Entrevista - MC Coscarque

por - 14:08

[caption id="attachment_21526" align="aligncenter" width="640"]MC Coscarque MC Coscarque[/caption]

Um dos expoentes do hip hop feito na Bahia, o MC Coscarque lançou recentemente o single "Scarface". Com produção da dupla Stereodubs e participação de KL Jay nos riscos, a música fala sobre a vida de músico, numa metáfora com a trajetória de Tony Montana. Além do trabalho solo, Coscarque também integra o grupo Versu2 e a produtora Boom Clap Records. Na conversa abaixo, ele fala sobre tudo isso e outras questões como momentos importantes de sua caminhada no rap, música baiana e gás lacrimogêneo.


Como você começou nessa vida de traficante de música?


Eu comecei ouvindo música mesmo quando era guri ainda, meu pai colecionava discos e era muito fã do Luiz Caldas, Phill Collins, Michael Jackson, Olodum, dentre outros que não me lembro, mas esses sons todo domingo tinha sessão lá em casa. Eu aprendi pouca coisa com meu pai, mas uma das coisas que trago comigo é o gosto pela música. Ele aprontava o café da manhã colocando um som pra tocar na vitrola e acordar todo mundo, aí era o dia todo com música. Depois que ele se separou de minha mãe, eu quis ser jogador de futebol. No rap eu comecei ouvindo Câmbio Negro gostava muito do Xis, um amigo meu chamado Chininha tinha umas fitas  e colocava eu e o Dj Jarrão pra ficar ouvindo, depois ele nos apresentou o Racionais MC’S  - Sobrevivendo no Inferno - acho que já era 98, não lembro bem, mas resolvi mesmo tentar fazer música lá pra 2002/2003 quando ouvi o grupo Conseqüência, do Kamau e aí resolvi fazer, mas vida de traficante novato é foda.


Scarface é seu primeiro registro solo? Como foi a produção dessa música?


Cara, esse som quando mostrei pro Sinho Representativo ele tinha me dito que esse era o som pra ser lançado primeiro, mas tenho uma canção chamada “Suor e Sussurros” que gosto muito também e que era pro Luiz Café ter me entregue o instrumental, só que eu tinha um prazo para isso e resolvi focar em outro som. Então, eu já queria fazer um trampo com o StereoDubs, quando escutei o disco da Flora Matos fiquei de cara com a produça, mix e master que os caras colocaram no disco dela, aí entrei em contato com o Léo Grijó e fechamos uma parceria. Com o KL Jay era algo que nunca esperava, nem sonhei na vida, ter um som meu com um Racionais MC's participando era algo que nunca tive nem ousadia em sonhar ou pensar, mas já temos uma ligação muito boa com o KL, aí convidei ele e na hora ele pediu pra enviar o áudio que faria numa boa. Mano, quase surtei de alegria e creio que isso é mais uma conquista do rap na Bahia!


Além de Tony Montana, quais outros personagens do cinema te inspirariam a escrever umas rimas?


Curto mesmo animação, sou pouco apegado a assistir filmes, cinema, docs... essas coisas. Na real nunca tive acesso, vai ver que os desenhos animados estavam bem mais próximo e ao meu alcance. Mas o Tony, o Corleone e o Lukas são personagens que você pode tirar lição pra qualquer área na sua vida, eles são foda e pude ter o acesso a eles depois de grande. Também gosto muito do papel em que o Will Smith interpreta o Chris Garner. Mas se quer saber sou muito fã mesmo do Denzel – “ Eli”, “Frank Lucas” “John Quincy Archibald” o papel dele como o policial corrupto Alonzo Harris é brilhante também. Mas pra escrever prefiro as cenas reais do dia a dia, os momentos de risos e lágrimas, o gozo e a dor, as glórias e lamentos ainda são meus melhores conselheiros antes de escrever.



Vem disco seu por aí? Se sim, o que você pode adiantar sobre esse trabalho?


Sim, estou preparando um EP que vai conter sete faixas. Temos produção de Skeeter, Cairo Baets, Haggar, Laudz e Diego 1.5.7 e alguns convidados que divulgaremos depois. Vai ser um trabalho no qual poderei mostrar um pouco do que penso, como vejo o mundo, como encaro as dificuldades e supero elas. Terá música falando de crenças, amor ao hip hop, positividade, superação e acima de tudo falando de vida.


Destaque três momentos relevantes de sua caminhada no Rap.


Cara, são tantos momentos grandiosos que o hip hop me proporcionou que listar três apenas vai ser difícil. Sou muito grato a Deus pelo espaço que tenho, nunca me faltou palco, convites e sempre estive presente de alguma forma nos maiores e melhores acontecimentos do hip hop na Bahia e se você for fazer uma lista vai perceber que eu tava em 80% deles, mas tenho muitas boas lembranças dos meus primeiros grupos chamado M.U.E e a H.U.N, pois serviram de base pra eu ser o que sou hoje. Outro momento foi poder tocar no mesmo palco com o Mano Brown, Gog, Ellen Oléria, Rappin Hood, Dj Cia, e fui tocar com meu grupo a Versu2. Pisar no mesmo palco com grandes mestres do rap nacional em Brasília foi muito honroso.


