Barulhista e o "Café Branco"

por - 11:07

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Hoje estamos aqui pra falar de/com um cara que já esteve pelo Altnewspaper em vários momentos. Já tivemos clipe dele por aqui, entrevista literária, entre outras aparições mais discretas. Foi de pouco em pouco que o tal mineiro ganhou o mundo musical e passou a participar de alguns dos trabalhos mais relevantes da área do instrumental/eletrônico não só em Minas Gerais, mas em todo o país. Uma pessoa que acabou por se tornar uma banda de um homem só, e ao longo do tempo, vários grupos (fica a dica do Meira, outro projeto dessa prolífera criatura) e deve ter visto sua identidade transferida no todo dos sentimentos expressos em seus trabalhos, condensado na já icônica imagem da cadeira: o criador de sons para se dançar sentado. E agora pedimos a sua atenção mais uma vez, caro leitor, pro lançamento do mais recente EP da sua longa e singela estrada musical (entre as várias outras que ele segue), Café Branco . ,primeiro lançamento do selo mineiro 0.cm ( Link do selo aqui ) . Abaixo fica uma pequena entrevista que eu fiz a respeito do EP, dos próximos trabalhos, dos passados, da nossa realidade barulhenta e de coisas não tão trabalhísticas assim. Ajeitem suas cadeiras, respirem fundo e façam barulhinhos se quiserem: com vocês, GA Barulhista.


Baixe Café Branco


GA, valeu pela entrevista, em primeiro lugar! Agora a pergunta que eu não consigo tirar da cabeça desde que você me falou do EP: quando é que o café fica branco? 


João, neste exato momento sai uma fumacinha branca da xícara e o perfume toma conta da sala. Os pads, teclas, latas e os escritos se embebem como uma esponja da delicadeza e da intimidade. A cada “crtl+s” um gole, a melodia vai se repetindo até que pede outra e mais uma. O ranger da porta ganha espaço, o respirar do cachorro faz coro e mais uma música fica pronta. Há duas maneiras de se alcançar a brancura do café: com as suas mãos envolta de alguém e com as mãos de alguém envolta de ti.


Quando fui ouvir as faixas do EP, e quando vou ouvir música em geral, os títulos costumam me chamar tanta atenção quanto as música em si... "Passàrgada-Manuel Bandeira", "Malevich- vanguarda russa"... Os nomes dessas canções do Café Branco, por exemplo, têm mesmo uma relação com essas figuras? O quão interligados com a composição das músicas estão os títulos desse último trabalho?


Existe sim uma relação profunda com esses nomes/obras, seguem interligados por um cotidiano extra-musical - cor, letra, forma e som. Músicos (para falar da minha classe) se alimentam de tudo, um filme por dia, um livro por semana, uma dança a cada passo, impossível não devolver um pouco disso quando sintetizamos uma ideia em música. A obra é aberta e por isso mesmo convidei a artista mineira Ivana Almeida para fazer a arte do disco (que receberá uma versão física) e pra minha surpresa ela já veio com o título numa bandeja de prata.


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Cê me disse que o Café Branco é também uma reunião de músicas antes inacabadas – mesmo que me tenham parecido um dos melhores trampos de instrumental-eletrônico que eu ouvi esse ano – e eu admito que foi uma surpresa; já estava certo de que só veríamos o Hymnos (voltarei nele depois) esse ano. Ao longo desses dez álbuns que se eu não me engano, compõem a sua discografia, fica muita coisa pra trás? Tem muito lado-B que a gente não ouviu?


Tudo depende de como vemos esse “pra trás”. Eu componho todos os dias, seja um tema num pianinho de brinquedo ou numa gravação da louça na pia. Nem tudo funciona bem a ponto de ser dividido com vocês como ‘música’, ainda assim é um exercício diário a fim não perder a potência dos timbres. São experiências, não segredos. De remixes de boleros até música pra pista de dança, na verdade o que está guardado é o lado-A. Meu termômetro para lançar algo é o meu rebolar na cadeira, se eu rebolar significa que tá na hora de mostrar.


