Mente Vazia Num Ônibus Lotado: me chamem de animal

por - 11:06

Falling Down 2


Essa deve ser uma coluna para rirmos de situações diárias dentro de coletivos espalhados por várias cidades desse Brasil, mas infelizmente, agora a coisa será um pouco mais séria. Como quem anda de ônibus diariamente, chegando, a um dia normal, a tomar seis veículos diferentes, me sinto um animal. Não apenas pelo metrô, por exemplo, parecer demais com um navio negreiro ou pelas condições de superlotação nos carros da cidade de São Paulo, mas pelo o que somos submetidos.


Vejam, São Paulo está na contramão do bom senso. A cada vez que uma estação de metrô é inaugurada, inúmeras linhas são cortadas, tudo, segundo "estudos realizados para não impactar o trânsito". Isso aconteceu também com terminais. Quando rolou o Terminal Campo Limpo, várias linhas foram extintas e a Prefeitura agora obriga os moradores a se locomoverem até o Terminal e de lá pegaram a porra duma van para chegar em casa, quando antigamente, era só pegar um ônibus e ir direto. Isso faz alguma lógica? Do ponto de vista de quem usa transporte público, não, mas de quem anda de carro, "menos busão no centro, uhuuul".


Isso faz com que eu me torne um animal. A música de mesmo nome do Mukeka di Rato parece cantar exatamente como eu me sinto quando sou obrigado a descer a cada quatro pontos para pegar um novo ônibus, tudo porque foram realizados estudos para não impactar a porra do trânsito para os carros. Eu já cheguei a pegar três ônibus para ir pro bairro vizinho, que está há cerca de sete quilômetros da minha casa, todos cheios. "Ônibus lotado, buraco no meu sapato Meu bolso tá furado, essa é a minha sina Fazer papel de otário, salário atrasado Meu lanche tá estragado, puta que paril! Eu só tô me fudendo em toda a minha vida Enquanto eu vejo os outros rindo de minha cara Um dia eu me revolto e isso vai mudar Arrumo uma arma e o bicho vai pegar".



Com o trecho acima pode parecer que estou pagando de "O Gigante Acordou" e que isso não tem foco, mas tem sim. Pense comigo que, quando você está dentro do terceiro ônibus lotado, tudo está errado. Seu salário, seu bolso, seu tênis, sua mochila fedendo a feijão azedo e você fica pensando o que faria se alguém te desse permissão para jogar uma bomba em cada carro que entra no corredor de ônibus e se sente malandrão - mesmo protestando contra a corrupção depois  e falando sobre ser honesto. O seu estômago vai embolando e a cada imagem que vê na televisão sobre os atos de "vandalismo", dá um sorriso. Sente ali, naquela vidraça quebrada, naquele ônibus pegando fogo, na preocupação extrema do Secretário de Transportes e do prefeito em conter isso, o seu ódio e a raiva canalizada por cada veículo cheio, por cada vez que você ficou mais de quarenta minutos em horário de pico para poder pegar um ônibus e sabendo que onde você mora, a linha que passa mais rápido tem intervalos de vinte minutos e está sempre cheia, mesmo num domingo a noite.


O sistema de transporte público da cidade de São Paulo está falido. Eu acho engraçado ninguém ter sacado que quando falaram que temos 15.000 ônibus, esse número é ridículo, tendo em vista a população de São Paulo. Onde eu moro existem quatro linhas, das quais três têm intervalos de mais de meia hora em horário de pico e no final de semana, a que mais passa, é de quarenta em quarenta minutos e tem gente que ainda acha que está tudo uma maravilha e lá vem o Haddad com seu papo de que ia melhorar a periferia e a cada vez que ouço isso, meu estômago arde e eu me sinto, novamente, um animal. Talvez um dia eu arrume uma arma e aí, o bicho vai pegar.


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Todo dia que eu entro nesta porra de coletivo, fico imaginando quantas pessoas, assim como eu, vão guardando todo esse ódio dentro de si. Há gente que morre com ele, cria um monte de doença e vai pro saco, às vezes até dentro do Hospital, no qual chegou de ônibus, depois de esperar um bom tempo. Mas do mesmo modo que há quem guarde, existem pessoas que dão vazão a isso de um modo nada legal. Quebrando, dando tiro, ficando louco, matando gente. Pode soar exagerado, mas nem é, viu? Uma vez eu vi o Gilberto Dimenstein falando uma parada, e por mais que eu ache ele bem blé, era verdade. O paulistano é vandalizado todo dia. O cheiro de bosta do Rio Tietê e Pinheiros - tem vez que meu ônibus fica parado lá em cima daquela porra de ponte por meia hora e eu sentindo aquela merda, coliformes fecais diretos na narina -, o buso cheio, o metrô, a gestão toda errada dessa merda.


Por fim, o ônibus é uma fábrica de doentes, de pessoas com problemas nas costas, gastrite, estresse e todas essas patologias bizarras que surgem quando você está puto com o mundo, louco para sacar a merda de uma arma no meio da rua e fazer que nem no Falling Down (Um Dia de Fúria, em português). Esperamos que as coisas mudem, mas por mais que eu estivesse um pouco animado com a nova gestão, tudo parece ir para a mesma bosta de lugar, ao menos no quesito transporte público: menos linhas, mais lotação, mais mentiras (tipo aqueles ônibus especiais que funcionam em horário de pico, não se iludam, tiram um carro da linha principal e colocam ele. Exemplo: o Terminal Campo Limpo - Clínicas, é um Praça Ramos - Terminal Campo limpo a menos na linha). Gostaria de ter fé, mas a perdi por completo ao longo dos meus sete anos usando o transporte público diariamente. Queria também ter culhão para botar fogo em tudo, mas sou só um bosta, que morrerá por alguma doença causada por essa cidade e provavelmente irei de ônibus até o hospital.

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2 comentários

  1. Em fortaleza é a mesma bosta. Pra ir pra casa do meu namorado eu levo 1 hora. E olha que eu desço num ponto que ele me pega de carro, se eu fosse pelo terminal, seria umas 2 horas fácil!
    E pra ir e voltar do trabalho são 3 indo e 3 voltando. Não tem sentimento pior do que você passar o dia trabalhando, e depois passar por uma situação vexatória dessa. A VIDA É BELA!

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  2. me sinti representado nesse texto. sinto o mesmo. a mesma raiva represada e a mesma vontade de por fogo em tudo. Esses dias fui preso no metro em São paulo. Me descontrolei com a lotação e meti um soco no vidro. Destrui ele inteiro e fudi minha mão. Fui preso e enquadrado no art. 163 de dano a patrimonio publico e tive que pagar 600 reais de fiança. Filhos da puta.

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