O soar catártico do brucutu

por - 11:08

catexia_2


Falar de música instrumental no Brasil hoje é um assunto controverso: a efervescência de uma espécie de “cena” geral se confunde com as dificuldades gigantes que os músicos mais voltados pra essa área encontram para divulgar os seus trabalhos e ganhar espaço. De qualquer forma, faz parte do nosso trampo (o "penoso" trabalho de ouvir discos lindos sem parar) encontrar e distribuir esse pessoal que faz seu som e nem sempre pode contar com o apoio da onda atual. Hoje eu tive o prazer de conhecer o A Voz do Brucutu, o EP de três faixas da banda francana (fontes me dizem ser esse o gentílico dos residentes de Franca, São Paulo) Catexia. O som dos rapazes é instrumental – com o adventos de alguns poucos gritos bem dados em – e eu admito, mais pessoal e cheio de identidade do que eu esperava encontrar. Fica difícil postulá-los como post-rock ou qualquer definição de gênero semelhante; o fato de se tratar de um EP instrumental não parece restringir os limites dos caras nem um pouco e as canções trazem um equilíbrio entre pauleira pesada, técnica e melodias trabalhadas que é raramente alcançado nesse meio. Depois de alguns pares de trocas de e-mail, fiz uma pequena mas divertida entrevista com eles, e acreditem: o conteúdo não-musical parece tão interessante quanto o trio de canções que compõem A Voz do Brucutu.



Baixe A Voz do Brucutu aqui


Essa primeira pergunta é uma que sempre se faz, mas eu acho que é um tanto quanto importante: O que o A Voz do Brucutu representa pra vocês, em termos musicais, pessoais, espirituais, astrais, etc etc etc? A gente sabe que a primeira impressão é uma coisa que fica quando se vai ouvir um disco, por isso eu tenho que perguntar: qual é a viagem da capa? Tem algum significado secreto que vocês gostariam de compartilhar ou é só uma belíssima curtição visual mesmo?


Cara,  A Voz do Brucutu ter se concretizado significa muitas coisas. A primeira delas é o fato de que conseguimos unir nossas energias, dores, angústias, frustrações e sintetizar isso em música. Mesmo que essas características não estejam diretamente expostas pelo fato de não ter letra. A Voz do Brucutu, antes de uma obra do ponto de vista musical é uma obra do nosso cotidiano, da nossa convivência, das nossas angústias e brigas internas (entre nós também) mais profundas. Esse EP não é só música. Esse trabalho para nós é o produto final de um grande processo de expressão da nossa subjetividade. Nesses casos, acho que a música funciona (também) como um meio, como uma ferramenta, como uma estrada pra que nós quatro pudéssemos expressar e amplificar nossas sensações cotidianas em música. Quanto a capa, primeiramente pensamos que não gostaríamos de trabalhar com uma foto nossa ou algo do tipo, mas sim com a arte de alguém, somar a ideia da nossa arte que expressamos em música com a arte expressa em material visual. Pensamos alguns nomes que a gente conhece o trabalho para conversar sobre a possibilidade de fazer essa capa. Nesse contexto, o Carlos apresentou o trabalho do o Gustavo Resende (que é seu amigo pessoal), e mostrou pra gente algumas produções dele. Instantaneamente nós curtimos muito os trampos dele, então o Carlos mandou uma mensagem pra ele fazendo o contato e explicando a situação do disco, mandando as músicas pra ele ouvir e, caso gostasse, se tinha a disponibilidade para criar uma capa para tais músicas. Ele ouviu as músicas e topou abraçar o trabalho. Então o Lucas mandou também um texto pra ele com uma viagem mais filosófica da banda sobre o disco. Logo em seguida, o Gustavo nos mandou esse desenho da capa. Surtamos quando vimos a arte. Foi uma sensação de êxtase mesmo. Mas na mensagem ele dizia que era um trampo não terminado e que ia mandar a versão final. Depois de uns dias ele mandou a versão final e a gente estava apaixonado por essa primeira versão. Conversamos um pouco com ele sobre o que sentimos da capa, o que a gente percebia dela e propusemos usar a primeira arte. Ele topou e ai foi só alegria, seremos eternamente gratos ao Gustavo. Essa edição que não saiu da capa valerá milhões daqui alguns anos. (risos)


Por mais que a duração das músicas compense o fato de serem apenas três delas, nós ficamos ansiosos por aqui! Tem mais alguma coisa saindo do forno do Catexia?


