Fui para a chuva contra o aumento

por - 11:08

Terceiro Ato - MPL SP


Cá estamos novamente com nossos relatos sobre as passeatas que estão acontecendo em São Paulo. Antes de começar a contar como foi o rolê de ontem (11) - e por favor, acreditem, eu estava lá -, gostaria de dizer uma coisa. Jornalistas de jornalões, se vocês querem ir à uma manifestação, por favor, aprendam a cobri-la. Pelo menos eu, que nem me formei nessa bosta ainda, acho que sou mais rua que vocês. Ficar em cima de puteiro, longe de tudo e fingindo estar lá (trocando ideia com a PM) e sem saber porra nenhuma de alguém que está gritando embaixo de chuva, talvez seja a forma mais porca de exercer a sua profissão. Deve ser chato pra caralho ouvir algo assim de um moleque, um foca como vocês gostam de chamar, mas pelo amor, tomar bomba para registrar algo não é o fim do mundo.


Agora sim, depois de mandar aquele abraço a la Craque Neto para os colegas de profissão, vamos ao que aconteceu de fato. Às 17h a concentração estava bacana na Praça dos Ciclistas. Duas baterias ensaiavam os gritos contra o Alckmin e o Haddad. Uma, já velha conhecida, aquela dislexia grindcoriana do MPL e a outra, mais rítmica, do Juntos. Não estou nem aí se tem partido no meio dessa porra. Lá pra umas seis da tarde, pediram pra todo mundo sentar. Rolou uma espécie de "pai nosso" do busão e depois disso fomos sentido Consolação. Tinha gente pra caralho.


Fico feliz pra cacete quando estou no meio de uma parada enorme, travando a Rua da Consolação e só os ônibus podem passar por causa do corredor e era isso que estava rolando. Na altura da Fernando de Albuquerque, São Pedro se mostrou um reacionário de primeira. Começou a mandar uns pingos grossos lá de cima e em instantes começou uma puta chuva. Pensei que por isso o pessoal ia embora, miar todo o lance ou colar pra baixo de alguns toldos. Alguns fizeram isso, mas a maioria não. Continuamos descendo com os gritos de guerra adaptados "vem, vem, vem pra chuva vem contra o aumento". Neste momento, dois moleques de dentro de um 7545-10 (Praça Ramos - João XXIII) meteram a cabeça pra fora e começaram a dançar tipo o carinha do "Sou Foda". Acho que eles curtiram.


Terceiro Ato - MPL SP


Conforme íamos descendo a Consolação, a chuva ia castigando mais e mais todos os manifestantes que pareciam não ligar mais para isso. Alguns tinham guarda-chuvas, outros, capas, mas a maioria tava molhada pra caralho. Eu, inclusive, com alguns eletrônicos no bolso estava com o cu na mão, mas no final deu tudo certo. Quando chegamos perto da Praça Roosevelt, pensei que iriam acabar o ato, mas quando olhei melhor, vi um monte de gente descendo pro túnel que tem ali embaixo. Dentro dele a sensação de uma revolução era foda. Fecharam todas as faixas dele e como o som era abafado e ecoava, por instantes, a Turquia parecia estar ali. Quando a PM colou, achei que ia dar merda, mas eles pareciam educados e depois de umas bombas e muita gritaria, todo mundo foi pra mesma faixa.


Na hora do Minhocão, eu, que não sou bobo, corri. A bosta é que eles subiram o viaduto, então, acabei fazendo que nem os carinhas que critiquei ali em cima. Fui de lado, esperando o primeiro momento para colar com eles. Ali por dentro, conseguimos chegar num viaduto perto das bandas do Glicério e num "guard rail" eu e os dois trutas comigo pulamos. Eu tava com a calça molhada e ela era larga. O resultado? Desse momento até chegar em casa, minhas bolas estavam ventilando enquanto eu andava (sim, fez um rasgo enorme). Mas a revolução não pode parar. Quando comecei a olhar de cima o ato, vi a força e o número de gente ali. Isso arrepiava.


Me juntei a manifestação depois de rasgar a calça e fomos caminhando até a Praça da Sé. Eu vi viaturas da ROTA parando e fiquei com um receio. Cada um tem sua opinião formada sobre a polícia de São Paulo, mas reprimir a galera com o "BOPE paulista" não me parece uma ideia sensata. No final das contas, era só pra botar medo. Não vi os caras agindo em nenhum momento. Mas pressentia que mais pra frente o risco de merda ia aumentar.


Terceiro Ato - MPL SP


Quando paramos a Avenida Liberdade, estava tudo tranquilo. A manifestação ia pacificamente e não havia nenhum outro registro de merda, além do pouco que aconteceu dentro do túnel. O pessoal foi indo para a Praça da Sé e descemos para o Terminal Dom Pedro II. Ali ficou parado um bom tempo. Sentamos, rolou um pai nosso e eu tenho certeza que o ato iria terminar pouco depois. No caminho, tentaram botar fogo num trollebus, mas o próprio pessoal apagou, tirou os caras e gritou "desnecessário". É foda, tem vários meios para se chegar a algo. Depois de toda a oração e de um tempo encostado, todo molhado e sem muito o que fazer, um princípio de confusão aconteceu embaixo do puteiro onde tinham uns câmeras. Ouvi barulho de bomba, rojão e vi a PM descendo a borrachada numa galera que parecia responder a altura.


