Falta foco em Belo Horizonte

por - 14:06

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Resumo:

- A passeata saiu da Praça Sete e pretendia seguir até o mais próximo possível do Mineirão, onde acontecia o jogo da Copa das Confederações.


- Durante todo o caminho, a manifestação foi pacífica.


- Num dos momentos mais emocionantes, ao passar pelo trecho de um aglomerado de casinhas, um senhor de idade, bem velho, começou a interagir com a passeata e, do alto de um enorme muro, derrubou um cartaz de propaganda política do prefeito Márcio Lacerda.


- A multidão seguiu pela Avenida Antônio Carlos e prosseguiu em direção à Abrahão Caram. A Avenida Santa Rosa, que também leva próximo ao Mineirão havia sido liberada, mas os manifestantes se dirigiam majoritariamente à Abrahão Caram.Os enfrentamentos entre a polícia e as pessoas começaram nesse ponto. Relatos variam sobre o acontecido: alguns dizem que a policia reagiu após lançamento de pedras, latas de cerveja e manifestantes furando o bloqueio. Outros afirmam que foi a policia quem iniciou os conflitos.


- Agindo de forma claramente truculenta, os policiais, que contavam com reforço da força nacional usaram de bombas e gás e balas de borracha. Manifestantes foram feridos, incluindo um senhor de idade avançada e várias famílias, além de um rapaz de 17 anos que caiu do viaduto José de Alencar.


- Os conflitos se espalharam e ocorreram inclusive na Praça Sete, ponto de inicio da manifestação. A policia declarou que seus atos foram justificados, e que dessa vez a violência aconteceu por grande parte dos manifestantes.


- No domingo, dia seguinte ao ocorrido, a Feira Hippie, que acontece há décadas no centro da cidade e é uma das maiores manifestações culturais de Belo Horizonte, foi impedida de acontecer por policiais. Não se sabe ainda o motivo.


Eu queria escrever um texto explicando o que está acontecendo com o Brasil, com o nosso povo, com a nossa polícia, com o nosso futuro. Mas eu não poderia fazer isso sem uma boa dose de videntismo ou de previsões precipitadas. Na verdade, isso é uma das coisas que mais me machuca nesses dias recentes: a incapacidade de escrever sobre qualquer coisa, simplesmente porque eu não entendo completamente o que está acontecendo. A impressão que eu tenho é a de que ninguém entende, na real. E talvez as pessoas soubessem melhor lidar com tudo isso se admitissem, em primeiro lugar, que não sabem ao certo o que está acontecendo. Não sabem com certeza como lidar ou que passo tomar, até porque, se soubessem, não estaríamos em guerra. E esta é uma das poucas certezas que eu tenho agora: a de que estamos em guerra. Ainda que não saibamos contra o que estamos em guerra, estamos. Em guerra com um punhado de coisas, inclusive. Com nós mesmos, com a polícia, com os governos, com as nossas desconfianças, os nossos limites, as nossas incapacidades. Acho que esse é um ponto importante quando analisamos essas situações: Ninguém entra pra um embate ou pra uma passeata dessas puramente pelo ato e pelas suas revindicações. Nós estamos cheios de coisas acontecendo dentro de nós, a todo tempo. De qualquer forma, enquanto a luta acontece, é necessário que a gente se equilibre. Que a gente controle esses vulcões dentro de nós e pense direito. E é justamente a falta desse equilíbrio que eu tenho notado durante os últimos dias, inclusive dentro de mim.


Vou me referir especialmente a Belo Horizonte, por ser a única luta que eu tenho vivido, mas eu acho que isso vale para o país inteiro. A “revolta” estourou aqui como uma consequência, nós temos que admitir. Por mais que as revindicações sejam válidas no país inteiro, o movimento aqui surgiu quase como um reflexo de São Paulo. Não acho que isso seja algo ruim em si, mas não temos como negar que a mobilização aqui apareceu mais depressa, como um movimento instintivo, uma vontade guardada de fazer algo, subitamente liberada.


Creio que, por esse mote instintivo, os jovens que foram às ruas. Se eu pudesse resumir a juventude em uma palavra, eu acho que seria essa: instinto. E isso sempre foi assim, nas mais variadas épocas da história. Nós somos rajadas convulsivas de instintos envoltas em carne. E eu tenho medo, e ainda não consegui entender – mais uma vez - como funciona o envelhecimento. Lembro claramente de tentar prometer a mim mesmo que eu nunca deixaria de ter a fúria e a certeza clara de entender tudo, saber o que fazer em relação a qualquer coisa e, principalmente, de dar a essas ondas de instintos a confiança de um braço direito, de um mentor e de um melhor amigo. Mas o tempo parece ter os seus métodos, e essa ultima semana condensou mudanças que aconteciam comigo aos poucos.