Tem sim. Neste último final de semana, nós fizemos algumas gravações que em breve vão estar disponíveis na internet. A primeira delas é um material audiovisual que gravamos ao vivo no Estúdio Wasabi, lá em São José dos Campos. Quem nos convidou foram os guitarristas do Sin Ayuda: eles fazem um trabalho bem massa lá no home-estúdio que montaram, coisa fina mesmo. Nós gravamos duas músicas, uma inédita chamada “Aborto” e outra recém lançada em A Voz do Brucutu, a primeira faixa “Inferno”. Outro material que deve sair em breve é referente à primeira apresentação ao vivo que fizemos após lançamento do EP, que aconteceu lá em Jacareí. O show foi bem especial pra gente, foi tudo gravado e, além disso também rolou uma prosa legal lá no festival (Infraudio Convida); esse material dessa apresentação + essa conversa com a banda também deve sair em breve. É só acompanhar nosso site e o Facebook.



Por sinal, por que Catexia? E mais, por que A Voz do Brucutu? Mesmo sem saber o significado, os nomes encaixam de uma forma divertida com a vibe das músicas, mas existe uma ligação entre tudo isso? (risos)


Catexia significa muitas coisas. Mas o cerne da ideia é mais ou menos algo como o tesão, a líbido, a vontade que se tem de fazer algo. É como a energia psíquica que o ser humano concentra para realizar uma ação. Quando precisávamos escolher um nome pra banda, ficamos pensando o que nos motiva a tocar; o que significa fazer música para nós. Nosso consenso foi o de como é dionisíaco essa possibilidade de compor e tocar. Quem criou essa nomenclatura (catexia) parece que foi Sigmund Freud, e claro que o conceito de estudos teóricos sobre essa palavra deve ser mais profundo do que a nossa definição (mesmo que a gente não tente definir muito). Mas pra banda, Catexia está vinculado a essa ideia de tesão/energia libidinal à música - ao seu poder transformador -, à explosão de um show, de um ensaio, de uma jam ou de uma simples punhetada no violão depois de um dia cheio.
A Voz do Brucutu também significa muitas coisas. Brucutu (entre outras coisas) pra gente é um adjetivo dado aquela pessoa sem tato social, que não sabe se portar nos ambientes de sociabilidade. Aquela pessoa que tem dificuldade de exteriorizar o que está pensando e sentindo. A Voz do Brucutu seria o momento em que o Brucutu consegue se expressar. No nosso caso: a nossa voz não tem palavra, nem letra. A nossa voz é a música instrumental: os acordes, efeitos, progressões, a dinâmicas que desenvolvemos nessas produções. Nesse elo entre o nome da banda e do EP dizemos: qualquer Brucutu usufrui da catexia para conseguir ter voz.


Sabemos que o Catexia não é o primeiro projeto musical de alguns de vocês. Como nasceu o trajeto musical de cada um da banda e o que vocês diriam que mudou até o momento que vivem hoje, com o EP? 


O Carlos e o Alex participaram de outros projetos antes da Catexia, entre esses trabalhos: a The Sams, a Mataram Meu Mestre, o Clube dos Bagres e a UDJC. Eles são ótimos músicos. Já o Lucas (que também é um ótimo músico) começou a tocar guitarra apenas alguns meses antes da banda começar a criar forma (quando era só bateria e guitarra). Aliás, a gênese da Catexia aconteceu graças ao guitarrista que nunca tinha estudado guitarra. O Lucas passou por um período bem conturbado no quesito sociabilidade, e tudo que ele tinha como válvula de escape para a loucura era essa criação intimista. A música o salvou, e depois a gente foi se unindo em torno dessa perspectiva. Já eu (Renan), me considero totalmente abençoado por ter vivenciado de perto uma época singular da cena “independente” de Sorocaba que já existe a um período considerável na cidade. Desde a minha pré-adolecência até a chegada em Franca para à faculdade, minha vida cultural esteve vinculada aos shows de bandas sem gravadoras, autorais, que gravavam seus EPs e lançavam pela cidade, em vários estabelecimentos como o Coliseu, O Mr. Mambo, o Underground Bar, o ZugBar, o Keller, entre outros. Com 15 anos eu tinha a oportunidade de assistir bandas maravilhosas de Sorocaba como: Volpina, The Fortunetellers, INI, Pugna, The Biggs, Vilania, The Glen, Dropy, Tijolo e Fast Food Brazil. E infelizmente eu não vi ao vivo, mas também gostava (gosto) de ouvir bandas (também de Sorocaba) de períodos anteriores à esse da minha (pré)adolescência como o Automatic Pilot, o Needous , Ninety93, Vzyadoq Moe e o Wry (que eu vi ao vivo mais depois um pouco mais velho quando eles voltaram da Inglaterra). Assim, eu creio que cresci interligado com essa mensagem empírica do "não importa o que aconteça, se você tem algo a dizer então ‘dê seus pulo’ e grave suas músicas". Essa época deixou marcas profundas na minha personalidade. Quando eu me mudei pra Franca, fiquei um pouco triste e assustado com a dinâmica da vida cultural na universidade. Mas com o tempo, você vai se encontrando e encontrando pessoas que fazem valer a pena. Nesses cinco anos eu acho que muita coisa mudou em Franca (dentro de mim também, claro) e as ações culturais alternativas tem se multiplicado, as bandas autorais tem aumentado e eu acho que a população tem ido mais pra rua. A Catexia também é fruto dessas agitações, da nossa relação com Franca, já que ninguém nasceu na cidade. A gente tem tentando ensaiar bastante pra conseguir produzir bastante coisa nova.. A intenção é que A Voz do Brucutu continue abrindo portas, como abriu nessas três semanas de lançamento.


