Nós devemos manter nossos olhos abertos

por - 14:07

Abaixo a Corrupção


Fui aos três primeiros atos organizados pelo MPL e cheguei a comparecer na concentração do dia 13 de junho (aquela que deu uma merda incrível e parece ter desencadeado tudo). Lembro-me que desde o primeiro ato tudo girava em torno do ônibus. Era um movimento legítimo de esquerda. Anarcos colaram ao lado de uma galera que andava com bandeiras do PSTU, PSOL e PCO. Provavelmente eles não estavam gostando disso, mas sabiam, como em uma efetiva democracia, respeitá-los.


No primeiro ato, um pessoal chegou já causando. Gritando coisas como sem partido e etc., falando que eles “só foderam o povo”, “só roubam” e etc. Mas daí acabou rolando uma negociação e explicaram que havia um bem comum ali. Como eu disse em um dos textos da cobertura que fiz: “foda-se a bandeira”. Mas SP acordou e aí que mora o problema.


Na segunda-feira quando passei próximo ao Largo da Batata, eu via a concentração e aquilo me arrepiou. Se todos fossem as ruas contra o aumento da tarifa, isso seria o ponta pé inicial para algo magnífico e lindo, mas não foi muito o que ocorreu. Cheguei a ver fotos de uma minoria – eu quero acreditar que eram poucos – erguendo bandeiras para “intervenção militar já”, “contra bolsa esmola”, “fora Dilma” e etc. Não estava lá. Me disseram que apesar dos pesares, a maioria dos gritos eram contra o aumento da tarifa na segunda. Aquele dia, dormi feliz.


Terça-feira, na Praça da Sé, os tais grupos isolados e uma galera um tanto quanto estranha aparecem. Volta novamente “enfia no SUS”, “hospital padrão FIFA” e o famigerado “contra a corrupção”, mas foi uma linda passeata que fez com que Alckmin e Haddad revogassem o aumento – segundo eles, a um custo muito alto para São Paulo. O prefeito teria ficado até triste com o que foi “obrigado a fazer”, diz a coluna da Monica Bergamo.


Dali em diante o negócio parece ter descambado por essas bandas. O protesto acabou virando uma forma de massa de manobra de uma imprensa conservadora e de grupos da direita. Tem gente pedindo a porra do impeachment da Dilma a mando de VEJA, Folha, Estado, Globo e cia. A grande imprensa está aplaudindo todos esses atos. E o pior, a maioria das pessoas ali – eu também quero acreditar nisso – não são alfabetizados politicamente. Muitos sequer sabem a diferença de direita e esquerda e a culpa é de quem? Da educação, deles mesmo, da imprensa, dos conservadores ou da própria esquerda? Não sei. O que eu sei é que eles estão sendo usados e até o momento vão abraçando uma ideia elitista.


Nunca fui fã de partidos políticos também. Desde os meus 15 ou 16 anos, quando comecei a entender as ideias de esquerda, o anarquismo e tudo isso, fui entendendo o que significavam os partidos para mim. Mas eu quero que eles vivam e estejam nas ruas, principalmente os de esquerda, que nasceram em galpões, em fábricas nos anos 80, em sindicatos, que surgiram, efetivamente, da borrachada policial, da articulação de um povo operário e pobre. Me desculpem, mas sem partido é um grito demasiadamente fascista para um país democrático.


Não menos importante do que tudo isso, lutar contra a corrupção é como ir à rua contra o nada. É, da mesma forma, protestar contra o mal, porque ele é tudo o que existe de ruim. E vejo, além dessas questões, um enorme problema nisso. Há na cabeça de todos os brasileiros que os únicos corruptos são os “petralhas”. A gangue do Zé Dirceu, Genoíno e que a direita tenta porque tenta incluir o Lula. Vamos lembrar que o PSDB, partido que parece apoiar todo esse movimento new-caras-pintadas-fora-collor, tem um baita escândalo do mensalão mineiro – considerado o percussor do esquema que o PT estava envolvido. Que há o grande caso do Cachoeira, bicheiro que por muito tempo fazia o trabalho de editor chefe na VEJA – foi mal, mas escolher capa é trampo desse cargo no jornalismo.


A grande mídia parece a qualquer custo tentar jogar tudo o que ela quer em cima dos outros. Depois do pronunciamento da Dilma, tem gente fuzilando-a, como queriam aqueles de cima, que emprestaram cinco minutos de sua programação para a presidenta falar. E continua assim, como a grande elite quer.


Gostaria também de explicar algumas coisas: o MPL não é um partido, não tem filiação com nenhum deles, é um movimento social essencialmente de esquerda e se retirou dos protestos "contra tudo" não por ser vendido ao PT ou a puta que te pariu, mas por ter conseguido a revogação do aumento e, segundo eles, por causa do “endireitamento” dos atos. Ninguém lá parece ser a favor, por exemplo, da redução da maioria penal. O gigante não acordou, a classe média apenas sentiu um pouco do que é estar nas ruas, enquanto a periferia (que o MPL apoiou com manifestações no Capão Redondo) parece nunca ter dormido.