Ia dar uma ideia do que é o Hymnos pra galera que tá lendo, mas acho que ninguém melhor do que você pra fazer isso! O que pode nos contar de novo? Como anda o processo, e podemos esperar ele pra esse ano?


Sim, este ano o Hymnos fica pronto! Será um disco grande, acredito que com pelo menos 22 músicas. A ideia do disco é bem simples, as pessoas enviaram sons (240mb ao todo) via e-mail e eu farei as músicas a partir deles. Tem de tudo, de choro de criança à guitarra de blues e ainda estou catalogando os grupos de timbres para trabalhar melhor cada um. O André Veloso (mestre do áudio e baixista do Constantina) me passou uma biblioteca sobre áudio, mixagem e masterização, sigo estudando para deixar a mix do disco mais próxima de uma gravação feita por 80 mãos (aproximadamente). Fiz dois esboços pensando num método para composição com samplers tão variados, um deles deve entrar no disco, o outro vai pra pasta ‘não-rebolativa’. Aproveito este espaço para agradecer todos que enviaram sons: este é um disco recíproco!


O último concerto seu que eu pude assistir foi no festival do Pequenas Sessões. O que você achou da edição desse ano? Fazer o show com o Constantina sem usar o boné foi traumático? Hahaha


Quando fiquei sabendo o line-up do festival fiz uma espécie de profecia e ela se cumpriu: esta edição foi ‘uma chuva de almas’. Isso que dá juntar beleza e sinceridade numa mesma ideia, no caso a ideia do mestre Daniel Nunes. Você descreveu lindamente o festival nas tuas incríveis ‘discretas impressões’ por aqui. É sempre bom tocar sorrindo e ver sorrisos de volta. De fato, pensei que tocar sem boné seria um problema, pensei que fosse errar e esquecer tudo, parece que a mandinga está mesmo nas meias (até eu tocar descalço).


Uma pequena pausa a-musical: imagino que você esteja ligado na confusão caótica que o Brasil inteiro - e no nosso caso, Minas Gerais – se tornou com essas últimas semanas de protesto. O que cê acha disso tudo? Participou de manifestação ultimamente?


Mobilização-cansaço. É uma pena que as manchetes não são condizentes com o que está acontecendo, as pessoas não estão quebrando o país e sim modificando o modo de falar o que sempre foi, de alguma forma, pensado por todos. Tudo é tão diferente que a única expressão que se mantém em mim é esta: Mobilização-cansaço. O Estado nos enganou durante muito tempo e estava passando da hora do alvo retornar os dardos. Participei da manifestação de quinta-feira (20 de junho) em Belo Horizonte, o trabalho me impede de estar mais próximo fisicamente dos acontecimentos, mas estou em todos virtualmente.


Num geral, o que tem te chamado a atenção no mundo artístico (cinema, música, teatro, etc) nesse ano de 2013? Recomendaria alguma coisa em especial?


Sabe João, minha atenção está nas relações entre os artistas e no modo como as mídias tem se incorporado num volume absurdo. Conheço músicos que escrevem, escritores que pintam, parece ser mesmo a ordem do multi-tarefa.


Sugiro ouvirem: Tiago SousaJam Secreta do Realejo Musical, Gilberto MauroVitor JoaquimProjeto SonhoTratak , Esmeraldo.


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Depois de disco, trilha sonora, livros no forno e todo esse tempo, o que você acha que esse menino diria do GA Barulhista de hoje?


Primeiro ele diria: pensei que eu fosse ficar mais alto. Em seguida: a gente devia fazer uma música juntos. No caso da segunda fala, isso já foi pensado, tenho algumas gravações desse garotinho tocando bateria aos 8 anos e estou aguardando o meu melhor momento para tocar com ele.

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