Eu precisava me manter vivo e por estar acompanhado, já puxei meu camarada e falei "mano, deu merda, vamo!". Começamos a tentar subir mas uma parte da galera não sabia direito o que tava rolando. Quando começamos andar sentido Praça da Sé, olho pro chão e vejo umas faíscas. Achei que era resquício de rojão ou sinalizador, mas era bomba da PM. Já fui correndo perto da Secretaria da Fazenda de SP. Agora, eu olhei pra baixo e tinha a porra de uma bomba ali. Eu não conseguia respirar, não tinha vinagre nem nada e havia uma multidão correndo e mandando a Polícia tomar no cu. Essa foi a hora que eu apareci no Jornal Nacional.


Enquanto eu ia para a rua correndo e segurando um truta, eu quase vomitava por causa da bomba, meu peito explodia, tudo ardia pra caralho e o Choque vinha atrás, jogando mais gás, mais bomba e marchando, sem necessidade nenhuma, pois a multidão já tinha subido a milhão e não era mais tão unida quanto lá embaixo.


Terceiro Ato MPL São Paulo


Depois de conseguir o vinagre solidário e colocá-lo na minha camiseta, voltei a enxergar e resolvi que era o momento certo de cair fora. É o lance Marighella, você precisa estar vivo para ir ao próximo. Cortei caminho sentido São Bento, já que a concentração estava rolando na Praça da Sé e em frente ao Pátio do Colégio vi uns PMs subindo aquelas ruelas que não passam carro em alta velocidade, loucões. Ouvi dizer que um deles jogou uma bomba, ela bateu na parede e voltou no pé deles. É muito Didi e os Trapalhões Contra o MPL, hein?


Não fui à Paulista, mas pelo o que vi, o saldo dessa vez acabou mostrando um pouco do que o pessoal está enfrentando. A PM prendeu um fotógrafo, bateu em um jornalista e prendeu um menino da Folha sob a alegação que ele "atrapalhou a ação policial". Isso deveria ser capa de jornal: a violência da Polícia comandada pelo Geraldo Alckmin, que não segura o arrastão que a classe média reclama, mas tem o dom de partir pra cima de um monte de gente desarmada. É sério, eu não consigo entender o pensamento desses caras. E olha, sabe aquele monte de estação de metrô fodida na Paulista? Então, fontes seguras me dizem que a PM jogou bomba de gás lacrimogênio dentro da Brigadeiro e sentou bala de borracha nos vidros da Consolação.


O resultado final desse ato foi: 15 mil pessoas na rua, a cidade parada, a PM agindo como sempre, jornalistas presos e agredidos e a certeza que a próxima vai ser melhor. Por sinal, jornalões, o El País está tratando o movimento daqui como algo legítimo e eles estão em outro continente. Custa fazer a porra de um serviço bem feito, afinal, vocês estão aqui perto, né?



Nesta quinta-feira (13) o quarto grande ato contra o aumento da tarifa acontecerá no Theatro Municipal, a partir das 17hs. Leve vinagre, máscara, camiseta reserva e uma calça (para não se foder igual eu). Ah, parece que tem gente do movimento preso e que a fiança será de R$ 20 mil para alguns deles. Se você tem uma grana sobrando, ajude os caras no Vakinha.

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6 comentários

  1. Essa vakinha é garantida que vai pros caras lá mesmo?

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  2. parece que sim... na página deles tem como depositar direto na conta. Dá uma olhada lá.

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  3. Não entendi pq esse moleque acha que ele está em uma "revolução"... todo mundo é parcial, se ele queria parecer imparcial, ele não deveria ter usado esse termo... e reclamar de um ou dois políticos não resolve nada, mostra ainda mais a parcialidade dele.
    E outra, muitos dos grandes políticos do Brasil já estiveram do lado que eles está, e por assuntos mais importantes, daí com certeza eles tem muuuito mais noção de como manipular a mídia. Enquanto eles tiverem lidando com isso como se fosse uma revolução eles serão os maiores culpados de tudo! Quando no meio desses manifestantes aparecer um "sociopata" que consiga ser mais articulado que os políticos, eles ganharão o apoio da população.

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  4. Não achei muito inteligente citar os nomes dos políticos, pq quqem gosta desses caras fica já contaminado e com aversão a vc! Para convencer a população de ficar do seu lado e não do resto da Mídia, é mais fácil falar: O governo do Estado ou O governo do Município.... Não é o jeito que eles usam nos comerciais que eles mesmos fazem de si mesmos com o nosso dinheiro público? Então, use das armas deles, vcs serão condenados e considerados os maus enquanto se fizerem de vítimas! Se vcs querem ser vítimas, faça isso ser um espetáculo, daí sim vcs ganharão a atenção!

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