Discretas impressões sobre o Pequenas Sessões – Parte 2

por - 14:07

[caption id="attachment_21142" align="aligncenter" width="640"]DOSH DOSH por João Carvalho[/caption]

 


Lise + DOSH + Igor Amin

Depois da noite memorável de quinta feira, câmera recarregada e resenha escrita, fui mais uma vez até o centoequatro (sem medo de chuva dessa vez). Chegando ao saguão de entrada, percebi que ele estava mais vazio do que na noite anterior. Encontrei uns amigos depois de um tempo e me sentei por ali mesmo, pra bater um papo. Uma das coisas mais divertidas nesses festivais e na música independente em geral, é a forma como o público e os artistas interagem. Não existe aquela hierarquia fanática dos rockstars das décadas passadas, não existem fanboys/girls (assim espero), e tudo acontece de forma bem mais natural. Foi dessa forma que percebi o norte-americano de Minesotta andando calmamente e na dele entre as poucas pessoas no salão, conversando com uns e outros.


Tive a impressão de que as atrações da sexta não chamaram tanta atenção quanto a dobradinha do dia anterior, então talvez seja útil uma pequena apresentação. DOSH é multi-instrumentista e faz um som que podemos chamar de instrumental. Além de ter uma série de trabalhos bem conhecidos, o cara é baterista da bande de Andrew Bird, um pouco menos experimental e mais fácil de engolir. Como já dito na ultima resenha, Lise é o projeto eletrônico-experimental do Daniel Nunes, sempre associado às apresentações áudio-visuais e também é um dos projetos anfitriões do Pequenas Sessões. Aí encontramos um ponto de tangência entre os dois shows da noite: DOSH e Daniel Nunes, a cabeça por trás do Lise, são exímios bateristas. E dessa forma, quando subimos as escadas do centoequatro para o salão do show, lá encontramos o mesmo ambiente acolhedor, as luzes deliciosamente fracas, e as duas baterias rodeadas de pedais, teclados midi, laptops e toda a aparelhagem necessária pro som daquela noite.




[caption id="" align="aligncenter" width="640"]Lise Lise por João Carvalho[/caption]

A interação inter-bandística que, admito, fez um pouco de falta na noite anterior, foi suprida além das expectativas na noite de sexta. Lise e Dosh criaram um set coeso e enorme, enquanto se revezavam nas apresentações de seus sons, com uma delicadeza que deixava difícil perceber quando uma canção terminava e a outra começava. Essa sensação de fluência e completude acabou por confundir, de uma forma muita agradável, as duas apresentações, resultando na criação de sons novos, de imagens novas (as projeções visuais do Igor Amin caíram como uma luva, e as cenas do espaço, do universo, além de outras viagens dinâmicas assistidas pelas janelas fechadas atrás dos músicos só contribuíram com o clima intenso das faixas) e de uma apresentação única e histórica. Já li algumas vezes, principalmente vindo a respeito do Lise, sobre a vontade de se criar um ambiente musical, uma atmosfera aconchegante e diferente, como um mundo novo, a partir da música, e é uma das abordagens mais inspiradoras que já observei no cenário do instrumental. Tudo o que posso dizer é que as expectativas foram cumpridas e superadas, seja no minimalismo doce e meio glitchy das melodias à la Constantina do Lise, seja no percussionismo mais analógico e louco do DOSH.


A noite terminou um pouco mais cedo, com as salvas de palmas e o público confortavelmente sentado, balançando as cabeças ao som das melodias finais, como crianças sonhando. Apesar de mais vazio (e talvez por isso mesmo) a sessão parece ter sido mais fácil de se observar e de se perder. Na rua, depois de ir embora, era só o vento na cara, as batidas na cabeça e uma vontade enorme de ouvir e ver tudo aquilo de novo.


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