O "Molho" do pernambucano Graxa (Parte I)

por - 11:07

Graxa

Angelo Souza, também conhecido por Nego Graxa ou apenas Graxa, é figura atuante na cena lo-fi e independente do Recife, tocando na banda Canivetes, D Mingus e outras cabeças da atual “Cena Beto”, por sinal, alcunha criada por ele em uma mesa de bar. Graxa acaba de lançar seu primeiro disco solo, Molho e apresenta 15 canções divididas em dois lados, o álbum foi gravado no estúdio da Pé de Cachimbo Records e você pode baixar ele aqui. Questionei o camarada sobre a divisão entre lados e ele deu dois motivos para tal fato. O primeiro é que normalmente não se escuta um disco completo se for muito longo, sendo assim, dividindo em duas partes ficaria mais fácil a apreciação. O segundo motivo é a vontade de lançar esse trabalho em vinil algum dia, quem sabe ele consegue.


Molho foi lançado no final do mês passado e desde então tem feito parte da minha playlist, principalmente nas viagens de ônibus. Pela sonoridade abrangente e letras peculiares, resolvi fazer uma mistura de faixa a faixa do disco e entrevista com Angelo, que prontamente nos atendeu. Eis aqui a primeira parte da brincadeira, com o lado A do álbum, onde podemos ver que o disco fala sobre bar, sobre amor, sobre os problemas sociais, entre outros.


01. "Acho que Nesse Domingo Eu Vou Ficar Triste"


Acho o titulo auto explicativo. Então a pergunta que fica é: só é permitido beber, fumar e boemia nos fins de semana? E o teclado é pra trazer aquela "vibe" brega?


Graxa: Vou primeiro começar pelo teclado “vibe” brega. Quando eu vi a tag no Hominis Canidae “brega-rock” eu imediatamente pensei: - Puta merda! Como é que eu fui esquecer isso? Quando eu era guri minha educação musical foi dividida da seguinte forma. Dona Leda ouvia muito Bezerra da Silva, Noite Ilustrada, Carmen Silva, Núbia Lafayette. Do lado de seu Aureo rolava, The Platters, Elvis – com destaque na fase setentista dele, Nat King Cole. São músicas de culturas diferentes, mas com ligações muito fortes, saca? São os sons das quebradas desses lugares, as músicas populares desses lugares.


Quando me perguntaram recentemente sobre minhas influências, eu puxei a sardinha para os “malditos” da música brasileira, tipo Jards, Melodia, Tom Zé, Sérgio Sampaio, Arnaud, Lula, esses figuras e esqueci realmente das minhas, que eu posso considerar, verdadeiras influências. Os malditos são fabulosos. São o suprassumo da música daqui. Mas eles entraram na minha vida depois que minha cabeça começava a engatinhar. Foram eles, junto com a literatura, principalmente a russa e os livros de Kafka, que começaram a guiar os primeiros passos da minha cabeça. Foi um boom explosivo quando eu li A Metamorfose e Crime e Castigo numa fase massa da minha vida. Uma coisa que eu recomendaria e recomendo a todos os guris.


O teclado de “Acho que Nesse Domingo Eu Vou Ficar Triste” puxou mais para o lado da música americana. Aquele timbre lindo de órgão. Aquele som de órgãos de igreja, da música gospel negra. Mas esse tipo de som virou produto de exportação aqui no Brasil, na pré e na jovem guarda. Lafayette mesmo, o organista de Roberto, detonava nesses timbres. Eu lembro que perguntei a Domingos se teria um timbre de órgão parecido ao de “O Meu Refrigerador Não Funciona”, dos Mutantes. E essa era a ideia, da minha parte, do timbre do teclado.


A letra da música é algo autobiográfico, mas que, ao mesmo tempo, se encaixa na vida de outras pessoas, principalmente no âmbito de ser verdadeiro, para muita gente, você acabar num domingo com cinco reais apenas no bolso, num fim de tarde, às cinco e meia e algum amigo lhe telefonando, perguntando qual é que vai ser do resto do dia. Na verdade, não é que seja permitidas, a boemia e afins, é que muitas vezes faz parte da condição mesmo do personagem de só poder beber ou fumar e ir a boemia nos fins de semana, porque durante a semana num rola. No máximo, quatro latinhas numa quarta feira, ou uma garrafa de vinho numa quinta, dependendo do tempo.


02. "Nada é Mais Importante Naquilo que lhe Condiz"

Envelhecer é foda né? O cara começa a ter noias e usar uns lances pra sair dessa.