Por fim, tomem cuidado. Eu nunca gostei de ser um esquerdista pregador, daqueles que entram na fila da padaria para discutir Marx, mas gostaria apenas de pedir para que todos que estão as ruas sem pautas concretas ou “contra tudo”, ou pior, “contra o PT”, “contra a presidente”, “a favor dos militares”, pense um pouco. Você provavelmente não viveu o período da Ditadura por aqui, seus pais deveriam ser crianças e pouco entendiam disso, mas vai por mim, aquilo sim era corrupto e perigoso. Não tenha saudades de algo que você não viveu, se não você deixará de ser um manifestante e passará, pelo menos na minha cabeça, a ser só mais um imbecil.


tumblr_movd0tPeru1qcfy4so1_1280



Recife


Ontem foi um dia histórico no Recife, pelo menos na historia recente dele. Aqui, a cidade demorou para entrar na onda de eventos e protestos que tomou conta do Brasil, não sei se por preguiça, acomodação ou pela tentativa de realizar um manifesto de maneira organizada. Tanto que a reunião para discutir como seria o evento foi com maior quorum que já tive notícia por aqui, além de bastante respeitosa e organizada, tentando dar fala para o máximo de pessoas e opiniões possível. Nela chegaram a resolução de que deveríamos falar sobre e para o transporte público por aqui, focando neste problema a principio, mesmo que este já seja um problema bastante amplo. Queríamos melhoria no transporte público? Redução dos preços ou passe livre? Isso já não ficou muito claro na reunião, tanto que quando Eduardo Campos (seguindo a risca Maquiavel) anunciou redução das passagens dois dias antes do evento, muita gente já falava em um novo foco para protesto.


Ou seja, o que se viu ontem foi uma passeata pela indignação, mas não estava claro em que. Na real, vi muita gente indo para a rua para dizer que acordamos, ou seja, estavam indignados com a falta de ação, era isso? O manifesto teve início antes mesmo do horário e local previstos na reunião, o centro da Cidade do Recife. Os bairros da Boa Vista e São José já falavam e agiam com relação ao evento durante toda a manhã. Uma mistura de medo, ansiedade e instigação tomava conta da população. Vi alguns falando que teria confusão, tanto que o mercado de São José começou a fechar por volta do meio dia, boatos falavam que os ônibus e o metro parariam no início da tarde, que as torcidas organizadas já anunciavam confusão e confronto e muita gente corria para casa na hora do almoço.


Voltando para casa por volta das duas da tarde, vi um enorme contingente policial se juntando perto da Rua da Aurora e no cinema São Luiz, onde já começavam a aparecer grupos protestando. Por volta das 16h me direcionava para a praça do Derby e o que via era um carnaval, a avenida Conde da Boa vista fechada, sem nenhum carro ou ônibus, sem comércio informal ou formal, e diversos jovens com seus cartazes, bandeiras do Brasil, caras pintadas, e já chamando todos para rua. Era um carnaval, mas no lugar das marchinhas ouvia-se gritos de ordem, além dos hinos de Pernambuco e nacional, cantados tão errados como quando os jogadores de Futebol fazem isso. Muita gente contra a corrupção (mas qual delas, cara pintada?), uma câmera da Globo sobrevoava a avenida filmando e animando (?) a população, enquanto outros gritavam contra a própria emissora.


Fui da Aurora até a o começo da Conde da Boa Vista fazendo o sentido contrário da passeata e vi muitos cartazes contra a PEC 37, vi muita gente dizendo pra Eduardo Campos colocar os 10 centavos de diminuição da passagem no SUS. Pelo que entendi o movimento de saúde realmente se organizou para o momento. Vários clamores dos professores com a educação, vi também a tal indignação com os gastos da Copa. Porém, de uma maneira geral vi vários cartazes com dizeres de orgulho como #OGiganteAcordou, #SaimosDoFacebook, #VaiBrasil, #VemPraRua. Fiquei me perguntando, orgulho de que?


Temos diversos problemas no país, eu sei, mas o nosso estado está sendo vendido, a nossa cidade na mão de empreiteiros e cada vez mais vertical. Me digam, onde está o orgulho? Isso foi uma passeata, porque protesto mesmo só aconteceu no final da noite, quando alguns resolveram acordar realmente e se dirigiram para a prefeitura do Recife, que fica praticamente do lado do Marco Zero, mas não parece ser um local significativo para protestar (é isso mesmo?). A maior parte do tempo fiquei esperando um sem noção como o Geraldo Julio passar junto com os “manifestantes”, além dos partidos e políticos oportunistas, mas esses não podemos evitar de participar de tais eventos, porém é sempre bom ficar ligado para que o tiro não seja no próprio pé.


Dilma


Ontem a nossa excelentíssima Presidente da República fez uma reunião com alguns grupos e nela firmou vários pactos, passando da corrupção à mobilidade urbana, de um plebiscito para a reforma política à condenação de corrupção como crime hediondo e etc. Ela parece ter se saído bem e digo isso não só porque não sou a favor de um golpe militar, mas porque ela irritou o Reinaldo Azevedo e se ela conseguiu fazer isso, provavelmente suas propostas foram ótimas para o país.



Não menos importante do que tudo isso, lembrem-se do conselho que o Fugazi deu a todos, isso em 1991 com a canção "Kyeo", do ótimo Steady Diet of Nothing:


The troops are quiet tonight,
But it's not alright, because we know they're planning something.
Don't you know things have settled down, down, down
But silence is a dangerous sound,
We must, we must, we must keep our eyes open,
See what we see, what once was promised now will be.
Still uncertain?
Get off that hang, don't wait


Você também pode gostar

0 comentários