeito, eu não tinha mesmo que me preocupar com a qualidade dos outros dias.



Veja outras fotos aqui e um vídeo especial neste link.

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