O homem embotado

por - 11:05

palitinho


— Três.


— Um.


— Lona.


Meu siso estava me incomodando com aquela dor insistente e meu estômago ainda não havia conseguido digerir aquela costela cozida que havia comido horas atrás, mas lá estava eu jogando palitinhos com amigos na esquina perto da minha casa. E apesar do meu bom palpite para aquela rodada, eu havia perdido com minha lona. O acerto foi do Birú, ele tinha dois palitos na mão fechada, o Neto segurava um, e eu, logicamente, não tinha nada.


Não apostávamos coisa alguma nunca, a gente jogava simplesmente pelo transe em que o jogo nos colocava, era um disfarce, um artifício usado para esquecer a nossa falta de dinheiro. Não dá pra se fazer muito mais que isso quando você está desempregado e não tem mais que dois reais no bolso.


Passávamos horas jogando aquilo, até que o cansaço simplesmente aparecia e éramos empurrados para fora do transe.


O sol foi se esgueirando por trás do muro da casa da velha Zena e a sombra que começou a nos cobrir trazia consigo as suspeitas de que três mandriões parados na esquina poderia não ser boa coisa. Então nos despedimos sem combinar nada, mas sabíamos que no dia seguinte estaríamos os três naquele mesmo lugar, jogando porrinha.


Eu fui descendo a rua enquanto tentava disfarçar a dor incômoda do meu siso e as perfurações feitas no meu cérebro pela preocupação constante quanto aos palpites do dia, analisava um por um, pensando em não cometer os mesmos erros nas rodadas que estavam por vir. E ao mesmo tempo, uma imagem se repetia na minha cabeça, uma farmácia. Eu realmente precisava de um antiácido, com o siso eu me virava com umas gotas que eu tinha lá em casa.


Gastei meus famigerados dois reais com um antiácido, que tomei na farmácia mesmo, senti as milhares de bolhinhas correndo suavemente pelo meu esôfago até chegarem ao meu estômago, o alívio viria rápido, e veio.


Depois que ela entrou naquele lugar, o mundo, literalmente, acabou. Os quatro cavaleiros do apocalipse desceram pelo som das trombetas no céu e acabaram com o resto do mundo, exceto eu, ela, o copo descartável que eu segurava e o catálogo de esmaltes que ela tinha em mãos.


Eu não conseguia me mover, estava embebido pela maneira como ela se movimentava, o copo descartável em que havia tomado o antiácido descansando na minha mão sugeriu que eu me aproximasse.


À medida que ela andava em direção ao caixa com seus vidrinhos de esmalte nas mãos, exibindo seu cabelo cacheado vermelho como as maçãs de seu rosto, ela ia refazendo o mundo ao seu redor. Usando apenas simplicidade, beleza e elegância, ia fazendo tudo voltar a existir, devagar.


Eu e o copo íamos observando o espetáculo, quando de novo ele tentou interferir na situação. “Pega uns vidrinhos de esmalte”, ele disse.


Pode até parecer loucura, mas pra mim aquilo fazia todo sentido do mundo. Fui até a prateleira dos esmaltes e peguei três, um vermelho, um azul e um verde. Os escolhi e a imaginei pintando as unhas, sentada no sofá de casa enquanto esperava eu ligar pra ela. Eu, um homem embotado, imaginava entre nós um beijo encabulado na porta da farmácia se o plano do copo desse certo.


Eu a observava atentamente enquanto ela conversava com uma das atendentes, e quando comecei a andar em sua direção senti como se estivesse em cima de um monociclo fazendo malabarismo com motosserras.


Assim que ela se afastou da atendente eu apareci como que brotado da terra com o punho direito esticado falando bem alto.


— Três! Eu tinha um único vidrinho.


Ela me olhou um pouco assustada, mas logo enfiou a mão na sacola, tentando esconder quantos esmaltes pegaria, e cantou dois.


Abrimos as mãos ao mesmo tempo, e eu e o copo nos lamentamos ao ver que ela havia puxado da sacola um só.


— Valia o que? Ela perguntou sem muita curiosidade.


— Você fuma?


— Às vezes.


— Toma. Dei um dos meus cigarros pra ela, demonstrando ser um bom perdedor.


E aí saiu acendendo o “Lucky”, e os fios de fumaça branca subiam até o céu. Mas quando ela dobrou a esquina, uns fios dançaram com ela. E aí eu quis ser aquele cigarro, mesmo que soubesse que depois ela me esmagaria contra a sola de sua sapatilha.

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