Impressões dos protestos em quatro cidades diferentes do Brasil

por - 14:09

Ordem e Progresso

É o seguinte, diversas coisas já foram ditas. Por mais que o norte inicial das manifestações que tomaram conta do Brasil foi o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus e metro em São Paulo, esse estopim apenas expôs diversas outras feridas presente em todo brasileiro que se sente minimamente responsável pelo país. O caráter nacionalista que exacerba em tempos de Copas pode ter contribuído para isso também, porém, neste caso, não para que a população pinte e rosto, suje sua avenida e acompanhe os gritos de Galvão Bueno tentando empolgar a todos com a seleção da CBF. Provavelmente a falta de paciência com a voz do Galvão Bueno e a arrogância da FIFA também ajudaram com que a rua virasse realmente a maior arquibancada do país (não esqueceremos da FIAT e de Falcão).


Alguns até pintaram o rosto, mas para sair na rua e demonstrar toda sua indignação com diversos tipos de problemas de nossa nação, sempre visíveis, mas talvez o marasmo e a falta de vergonha na cara fazia com que a maioria de nós simplesmente não se expressasse da maneira certa. Estamos falando dos manifestos de São Paulo desde a semana passada, inclusive criticamos até a cobertura da imprensa em um de nossas postagens e foi interessante ver a reviravolta dos meios de comunicação (principalmente os massificadores) com relação as atrocidades ocorridas na cidade de São Paulo. Quem diria que um pífio feito o Geraldo Alckmin entraria para história do Brasil como uma coisa positiva, mesmo tendo agido da maneira mais errada e reacionária possível. Obrigado Alckmin, era isso que o Brasil queria, agredir pessoas que se comportavam de maneira pacifica fez e jornalistas que apenas trabalhavam fez nascer e crescer uma tsunami de indignação que transbordaram o Oiapoque ao Chuí de nossa nação e tomaram conta de todo o mundo.


Ontem uma serie de manifestações aconteceram pelo Brasil, tudo acompanhado de perto pelas antenas da TV, as emissoras de rádios, capas de jornais, sites, blogs e demais redes sociais. Em Brasília, adentraram no congresso. No Rio de Janeiro, rolou confronto com a policia despreparada e nas mãos de um líder político tão despreparado quanto. Em São Paulo, uma multidão tomou as ruas, muito mais do que pude ver na virada cultural desse ano. Pelo visto o brasileiro cansou um pouco do circo, percebeu que em meio a todo o desvio de dinheiro das Obras emergências das Copas do Mundo e das Confederações, qualquer centavo faria TODA A DIFERENÇA.


Muitas manifestações ainda irão ocorrer (lista completa com as datas em várias cidades), ontem pude comparecer a reunião prévia para o que vai rolar aqui no Recife na próxima quinta feira (falei aqui). A pressão está tão grande que algumas cidades já anunciaram redução no preço das passagens antes mesmo que os protestos ocorram. Oportunismo político maquiavélico ou afinada básica pela pressão popular?! Nunca saberemos, ou pelo menos não tão cedo. Como aqui sempre tentamos democratizar a informação ao máximo, colhemos uma serie de impressões de pessoas completamente diferentes e que compareceram aos protestos em diversas cidades do Brasil. Cada qual com suas opiniões e pontos de vista, que nos respeitamos e apenas usamos nosso espaço como ferramenta de divulgação e apoio para tentarmos entender o que está acontecendo no Brasil.


Rio de Janeiro


Felipe Leal (Rio de Janeiro)


Estive na manifestação do Rio de Janeiro desde pouco antes das 19h. A multidão na avenida Rio Branco, heterogênea e reativa aos que carregavam bandeiras de partidos, era inimaginavelmente grande, a perder de vista. Pacífico e muito bonito, o movimento seguiu em direção à Cinelândia, onde manifestantes - muitas famílias, inclusive - se concentraram no theatro municipal e no palácio Pedro Ernesto (câmara da cidade). Não houve danos a nenhum desses edifícios, fato comprovado por comunicação oficial do theatro. No caminhar da massa humana, um grupo se dividiu e foi para a assembleia legislativa, cuja escadaria estava cercada por um gradeado. Um amigo estava no momento em que um indivíduo de um pequeno grupo abriu uma mochila e retirou um morteiro, apontado para os portões do palácio Tiradentes, guardado por contingente do choque.


A confusão que se seguiu - com cenas lastimáveis e que contribuem para deslegitimar a força do movimento, com depredações de prédios públicos de importância histórica e violência de ambas as partes, a contar pelos baleados e por um silêncio no apagar das luzes que ainda deve estar produzindo barbárie mútua - não representa a expressão de centenas de milhares de pessoas que caminharam por diversas cidades e capitais do país, em um dia de importância ímpar para uma geração que não tinha participado diretamente das diretas. Aos carros virados e incendiados por uma minoria, seguiram três caminhões e dois carros dos bombeiros que foram aplaudidos pela maioria, atônita, nos arredores das avenidas Antônio Carlos e 1º de março. Cenas de correria e muito barulho de bombas, com uma explosão nas proximidades da praça XV, sucederam-se. Na volta para a Cinelândia - decidida quando os helicópteros sumiram dos céus e alguns policiais se concentravam no lado oposto da ALERJ - vi uma cena incrível: um PM de dentro de uma viatura acenava um sinal de "força!" para manifestantes com cartazes que ainda permaneciam na escadaria do theatro municipal. Em uma massa impressionante de 100 mil pessoas, as imagens que ficam não podem ser as de uma minoria.