Graxa: Essa é uma das mais difíceis para mim de comentar sobre. "Nada é Mais Importante Naquilo que lhe Condiz" mistura reggae com banda marcial, me vindo à imagem de revolução francesa. Dos soldados com aqueles chapeis compridos, usando aqueles tipos de suspensórios em “X” batendo o tambor enquanto a turma toda marcha e toca os metais e flauta. Os Kazoos substituíram os metais, o que daria mais clareza a essa ideia. Como não tive como pôr os metais, paciência.


É um reggae “negative vibration”. Fala de consumismo, escapismo. De insatisfação e redução. Da verdade de que conversar merda não enche barriga de ninguém.


03. "Tudo em Volta de Mim Vira um Vão"



Existe um Graxa romântico, mesmo em toda essa deprê? E esse violão no esquema lo-fi?!


Graxa: Bicho, eu sou o cara mais romântico do Jiquiá. Muito da deprê vêm do romantismo. Como disse aquele jornalista lá, o Mecken: o romântico vê a pulga maior que o cachorro. O romantismo e a depressão são coisas bem ligadas. O violão é desse jeito mesmo. A gente tentou colocar violino, flauta, sei-lá-mais-o-que? E num rolou. Num ficou legal, saca? Ficou melhor voz e violão mesmo.


04. "Boogie and Blues"



Essa é a balada dançante né?

Graxa: É. Ela é bem dançante. Embalos de sábado a noite, Grease, ou cassino do Chacrinha. Agora vou te dizer. Fiquei em dúvida sobre a definição de balada nessa pergunta.

05. "Eu Sinto Teu Medo"


Filho é bronca, né Graxa? A calmaria é pra tentar tirar o peso do assunto?


Graxa: Filho é bronca e também é a coisa mais maravilhosa que existe. Num sei se tu tem...


Enfim, bronca não são os filhos da gente, são os filhos dos outros. Não há comparação de coisa alguma no mundo à existência de um(a) filho(a). Voltando a "Tudo em Volta de Mim Vira um Vão". Aquela música foi feita inspirada na possibilidade de perder alguém que serve de norte em sua vida. A minha filha foi inspiração pra ela, como minha esposa e todas as pessoas a quem eu amo muito com uma intensidade muito grande. "Eu Sinto Teu Medo" fala de você ganhar esse norte em sua vida - exceto pela amizade, o lance de gerar mesmo, de fruto - e o medo que isso dá. Quem não é chocadeira entende o que eu digo.


Para a mulher o peso é muito maior. No fim do verso da música eu posso até dizer que "sinto" o medo, num lance instintivo, do que ela esteja passando, mas entender mesmo, tudo aquilo que está sendo gerado dentro dela, não tem como. Isso não tem como ser entendido, só vivido. E só a mulher que tem esse dom.


P.S: Quando minha filha era menorzinha e eu chegava do trabalho na hora do almoço ela vinha correndo pra cima de mim e dizia meu nome, ou me chamava de papai. Bicho, eu me sentia muito melhor que os Beatles.


06. "Doutor, Por Favor"


Essa é real, você teve algum problema? O "lúdico" na música é tipo como rir depois que passou e esta tudo bem?


É aquela velha história do cara ir para o hospital público e voltar pior. Eu não lembro se eu fiz a letra depois de ter ido a uma UPA ou se ela já tinha sido feita antes e depois soou como profético... Profético e óbvio, né? Quem é que num pega em bomba num hospital público? Pra encurtar a história. Eu tava indo pra casa - na hora do rango - numa bicicleta daquelas barra circular, da Monark. Uma bicicleta velha e triste. Só sei que dei um jeito no pé quando eu tava pedalando e ele ficou do tamanho de um mamão. Fui na UPA na hora do almoço e sai de lá sem ser atendido depois das oito da noite. Meu pé murchou só. Doía pra dedéu, chapa.


Aí foi isso. O lúdico é como você disse mesmo. Sendo que meu pé passou, mas (os hospitais) num tá nada bem ainda.


07. "Molho"

Dá um exemplo aí de uma figura conhecida que é sem molho, essa música foi pra alguém especificamente?!


Graxa: Alguém que é sem molho? Bicho, especificamente eu não sei dizer. Mas tem carapuça pra todo tipo de pessoa, né? Gente metida a merda é sem molho, mesmo que encha a tampa no fim de semana. Num gosto de gente assim, gente metida a merda. Também num gosto de gente tipo "tapinha nas costas", entende? Gente tapinha nas costas são aquelas que na tua frente são de um jeito e por trás são a maior crocodilagem. O famoso "alma de gato". Pra terminar, o que num falta é gente sem molho por aí.

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