"Gravatismo agudo"

por - 15:11

gravatas


Estive doente. Tudo bem que não foi uma doença como sífilis ou malária, mas foi suficiente para me fazer refletir sobre o tempo que perco fazendo coisas que odeio ou que acabo me obrigando a fazer por um bem maior. Coisas pequenas, mas suficientes para não me poupar de arrependimentos em um futuro não muito distante, tipo não mijar antes de sair de casa e ficar com a bexiga cheia durante todo o trajeto de casa pro trabalho ou falar “bom dia” pra recepcionista do prédio, que nunca responde de volta. Ou mesmo coisas maiores num âmbito menor, como ter comprado a Pepsi ao invés da Fanta Uva. Quando estou doente, perco um pouco da noção do que é realmente relevante para a vida no momento.



Durante este estado moribundo (falando assim, até parece que passei perto da morte), tive que participar de uma reunião no meu departamento. Aliás, fazem muito estas reuniões na empresa onde trabalho. Só é uma pena elas não servirem para muita coisa senão para juntar trinta pessoas num único lugar e fazer os estagiários correrem por toda a empresa procurando cadeiras. É a gincana do Gugu mais chata do universo, principalmente porque o prêmio acaba sendo a renovação do contrato por mais seis meses de gincana. Desta vez a tal reunião era bem importante, então fiz algo que nunca havia feito na vida: usei uma gravata. Enquanto doente, fiquei imaginando o quanto me arrependeria de faze-lo.



Surpreendentemente, usar gravata foi mais engraçado que o nó que acabei fazendo nela, que provavelmente estava todo errado. Pedi ajuda pro meu velho e ele ajeitou. “Tá parecendo uma bicha arrumada”, ele disse. Levei como um elogio, afinal, quantas vezes alguém já te disse que você chupa pintos com classe? De qualquer forma, não me sentia homossexual por estar usando uma gravata. E o mundo inteiro aparentemente entendeu o recado, pois até a porra da recepcionista respondeu meu “bom dia” e sorriu para mim. Durante a reunião, tudo correu muito bem e até alguns elogios sobre ter um nome com W surgiram. Não que alguém com meu nome precise de elogios por ter tal nome, mas supus que a gravata estava fazendo a diferença. Até a doença parecia pesar menos no corpo. E os fortes medicamentos que estava ingerindo por dois dias não deviam ter nada a ver com a situação.



No dia seguinte, confesso não ter usado novamente a gravata só para não ficar pensando que um pedaço de tecido no pescoço tenha transformado tudo magicamente. E o dia não foi como o anterior. Claro, era óbvio que ele não seria, mas a recepcionista não respondeu meu bom dia. Estar doente me deixa mais apreensivo sobre as coisas, pessoas e situações. Por isso estava tão preocupado com a gravata, meu dia e a recepcionista que deve odiar com todas as forças o trabalho que tem e o babaca que fala que o dia está bom quando pode até não estar. Não que eu esteja a desejando doente, mas perspectivas mudam não somente de pessoa para pessoa, mas de estado de espírito para estado de espírito, de saúde para saúde, de ocasião em ocasião. Educação se torna fator relativo se você desconsidera variáveis tão simples quanto uma gravata ou mesmo uma febre de 38,5ºC. Estive doente, ou talvez só usasse gravata mesmo. E a recepcionista, bem, que ela tenha sempre os melhores dias de sua vida, do fundo do coração.


z-bom-dia25


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