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Eu vi muitas coisas essa semana, e tive outro monte de impressões sobre elas, sempre variando. Vi vídeos de policiais agredindo manifestantes de forma vergonhosa e cruel, vi gente sangrando, gente caindo, gente furiosa, enfim, todas essas coisas que todo mundo vê na televisão e outras que só ficam em foco ao vivo mesmo. Entre essas que só ficam em foco ao vivo, eu vi a fúria instintiva, na sua forma mais clara e pura. Eu ouvi e senti os gritos de indignação e fiquei indignado. Porra, como eu fiquei indignado! Como eu tive vontade partir pra cima dos policiais com pedras, como eu tive vontade – e achei que nunca fosse sentir isso em toda a minha vida – de MATAR alguém. E eu percebi, o instinto age de uma forma linear, simples, primitiva: ele percebe que alguma coisa está errada e ele reúne todas as suas forças em terminar aquilo, da forma mais rápida possível. Ele não resiste ao insuportável. A fúria e o desespero são, no final das contas, muito parecidos. Eu notei em todas aquelas pessoas que contra-atacavam a policia, em todos aqueles rostos machucados, uma dose assustadora de desespero. E talvez foi a sorte de ver tudo isso, ainda de relance, que me fez parar por alguns segundos. Não tô exatamente criticando essa reação das pessoas. Ela é a reação natural. Mas será que podemos confiar nas nossas reações naturais? A sede do ser humano por mais também é uma reação natural. Não é, em última instancia, exatamente contra isso que nós todos lutamos?


Sempre me chamou muito a atenção a figura do menino pobre que começa a roubar. Ele tem ódio, ele está indignado. Com razão, inclusive! Mas a partir do momento em que ele assalta um ônibus ou atira no cobrador, a partir do momento em que ele se entrega a esse ódio DESSA FORMA, ele o direciona para o lugar errado. Ele faz exatamente o que o sistema espera que ele faça. Vejam bem, eu não tô defendendo em momento nenhum a ação da polícia. Eles são sim mal treinados e incrivelmente cruéis em alguns pontos. Existem sim pessoas horríveis naquelas barreiras. Mas o que eu penso é que, naquele momento em que nós cedemos a essa reação natural e primaria, a partir do momento em que a gente transforma a principal ação de uma passeata em confronto com a policia, a gente tá fazendo exatamente o que eles esperam de nós. Ontem eu vi na Santa Rosa, uma avenida enorme e que poderia nos deixar até mais próximos do Mineirão (era esse o objetivo da passeata, não era?) ficar quase que completamente vazia enquanto a multidão se direcionava inteira ao ponto em que a barreira policial atacava os manifestantes. Eu vi as pessoas perderem o controle. Talvez elas pensassem que quando enfrentavam a força policial, faziam isso em nome do senhor de idade que foi atingido por uma bala de borracha, ou pelo rapaz que caira do viaduto e tivera os braços e pernas quebrados. Mas será que derrotar aqueles policiais anularia o sofrimento daquelas pessoas ou das outras que provavelmente ainda irão se ferir? Eu sei que tem muita gente com argumentações a favor da violência e do vandalismo, mas nem essas servem de explicação pro que aconteceu. O que teria rolado se tivessem, sei lá, espantado os policias da barreira? Quantos mais não estariam à espera pra substituir os mortos ou desistentes? As pessoas gritam insistentemente que a polícia também é oprimida e também faz parte do povo, mas às vezes parece que essas mesmas pessoas se esquecem disso. Porque a opressão não é uma consequência daqueles policiais que estão ali, sendo brutais naquele momento. Como as pessoas dizem, a opressão vem do sistema. A opressão e o vandalismo de todos os dias que as pessoas sofrem. E vocês realmente acham que é aquela cambada de policial mal preparado que vai resolver o problema de décadas de exploração do povo?


Hoje eu vejo que amadurecer é bom, é importante. Todo ser humano precisa viver essas fases: a inconsequência juvenil e o amadurecimento. E o nosso movimento precisa disso. Já fomos demasiadamente inconsequentes e instintivos. É hora de parar um pouco e pensar. Eu sou contra qualquer forma de violência, quero deixar isso claro. Mas isso aqui vale pras pessoas de outros pontos de vista também. Até mesmo se você é anarquista ou quer derrubar o governo inteirinho e recomeçar tudo do zero, acorda cara! Não é brigando com policial que você vai conseguir isso. Pra quem gostaria (como eu) de uma conduta menos radical, as ações atuais são igualmente injustificáveis. Os nossos excelentíssimos governadores não são afetados quando você machuca um policial. A ganância deles não seria afetada nem que eles próprios tomassem uns sopapos na cara. Porque aquela máxima de “ideologias não morrem” também servem pra pilantragem. O que nós estamos fazendo aqui, é basicamente lutar contra o que mais odiamos com as mesmas armas que eles usam. Isso já aconteceu algumas vezes, e não deu certo. É assim que o PT como um todo chegou onde está hoje.


Por fim, o mundo acredita nos impulsos do ser humano. Talvez seja esse um dos principais motivos pelo jeito que a humanidade se encontra hoje: poucas pessoas realmente acreditam na bondade humana. Os empresários e os políticos ( não todos) que estão por trás da corrupção que tanto nos dói esperam que nós ajamos pelos nossos instintos. Eles agem pelo egoísmo e pela ganância, que são também inerentes ao homem. O que eles não esperam é que você pense um pouco mais. Pense um pouco mais do que eles. Deixe-os em situações em que eles não saibam como agir. Será que você é capaz de fazer isso?

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