Catexia - A Voz do Brucutu


Como eu disse ali em cima, a impressão que fica é a de que o som de vocês não se restringe ao instrumental. O que vocês conseguem ouvir de outras bandas, dentro do som de vocês? 


Acho que estamos intrinsecamente vinculados à estética do instrumental. Nesse raciocínio, sabemos que lidamos com uma gama enorme de bandas instrumentais que existem no Brasil nesse 'boom instrumental pós 2005': Fóssil, Labirinto, A Banda de Joseph Tourton, Camarones Orquestra Guitarrística, Macaco Bong, Skrotes, Burro Morto, Hangovers, Urso, Aeromoças e Tenistas Russas, Bexigão de Pedra, Tupi Balboa, Eletroeco, Dibigode, Malditas Ovelha, Mama Gumbo, Bexiga 70, Pata de Elefante, Avec Silenzi, Tigre Dentre de Sabre, Mullet Monster Máfia, Huey, Os Pontas, Buffalo, Mamma Cadela, Hurtmold, Elma, e várias outras. Ouvimos bastante o instrumental internacional também: And So I Watch From Afar, Toe, Té, Russian Circles, Mogwai, Explosions in the Sky, Tortoise, Jack Marquise, entre outras. Mas acredito que todos nós, no dia-a-dia, ouvimos uma quantidade maior de bandas com letras: The Mars Volta, At the Drive In, Led Zeppelin, QOTSA, Mew, Sonic Youth, Nirvana, MC5, Jack White, TruckFighters, Redfang, Dozer, Monkey 3, Jeff Buckley e muitas outras.


E a agenda de shows, como anda? Inclusive, como é pra vocês esse trabalho de divulgar e conseguir fazer o som de vocês chegarem a novos lugares?


Nossa agenda está começando a ser preparada. A primeira apresentação pós- lançamento do A Voz do Brucutu, aconteceu no começo desse mês (01/06) lá em Jacareí e foi lindeza total. A gente pretende fazer mais apresentações pelo Estado de SP e no segundo semestre fazer uma turnê por Minas Gerais. Antes do lançamento do disco, sem nenhum material gravado, nós realizamos 17 apresentações em 6 cidades distintas. Essa estatística superou bastante nossas expectativas. Sem material, apenas no boca a boca, atingir cinco cidades, foi bem interessante. Todo o trabalho de divulgação da banda é feito por nós mesmos. Como a gente não tem nenhuma parceria para essa primeira distribuição do A Voz do Brucutu, tentamos nos organizar usando o Docs do Google e um grupo no Facebook pra articular algumas ações. A gente escreve para blogs, sites, divulga o disco no Facebook, escreve no nosso blog, passa alguns links para conhecidos de outras cidades e por aí vai. A intenção também é fazer um material legal com as viagens que rolam quando tem apresentação ao vivo. Nesse sentido, a internet é nossa principal aliada. A nossa divulgação é baseada em duas ferramentas: a primeira é o nosso site onde a gente tem tudo compilado, informações, links, acesso de todos os outros endereços da banda, download grátis do disco, etc, ou seja: é a nossa base de dados; e também o Facebook que é o maior meio de divulgação.


Qual seria o top dez de discos de 2013 pra vocês, no mundo inteiro?


O Queens of The Stone Age com o ...Like Clockwork lançou mais um belo trabalho. Mad Grinder (RN) lançou um trabalho massa com Smoke, e a banda Projeto Caixa Preta com o álbum Mundo Cão, estralaram no rockão clássico cheio de blues. Sem falar último disco do grupo de jazz frito MarginalS. O Projeto Coyote Indigo, com Horning, usou muito bem a influência vinda do Tame Impala. All Hail Bright Futures, do And So I Watch you From Afar ficou bacana.


