"Um dia para se criar bolas"

por - 15:01

bolas


Segunda feira é o melhor dia para chegar atrasado ao trabalho e culpar alguma coisa randômica somente para justificar o injustificável. Morando em uma cidade com mais carros que pombos na rua, falar que o trânsito não te permite chegar aos lugares acaba não colando como uma desculpa e mais como uma razão para te chamarem de idiota. Sem contar que sou profissional em chegar atrasado e em dar desculpas para fazer tal. Elas são convincentes? Claro que não, mas continuo fazendo por puro esporte. Só se chega a Roland Garros treinando. Quem sabe um dia eu não fique bom o suficiente para culpar os jogadores de futebol e os políticos por termos a educação e saúde pública que temos. Pior que até brincando essas ideias são tortas pra cacete.



Nesta segunda, como de praxe, estava saíndo de casa na hora que devia estar descendo do busão. Desta vez, fiz diferente. Vi que estava atrasado e apertei o passo só pra ver o que aconteceria se criasse uma fagulha de responsabilidade. Até pensei naquele termo, “ressaca moral”, mas não tomei nenhum porre de conservadorismo barato ultimamente. O caminho para o trabalho costuma ser chato. Preparo uma lista mental com todos os afazeres do dia, o que contribui para a constipação e outros fatores que me fazem achar que ficarei careca antes de completar 23 anos. Segundas feiras costumam ser dias em que tiram o meu couro no trabalho. Não sei se porque ninguém trabalha na sexta e deixa tudo pra segunda ou se é só karma, no fim das contas. E justo nesta segunda feira, uma pilha de processos e procedimentos me aguardava maliciosamente. E eu cheguei atrasado alguns minutos. Uns trinta, talvez.



Ao abrir a porta do escritório, a diretora do departamento me aborda. Tudo bem, eu devia ao menos uma explicação sobre o motivo do atraso e já estava pensando em qual das duas de minhas mais convincentes desculpas iria utilizar. Uma delas seria adoecer algum parente inexistente, dizer que o considero este como um irmão, por me ensinar os valores que carrego comigo e fazer a cara de sofrimento mais doída que conseguisse. A outra seria fingir que não estava entendendo o idioma dela e soltar umas palavras de algum dialeto bielorrusso, na ideia de fazer ela se questionar se realmente valeria a pena tentar me questionar sobre o atraso. Mas para a minha surpresa, ela não disse nada sobre o atraso. “Feliz dia do Homem”, disse sorrindo. Pela primeira vez estava sendo parabenizado por ter um pinto. E aquilo não fazia sentido nenhum, nem mesmo se tivéssemos feito o sexo mais sujo e inconsequente que se é permitido fazer.



Aquilo ficou na minha mente. Que diabo de data é essa e como ela surgiu? Aliás, que homem precisa comemorar sua masculinidade a ponto de ser parabenizado num dia específico do ano? Porque todos sabem como é difícil ser homem hoje em dia, são tantas injustiças contra a masculinidade que um dia para comemorar a testosterona seria o mais ideal. Percebi que pensar no dia do homem propriamente dito era patético, então comecei a refletir em minhas atitudes, tal qual chegar atrasado na maioria das vezes. Elas podem até não refletir o homem que sou, mas sem dúvidas mostram o moleque que eu gostaria de eternamente ser. E a sacada daquela mulher ficou na minha mente por uns bons minutos.



Acabei não me aguentando e perguntando a ela do que se tratava a tal data, só pra ter certeza se ela realmente era a Madame Miyagi, como estava achando que era. Ao me explicar que ela havia visto uma propaganda dizendo que 15 de junho era o dia do homem, ela achou que seria adequado parabenizar todo o homem que visse, já que os mesmos o faziam no dia das mulheres. Pura gentileza, nada acima disso. Eu me contentei, sentei em minha cadeira e voltei ao trabalho. A sacada tinha sido muito mais minha que de qualquer outra pessoa, apesar de ter sido desencadeada graças a seu comentário. E reconheci aquilo. Só não pense que a partir daquele dia cheguei cedo todos os dias. Cheguei menos atrasado alguns minutos. Pouca coisa para o mundo, muita coisa para mim. E se isto não for amadurecimento, que se foda esta merda.


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