Protesto Ceara


Thiago Nobre (Fortaleza)


Ao primeiro olhar desavisado seria uma tarde de segunda feira qualquer em Fortaleza (vila pertencente à província do Siará Grande, ou, se preferir, Ceará), mas essa não, 17 de junho foi o dia, em que solidariedade a todo o Brasil e a nós mesmos, caminhamos rumo ao hotel à beira mar, em que a seleção brasileira estava hospedada, saindo da Praça da Gentilândia e percorrendo por volta de 4,5 a 5 quilômetros. Há quem diga que a manifestação teve pouco mais de 400 pessoas, já eu diria a essa pessoa que ela deveria reaprender a contar ou trocar o grau dos óculos, pois foram mais ou menos umas três mil pessoas, tanto é que conseguimos fechar cruzamentos de avenidas.


Apartidários, partidários, movimento estudantil, pessoas das mais variadas procedências, todo mundo junto, apesar das divergências e elas sempre existem, fomos fazer barulho e lembrar que o governo tem que servir sua população e não o contrário, mostrando que “a rua é nós”. Quem foi que disse que a geração internet e redes sociais era conformista? Quem foi mesmo?



Leandro Peretti (São Paulo)


Fui ontem à passeata que aconteceu em São Paulo, apoiada na manifestação do Movimento Passe Livre. A impressão que tive foi a de que ficou claro para muito mais gente, além dos poucos, porém importantíssimos, que o Movimento Passe Livre (MPL) sempre juntou nos últimos anos, que se formos as ruas discutir todas as nossas insatisfações com o governo, temos sim muita força para isso. Tinha todos os tipos de gente na rua, de crianças à idosos, mas a grande maioria de classe média/alta, pelo menos no trajeto que eu segui, do Largo da Batata até a Avenida Paulista. Ficou claro que não havia um foco específico. Foram para as ruas porque acharam que deveriam e porque, de fato, estão todos descontentes com a situação atual do país.


Para o MPL, na minha opinião, foi muito válido pois juntaram um número imenso de pessoas nas ruas e com isso ganharam força para alcançar o primeiro objetivo dessas manifestações, que é a revogação do aumento das passagens. Para chegarem ao objetivo principal do movimento, transporte público, de qualidade e sem tarifa, a caminhada é muito maior.Fiquei realmente feliz em ver a imensa quantidade de gente na rua, porém é importante que se estabeleça um foco, uma causa e lutar por ela! Ir pra rua e ficar passeando achando que é uma festinha não vai resolver nada.



Aline Ferreira (Belo Horizonte)


Pacificidade (com exceção de algumas pessoas pichando os ônibus) desde a Praça 7 até uma certa altura da Avenida Antônio Carlos. Paramos no primeiro bloqueio policial, porém foi tudo CONVERSADO com o Coronel Claudia Romualdo, que disse que a partir dali seria mais complicado manter a pacificidade (por parte da polícia), pois daquele ponto em diante o trajeto era considerado “território da FIFA” (eu estava perto quando a Coronel declarou isso) e liberaram a nossa passagem mesmo assim. A marcha prosseguiu PACIFICAMENTE, cantamos o hino nacional em coro, foi lindo. Chegamos a outra altura da Avenida Antônio Carlos (não tenho noção de aonde) e um novo bloqueio e decidimos sentar, para recuperar as energias, beber água, comer algo, porque foi uma LONGA caminhada.


Do nada começo a ouvir barulho de bombas sendo atiradas e percebo a correria, já sabendo o que significava; levantei e desci a Avenida ao som de “sem violência” vindo por parte de alguns manifestantes, olhando para trás apenas para ver a fumaça do gás lacrimogêneo subindo e gente voltando da multidão com os olhos vermelhos e lágrimas em seus rostos (bombas de gás). Não senti medo, senti apenas raiva e mais raiva, beirando o ódio, dos policiais, pois tudo que conseguia ouvir foi gente voltando correndo da fumaça do gás, chorando e berrando que o exército havia sido acionado, a cavalaria estava chegando e cada vez mais policiais se juntavam à briga. Mas ainda assim vários manifestantes não recuavam, exceto alguns que não queriam briga e/ou confusão (não estou criticando eles, até porque, fui uma deles), e tudo que pude ver enquanto fazia meu caminho de volta foram vários e vários e vários ônibus parados por causa da confusão, e alguns poucos jogando pedras nos ônibus parados lotados de gente, estragando a grade que separava uma via e outra, jogando tocos de madeira no meio da rua para “impedir” carros que passavam, repito: poucos, manifestantes. Consegui pegar um ônibus com outros manifestantes e todos já falando “não vão para a Praça 7 que o pau tá quebrando la” e ao chegar em casa: a confirmação da confusão na Praça 7 e da “pacificidade” da PMMG.”


Agradecemos a todos que enviaram suas impressões a tempo, infelizmente fomos impossibilitados de postar todos. A luta continua, ainda tem muita coisa errada acontecendo no nosso país, não paremos agora!


Ps: todos os videos e imagens tirados deste TUMBLR

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