Lembro do lançamento do clipe “Segredo da Harmonia” onde até então nenhum grupo havia tido a ousadia de investir num clipe como fizemos e mais uma vez eu estava lá fazendo história aqui na Bahia e nesse mesmo dia tivemos a realização da festa Guetto Star com a presença do Kamau. Os lançamentos do Emicida aqui na cidade foram outros dois bons momentos onde produzimos e participamos dos shows. Tocar com o Criolo na Concha Acústica é outro momento histórico. Mas devo muito mesmo ao Rangell Santana Blequimobiu, ele foi e julgo ser a pessoa que mais acredita em mim no rap, me ensinou tudo que sei no rap e continua me ensinando. A Versu2 me projetou pro cenário nacional, conheci pessoas que admirava, viajei pra lugares que sempre sonhei ir, fiz dos meus ídolos meus amigos ( Marechal, KL Jay, Emicida, Kamau, Don L, Família de Rua, Daganja, Opanijé, Diego 1.5.7 e outros por aí).


A Semana Baiana de HipHop também não poderia ficar de fora dessa lista, pois só quem tava perto soube como foi produzir o maior evento de hip hop em 2012. Acho que tá bom por aqui pois como diz o Brown “Daria um filme” pois devo muito ao hip hop aqui claro e respeito aos que vieram antes de mim e escreveram parte da história só que hoje eu tenho o lápis e papel e não posso errar pois não há borracha, então muito dessas páginas possuem minhas digitais. (risos)


Como a Boom Clap Records surgiu e o que a mantém ativa?


A Boom Clap surgiu da necessidade de dar continuidade aos trabalhos que eu vinha fazendo na Positivoz. Como o Versu2 tinha dado um tempo, eu precisava continuar na luta, produzir eventos, música essas coisas, daí conversei com o DJ Jarrão e foi quando firmamos e convidamos o Sinho Representativo e a Lisia Lira (Produtora) pra fazer parte do bang. Hoje somos um dos coletivos que mantém o hip hop da Bahia no top e nos tornamos uma referência e potência em muito curto espaço de tempo. Trabalhamos com produção de eventos, distribuição de música, fotografia, mídia e muito mais que o hip hop precisar. Hoje o que nos mantém é o amor e o trabalho no hip hop, ao invés de eu pedir o emprestado discurso de derrotado que existe por aí que é “Só colocam grupos da panelinha”, “ Não vi nada demais nessa festa”, “Esse som é uma merda” resolvemos colocar nosso padrão de qualidade no que fazemos, desde a Positivoz e Versu2 era assim e continuo fazendo da mesma maneira e procurando evoluir a cada dia mais. Se não tem festa de qualidade na cidade, então ao invés de reclamar de quem faz eu vou e faço uma na qual eu ache que tem os padrões de qualidade necessárias, se o que tenho ouvido não me contempla ou não me agrada, eu vou fazer um som que eu ache que seja relevante aos ouvidos e é isso que nos mantém: a dedicação, respeito, a construção e a vitória.


O que você destacaria da música baiana atual?


É foda falar em destaque na música baiana já que o que se escuta nos rádios e predomina aí é um cartel anti-música que domina os meios de comunicação. Mas poderia destacar o Daganja, que junto com a banda DubStereo fazem uma música ímpar. O Baiana System talvez seja a maior revelação dos últimos tempos na nossa música, Opanijé é um grupo que sou muito fã e respeito pra caralho. Dão, Orkestra Rumpilezz, O Quadro, Suinga,  Complexo Ragga, escuto muito Manuela Rodrigues, Júlio Caldas, Larissa Luz é outra que curto muito além de ser uma gata a negona. Tem muito mais coisas boas sendo produzida no estado, mas essas são as que eu destacaria e que gosto muito.



Você faz parte do Versu2, grupo que ajudou a colocar a Bahia no mapa do rap nacional. E hoje, qual a situação atual do grupo?


Hoje o Versu2 tá em fase de pré-produção do nosso disco, o Rangell Santana tá cuidando da parte gerencial do disco enquanto eu finalizo o meu, mas posso garantir que muita coisa boa vem por aí.


A última vez que te encontrei foi numa atmosfera envolvida por muito gás lacrimogêneo e barulhos que não eram de beats e sim de disparos da PM baiana. Como você enxerga a relação do hip hop com o atual momento sócio-político vivido no país?


Caralho, foi tenso nosso último encontro e nem em sonho penso em samplear aquela trilha sonora. O hip hop não pode se ausentar de nenhum movimento sócio-político, acho que primeiro devemos estar participando como cidadãos antes de qualquer bandeira artística, mas se falando do hip hop é de extrema importância o envolvimento. O hip hop nasceu dessas questões sociais, dessa inquietação e vontade de transformar a realidade em que vivemos. Chegou o momento de ao invés de fazer como o de costume que é somente reclamar nas letras ou no muro de lamentações que se tornou as redes sociais, devemos é irmos pras ruas, debates e seja lá o que for e levar nossa proposta e contribuição pra melhoras do nosso país. Estamos vivendo um momento ímpar, um momento histórico, mas tenho medo que isso se torne apenas um momento e tudo volte como era antes, pois devemos formar nossas crianças, nossos jovens, esse é o papel do hip hop, e não ficar fazendo canções vazias falando mal de outros MC’s.


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3 comentários

  1. Parabens Coscarque Mas Um Guerreiro Na Batalha …. Fazendo Historia….

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  2. Obrigado ao Altnewspaper pelo espaço cedido, ao Fernando Gomes pelas fotos, entrevista e por tá perto sempre.

    Muito grato mesmo, Tamo junto Cardoso, só tento fazer na rima o que vc faz com o skate meu mano e sei que falta muito ainda pra chegar lá mas tamo na construção.

    Um Só...

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  3. Porra sí visto agora! Muita honra...

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