Há espaço para a tradição na era das transições?

por - 14:06

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As notícias de bastidores da mídia nas últimas semanas renderam bem mais do que a audiência de muito programa por aí. As demissões na Folha de S.Paulo, na Editora Abril, na Record e os diversos passaralhos que acontecem localmente evidenciam um pouco dos problemas que os gestores sempre tem no confronto com essa realidade 2.0. Estamos falando de mídias tradicionais, consolidadas por anos e que hoje sucumbem frente à agilidade da tecnologia digital.


Baseado em estimativas e tendências atuais, o site Future Exploration Network (FEN) estima o fim do jornal impresso no mundo ao longo dos próximos anos gradualmente. Só nos Estados Unidos, mais de dois mil jornais fecharam desde o início deste século. Por isso mesmo, segundo o FEN, o primeiro país a abolir o formato impresso será os EUA daqui a quatro anos. Para o Brasil, a previsão do fim dos impressos vai para o ano de 2027. É claro que são estimativas, mas alguém arrisca mais tempo?


Quando torna-se muito caro e pouco rentável manter uma publicação impressa de grande tiragem ou manter um astro de salário milionário na TV, o que fazer? Cortar gastos pra tentar equilibrar as contas. Nesse corte de gastos nos jornais, temos visto menos jornalistas escrevendo, mais matérias frias de agência e periódicos cada vez mais finos. Vemos revistas com bem menos páginas, com mais fotos e anúncios e pouco texto. E na TV, depois que a ascensão econômica da Classe C permitiu que mais gente tivesse acesso a pacotes por assinatura, logo acabou a hegemonia das grandes redes da TV aberta no país. Acabou em parte, claro. Mas é cada vez mais frequente ver que tal programa perdeu espaço na grade por ter baixa audiência ou que ninguém mais precisa esperar um ou dois anos pra ver uma série como Revenge que já passa normalmente na Sony e com mais de 30 episódios de diferença. Até porque se a emissora demorar a exibir o seriado, o público vai perder o interesse ou procurar o torrent mais próximo.


Nos domingos, a timeline das redes sociais fala mais de Game of Thrones do que do "Fantástico". Ao mesmo tempo, o conteúdo que surge na Internet a cada segundo nos proporciona uma grade de programação de TV invejável. Não é a toa que alguns programas tentam correr atrás do prejuízo reproduzindo o que tem de mais engraçado no YouTube e praticamente costurando seu conteúdo através da postagem de terceiros. Um só vídeo do Porta dos Fundos tem conseguido mais audiência do que "O Dentista Mascarado". Tudo isso só evidencia o medo da concorrência com a Internet, tanto para o impresso, quanto para com o vídeo.


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É claro que grande parte do conteúdo atual na rede é amador, não é tão bem feito, mas funciona pra alguns casos e pro que ele se presta: entretenimento. Mesmo uma trollagem de respostas no Yahoo já rende bem mais como passatempo do que um programa de "variedades" que diz tudo e ao mesmo tempo só fala o que a gente já sabe.


A culpa desta crise dos veículos tradicionais vem da internet? Sim e não. Sim, pelos motivos já citados. E não, porque seus administradores não aprenderam a regra básica de sobrevivência humana: Adaptação. Esta era vem sendo marcada pelo contínuo fluxo de informações e de avanços tecnológicos. Considere os últimos 100 anos como sendo parte desta era e que a cada década, as mudanças se acentuam fazendo algumas coisas se tornarem obsoletas ainda mais rapidamente.


Em pouco tempo, locadoras de vídeo e lan houses se perderam no limbo. Máquina de escrever, fita VHS e aparelhos de fax são tão ou mais obsoletos quanto o modelo tradicional de se trabalhar com mídia impressa ou televisiva no Brasil. Estamos numa constante era de transições. Do analógico pro digital, quando o que era físico e material vira transmissão de bits. Eventualmente precisamos ter, tocar e sentir esse material analógico, mas a priori, o que precisamos saber de conteúdo pode ser lido e assimilado em uma tela como a que está na sua frente agora.


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Nesta era de constante transição, é preciso prever que nada vai durar para sempre. Excetuando-se os produtos de obsolescência programada, coisas como programa de auditório, revista Playboy e mídias físicas vão acabar mais cedo do que a gente pensa. O espantoso é que muitas destas coisas duraram e muito. Tempo suficiente para a gente se apegar e sentir saudade quando se forem. O maior exemplo disso é a MTV Brasil. Era um canal inteiramente dedicado à música, revelou diversos artistas novos, reposicionou sua marca para atingir novo público várias vezes, mas não conseguiu se adaptar de uma maneira sólida neste mercado de maneira eficaz financeiramente falando. Na época que a MTV era a Music Television, ela não tinha concorrentes. Você assistia este canal pra ouvir música e ver os artistas que gostava, e mesmo os que não gostava, encarando estes como alguém que assiste propaganda só pra ver na sequência outra parte do programa que estava vendo. Depois de alguns anos, apareceram canais similares na TV e ainda surgiu o YouTube.


"Pra que assistir a MTV se existe a internet?" diziam. Pois é. Pra quê? Com uma boa conexão de dados você assiste clipe até no celular e quando quiser. Não é mais preciso ficar refém de uma programação só pra ver três minutos daquilo que curte. Com isso em mente é bem fácil entender porque nos últimos anos o canal estava se dedicando mais à comédia do que à música. Até porque o modelo de comércio musical tal como conhecíamos não existe mais. As gravadoras que restaram agora concentram seus esforços e verba pra divulgar quem tem público e retorno garantido, sem se preocupar com apostas ou tendências. Sendo assim, quem dependia desse esquema pra vender e consumir música, logo teve que repensar seus hábitos.


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E como na vida tudo é uma questão de evolução e adaptação, quem trabalha nas mídias tradicionais tem que entender como evoluir e se adequar ao que o público quer. Não adianta fazer como os diretores da Globo que ficam proibindo menções ao Twitter e links no Facebook. Nada disso vai adiantar para barrar esta concorrência de atenções entre o que está ali na nova novela ou no streaming de um show na mesma hora. É inevitável. E é ainda mais agradável saber que hoje em dia temos milhares de opções de entretenimento e informação, podendo inclusive ser através destes meios mais tradicionais em suas versões online.


Tiragem e conteúdo sob demanda já é uma realidade que pode ser colocada em prática. E felizmente, esta era de mudanças, tem tecnologia à vontade. Basta um pouco de criatividade e vontade sem ficar amarrado no que era antes e sim no que pode ser depois.

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