Calixto vai ao samba

por - 14:04

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Você é meu enxaguante bucal. Eu coloco você na boca, te jogo de um lado para o outro dos dentes, ouço atento o que você tem a dizer chacoalhando e ressoando dentro do meu crânio, e você me diz coisas boas. Minhas bochechas infladas te segurando, não querendo deixar você ir embora.


Faz aquele barulho irresistível e me dá espuma, eu te peço. Você tem um gosto agradável mesmo fazendo arder minha língua. E no final, talvez seja o que me atrai.


Eu amo você, mesmo não podendo engolir, porque me faz mal, me dá dor de barriga. Você é uma cólica, daquelas mais inoportunas, e mesmo assim eu amo.


Dizendo essas coisas eu recebia seus empurrões de unhas vermelhas no peito, ela me expulsando aos gritos. A compreensão do fato corrente escapava de mim, não havia rastros. Por algum motivo que eu não sabia explicar, a mulher que eu amava estava me expulsando de casa. Provavelmente tenha sido algo tolo, o acúmulo de lixo na cozinha, coisas triviais, a convivência, uma mala na mão, umas mudas de roupa, depois eu pego o resto. Coisas que acontecem por aí todos os dias.


Peguei o elevador, passei a mão na cara, não havia suor. Examinei minha roupa, por qualquer razão barata, estava limpa. Pensei em como seria maravilhoso se eu tivesse um pente no bolso e o elevador começasse a despencar do nono andar absolutamente sem freio, direto pra baixo, eu sentindo a ação da gravidade e me espatifando no chão. Morrer penteando o cabelo deve ser algo que não se vê todo dia.


Então olhei o espelho, preferi o chão, meu reflexo me era incômodo, havia um tecido branco envolto em minha cabeça, impossibilitando de eu ver meu próprio rosto, mas os bombeiros saberiam que eu penteava o cabelo. Uma morte acima de qualquer suspeita.


Durante a pequena viagem no elevador fui refazendo meu mundo e o dela, do dia em que nos conhecemos aos instantes pretéritos em que ela gritava comigo me expulsando de casa, e quando cheguei ao piloti eu ainda não tinha resposta pra nada, só me lembrava do sonho que tive um dia antes da briga que terminou por envolver esse tecido no meu rosto.


O sonho era ridículo, Deus me dava língua, e não foi um simples insulto, meus caros, não.


Imaginem vocês que ele apoiou os polegares nas bochechas com as palmas das mãos abertas, começou a mexer os dedos como se fizesse um solo de piano magistral e no final, antes de eu acordar ele produziu aquele fatídico barulho com a língua assemelhado a uma queixa intestinal, e salpicou saliva em todo o meu rosto.


Que figura mais infantil. Foi nesse exato ponto situado entre minha memória e minha consciência do presente, que as atenções que eu teria que dedicar às coisas fúteis que realmente importam se concentraram unicamente nisso, na puerilidade daquele babaca.


Estava chovendo e eu não estava nem um tico interessado em sair pra comprar algo pra ela, talvez um presente resolvesse, mas eu tinha medo de entrar nas lojas com aquele tecido branco enrolado em meu rosto, a cada vitrine que eu passava eu me sentia mais sufocado pelo incômodo de não poder enxergar meu próprio rosto, na verdade até demorei a me dar conta da gravidade disso, porque de fato eu era um homem com uma preocupação e tanto. Eu tinha uma mala e não sabia pra onde leva-la. Vocês já pararam pra pensar nisso, ter uma mala e não ter pra onde levá-la?


Achei por bem acender um daqueles pra distrair a cabeça dessas coisas estranhas.


Como não sou muito acostumado eu fumei e logo estava no céu, recebendo cafuné na cabeça de uma bela negra que pediu pra que eu descesse logo.


Desci a rua até um boteco, o samba vertendo nas mesas agradou meu espírito, e tomando uma cerveja eu ainda estava no céu, só que aqui embaixo.


Meu Deus, todas as pessoas têm cabeças de repolho cozido, todas fumaçando ao enfrentar a chuva. Todos de cabeça quente. Menos eu, porque olhei pra cima e vi que a única fumaça que via saia de meus pulmões cansados. Ela atravessava macia e vagarosa o tecido branco que escondia meu rosto de mim mesmo, meus dentes amarelos de tabaco não ousavam detalhar-se em minha figura.


