A vida no Facebook, episódios

por - 11:06

gato


 

Fui instado a escrever aqui, o que eu queria há tempos fazer mas conseguia sempre arranjar uma forma de me desviar das minhas obrigações não-obrigatórias (eu nunca faço nada que não seja obrigatório), e aí eu fiquei nessa. Sentado aqui. Até que chegou a ameaça, dizendo que, se eu não escrever, serei vítima de atentados contra minha pessoa e honra.


Não tenho nada pra dizer (então vamos falar sobre isso, imagina que bosta).


A vida no Fêchobúkko (é como minha vó fala) (esse é o título, vai em negrito aqui também?)


Episódios


A mina que eu quero xavecar não está online no Facebook. Esse é o drama da vida real, narrado ao vivo (naquelíssimas) pra você, aqui, com exclusividade do AltNewsPaper (deixa assim, Paulo). Então alguém mais assertivo vai dizer “Mano, liga pra ela, Rafael” e eu vou responder “Num tenho o número dela, perdi” e aí o outro lá atrás vai falar “Deixa mensagem, quando ela entrar ela responde!” e eu “Mas assim não vale, quero conversar com ela” e então vem a voz da consciência “Mas falar sobre o que, Rafael?” (impaciente, batendo o pé) e eu “Sobre, sobre, sobre” (entro em pânico e começo a chorar).


Um amigo meu foi marcado numa foto em que ele mal aparecia. Eram duas meninas e um cara numa balada. Quando passei o mouse pelo seu nome, vi que a ele pertencia aquele discreto braço que entrava quase despercebido pela direita da foto, culminando numa mão que repousava entre as mãos de uma das meninas. Pensei “Pra que marcar uma mão na foto?” e embaixo a namorada dele perguntava, com todo respeito, quem afinal era aquela vagabunda que tava segurando a mão do namorado dela. E ela dizia mais ainda, dizia que conhecia aquela aliança, que ela tinha uma igual inclusive. Aí eu pensei “Eita porra” e curti o comentário.


Uma amiga posta uma foto de gatinho. Você vai lá e curte ironicamente. Ela posta uma de cachorro, você mantém a ironia e até comenta, dizendo, cinicamente, “Que cachorro lindo”. Sua amiga mal desconfia. Ela posta a foto de um grupinho de filhotes de cachorros (que em portuñol seria cachorros de cachorros) (confirme esta informação, Paulo); agravante: tem um bebê porco no meio. Seu coração gelado não recua e você curte, comenta e compartilha, tudo ironicamente. No compartilhamento você adiciona a frase “Vejam como são fofos os bichos quando filhotes”. 73 pessoas curtem, inclusive aquela que você (eu) queria xavecar no primeiro bloco deste texto. Ela vem puxar papo por causa da foto compartilhada. Sua amiga começa a postar coisas fofas no seu mural, hábito que você alimenta com um cinismo frio, quase cruel. Você começa a contra-atacar, postando os animaizinhos mais fofos da internet, o que ela, no auge da ingenuidade, não reconhece como agressão iconoclasta, e acaba curtindo e comentando tudo. Paralelamente, o xaveco àquela mina evolui, e você saem para tomar uma cerveja. O papo é sobre coisas fofas, e seu escárnio agora é tão evoluído que a menina não consegue perceber a raiva em que se baseia aquele crescendo de ofensas disfarçadas de elogios (Paulo, eu não sei aonde isso vai dar). Vocês saem toda semana, logo se vêem (conferir conjugação) duas, três vezes por semana. Sua amiga do Facebook posta religiosamente no seu mural animais fofos com coraçõezinhos nas legendas. Você leva a menina a conhecer seus pais. Falam de coisas fotas. Relacionamento sério. Sua amiga faz um álbum com montagens de seus rostos no corpo de animais de fazenda bebês (pintinhos, potrinhos, bezerrinhos, até girinos); você curte tudo e compartilha; um álbum tão fofo que se torna internet famous; G1 entrevista você e sua amiga; Evaristo Gosta faz uma pauta no Jornal Hoje sobre vocês. Paralelamente: a menina, que agora virou sua mina (ela não notou o quão irônico você foi aos e ajoelhar e perguntar se ela queria namorar) (no meio da praça de alimentação do shopping), e, sendo sua mina, nutre grande desconfiança e ciúme pelo seu relacionamento amplamente publicizado com a sua amiga fofa. Sua mina engravida. De você, é claro. Foi lindo. Nove meses e nasce um bebê. Você e sua amiga fazem uma dupla que entretém crianças com câncer em hospitais públicos. Você não sabe o que seria mais fofo: seu “lindo trabalho voluntário e filantrópico” ou o “fruto do seu amor com a mulher da sua vida” (tudo é entre aspas na sua vida de ironia). Espiral de fofura. Cinismo crescente. Você para de beber para ser mais fofo. Vira vegetariano (Paulo, acho que escrevi “foto” em vez de “fofo” algumas vezes, corrija por favor). Vegan. O Brasil é o seu partido. Você encontra o Amarildo. Seus amigos, que haviam brigado no segundo bloco do texto, voltam a namorar; são felizes. Você se encontra com o papa Francisco e recusa sua benção, de tão humilde que é. Crise na igreja católica. Cabral e Paes caem em desgraça. Globo desmascarada. Derretem o ouro do Vaticano e alimentam os famintos da África. A polícia é desmilitarizada no Brasil. Suplicy emplaca o Renda Mínima. Feliciano se assume gay; milita pelas liberdades individuais e pelo respeito; casa-se com Jean Wyllys. Sakamoto dá seu trabalho como terminado, agradece a todos (nominalmente a você) e encerra o blog. Eliane Brum se diz satisfeita com o Brasil; faz uma coluna quilométrica elogiando os avanços em saúde, segurança e educação nos lugares mais periféricos do Brasil; 34 milhões de pessoas compartilham, outros 56 milhões curtem. Estados Unidos retiram as acusações a Snowden. Jornada de trabalho de 30 horas no mundo todo. Preço do Kinder Ovo cai pela metade. O verão se adianta. Fabrício Carpinejar escreve o grande romance brasileiro (quem poderia dizer?). Sua mulher (com quem você tem agora três filhos; João, Maria e José) e sua amiga e parceira de filantropia agora se dão super-bem e são melhores amigas. Quatro novos filtros no Instagram. Você ganha o Nobel da Paz (em cima da Argentina). No discurso de aceitação, afirma nunca ter gostado de cachorros, muito menos gatinhos. Doa todo o dinheiro pra Al-Qaeda – que nesse meio tempo havia se desmilitarizado e dedicava-se à educação de crianças carentes, especialmente meninas; o grupo volta à ativa que e realiza um atentado (3 mil mortos) contra a estátua do Borba Gato (quem poderia dizer?). Caos volta a reinar. Seus seguidores mais exaltados decapitam gatos, cães e até passarinhos em praça pública. Guerra civil. Daft Punk lança novo disco e é uma bosta. Partidários do entendimento entre os povos invadem sua casa (agora um bunker fortemente armado) e te capturam. Você é espancado e torturado, antes de ser crucificado, morto e esquartejado em praça pública. Sua cabeça numa estaca, em exposição na Consolação. No seu rosto sem vida, um sorriso de dentes quebrados: o ódio venceu.

Você também pode gostar

1 comentários

  1. enchendoacaradepoesia26 de julho de 2013 23:42

    Quatro novos filtros no Instagram.

    ResponderExcluir