Catexia


Qual a análise que vocês fariam do cenário musical brasileiro, hoje?


Eu (Renan) interpreto o cenário musical brasileiro hoje como singularmente confuso. A gente percebe a ascensão de coletivos culturais pelo Brasil todo, vários selos independentes, festivais em todos os estados e principalmente uma movimentação de recepção online com sites e blogs alternativos. Todavia, ao mesmo tempo, as grandes gravadoras ainda ocupam exponencialmente maior espaço na difusão da música. Apesar da internet ter revolucionado a distribuição musical, as grandes gravadoras ainda tem um poder muito forte, a desigualdade de distribuição ainda é enorme. Basta pesquisar os artistas que tem mais quantidade de downloads, os sites mais acessados, os filmes mais assistidos e baixados, os vídeos mais acessados do Youtube, e dessa maneira da pra gente perceber o quão grande e influente é o poder da industria fonográfica. Pensando nesses fatores e apesar da grande quantidade de bandas boas, talvez o cover ainda seja mais forte e distribuído na maioria das cidades brasileiras, infelizmente. Mas nesse sentido, eu acredito que o 'independente', com os coletivos, produtoras, selos, estúdios, e bandas necessitam cada vez mais adentrar e ocupar o espaço de difusão já estruturado pela grandes gravadoras e que a grande distribuição não seja totalmente padronizada.


Pra terminar, se não fossem músicos, o que seriam?


Cara, ninguém da banda é músico de verdade. Aliás, eu acho uma característica bem interessante pra Catexia. Pois se é que existe uma 'força-motriz', algo como um alicerce da banda, com certeza não estaria vinculado a técnica musical. Não menosprezando o conhecimento que se precisa obter sobre música para compor e criar e também sem querer diminuir os músicos de conservatório, também chamados de 'letrados da música'. Muitos deles fizeram e fazem coisas maravilhosas em suas produções, mas acontece que nenhum de nós estudou academicamente música. Muito pelo contrário: todos realizamos algumas outras atividades no dia-a-dia e a maioria delas vinculada a Universidade Estadual Paulista de Franca onde eu (Renan), o Lucas e o Alex fazemos parte do corpo discente do curso de História e o Carlos trabalha no setor de Informática. O Alex também trabalha na Biblioteca da universidade, o Lucas trabalha no Arquivo Histórico da cidade, eu dou aula no ensino médio da escola pública e também tô tentando fazer pesquisa acadêmica, ou seja: nossas vidas não foram e não são pautadas pela carreira de músico. Em contrapartida, eu acredito que a Catexia seja, pra todos nós quatro, um meio de expressar aquilo que sentimos sobre tudo aquilo que a gente passa nesse cotidiano. Ou seja: não um mero estudo da música por sí mesma, mas sim compartilhar e depois tentar sintetizar algum tipo de energia/tesão que vivemos em todas essas atividades e amplificá-las em linguagem musical. Mas vale pensar que isso não significa que nós não entendemos porra nenhuma de música. A gente tenta tocar bastante junto pra criar um tipo de expressão musical que seja possível nos unindo enquanto quatro peças distintas/heterogêneas. Algo como uma identidade singular a partir do coletivo. Fazemos várias 'jam sessions' nos inícios e finais de ensaios: parece uma sessão do descarrego (risos). Por termos adentrado o mundo instrumental, a gente acabou por procurar e conhecer várias bandas tentando absorver as especificidades e belezas desse 'gênero'. Além disso, sempre que temos tempo e uma mínima estrutura, organizamos alguns eventos de música 'independente' na nossa cidade. Colaboramos, junto com outras pessoas, do coletivo Guerrilha Gig, e sempre que é possível realizamos algumas ações por Franca. Por exemplo: semana que vem vamos receber um artista instrumental do Canadá, que faz muito noise com a guitarra: o ThisQuietArmy.

Você também pode gostar

1 comentários

  1. Sou o pai do rik,notei q desde pequeno a queda p/ a musica, más não consegui que fizesse um curso, pois matriculei ele e ele não se adaptou e quis mesmo descobrir sózinho.
    Tenho acompanhado todo o pessoal (ele e seus colegas, acho q no curso de APOMETRIA estou encontrando respostas incriveis sob tod o processo deles eu tenho certeza , q eles não estão fazendo
    sozinhos, e o futuro proximos deles será mujito gratificante,
    tanto p/ mim que sou pai e seguidor desta turminha exepicional
    Que Jesus os Ilumine
    Degas

    ResponderExcluir