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Afinal, eu inteiro era cansaço, materializando em minha boca uma flor murcha porque minha procura no bar não havia sido bem sucedida. Eu procurava o gosto do beijo daquela vadia sem coração, tinha gosto de soluço, aqueles insistentes que fazem doer o peito. Assim que achar um lugar pra morar vou bater uma punheta pra ela, ou melhor, eu bato uma punheta pra ela no banheiro do bar, e na minha fantasia de mictório, eu gozo onde ela mais detesta, e o prazer sobe às minhas cordas vocais.


Eu então me acalmei, eu não tinha mais um rosto, mas ainda tinha um pau, e então aquele algo que passeia por dentro da gente decidiu descansar em minha cabeça.


Calixto, a vida é só um susto, você vai ver, logo passa. Seu coração está acelerado e você está ofegante agora, mas em muito pouco tempo, bem pouco tempo mesmo, como um relâmpago que te põe na luz no meio do blecaute e te faz enxergar o cara com o revolver por um milésimo de segundo, seu coração vai parar e a respiração vai sumir, e como todo bicho que pisa sobre a terra, você será silêncio, e tudo que você disse, pensa, todos os dentes que você escovou antes de dormir, todo o Listerine que você chacoalhou na boca não significará absolutamente nada, e você será parte da terra, dos vermes, das fezes dos vermes, do mato que tomará o seu túmulo depois de algum tempo e, principalmente, fará parte do esquecimento, nenhuma mulher se lembrará de você e nem você delas. E o melhor de tudo, Calixto, é que isso não vai doer, porque não te sobrará consciência, só te sobrará a resignação calada. Tudo vai passar. Você e sua morada, teu túmulo, será uma esfinge e a paz reinará no que era pra ser o seu coração.


Repetindo essas imagens na minha cabeça eu saí do boteco, e dancei abraçado com minha mala na rua no meio da chuva, porque não é todo dia que a gente descobre que realmente não significa nada, e que todas as responsabilidades intrínsecas a nós são só teatralidades forjadas pra dar sentido a alguns acontecimentos passageiros, tais como nós mesmos e tudo o que nos cerca. Talvez eu até engravide alguém de propósito e ensine isso ao meu filho pra que ele ensine ao filho dele e assim por diante... Pra que assim as pessoas sejam mais gentis umas com as outras.


Ele se chamaria Antônio, como meu avô, e não teria esse tecido branco envolto no rosto. As pessoas conseguiriam ver seus olhos castanhos alegres, e ele ia agarrar minhas canelas toda vez que eu o fosse visitar, porque minha futura ex-esposa tentaria me manter longe dele o máximo possível porque eu o havia ensinado a dar língua e outras zombarias das mais variadas, porque ele seria meu filho, e como tal debocharia de tudo e de todos com o melhor do sarcasmo herdado de mim, pra tornar a vida menos entediante.


Nos sábados folgados e preguiçosos eu o levaria pra casa e assistiria TV com ele em meu colo, e depois tocaria músicas bobas envolvendo piadas com o nome dele que só ele entenderia sorrindo banguela pra mim. Meu violão seria objeto de observações constantes por parte dele, o hipnotizando por horas a fio. Eu o observaria engatinhar pelo chão com o macacão de alguma banda dos anos 1960 ou uma camisa xadrez do seu tamanho, comendo coisas que só eu o deixaria comer, lambuzando o chão da sala inteira, e eu me importando tanto quanto ele, porque limpar a bagunça que ele faz só afirma mais ainda a presença dele na minha vida. Ele lá no chão coçando os olhos de sono, não prestando atenção em nada com seus gestos preguiçosamente indecifráveis... Eu aqui, no meio da chuva dançando e derrubando minhas mudas de roupas no chão, uma ambulância chegando, polícia, o dono do bar me olhando sem emoção, uma faca reluzente. Não me lembro dele. Não me lembro de pedir petisco.


Abracei-me no meio da rua, e a confusão entre o frio da água da chuva, o sangue morno do meu baço talvez, e minha única camisa social que usaria pra procurar emprego e alugar um apartamento pra mim e Antônio me pareceram confortáveis. Homens com tecidos brancos envoltos no rosto tentavam forçar minha entrada na ambulância, eu não queria, mas ouvi uma voz feminina que de pronto terminou de enfraquecer minhas vontades. Visualizei a silhueta de uma mulher com uma criança no colo, “você vai ficar bom, paixão”.


Repolhos cozidos me olhavam incógnitos.

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