O “Molho” do pernambucano Graxa (Parte II)

por - 11:07

Graxa oi passado-9458

Eis Angelo Souza, ou Graxa, figura atuante do cenário independente do Recife, principalmente para o pessoal que curte o Lo-Fi.Integrou bandas como a Insites e atualmente faz parte da Kazoo orquestra, banda que acompanha D Mingus. Em junho ele lançou seu primeiro trabalho solo chamado de Molho, com quinze faixas e dividido virtualmente em lado A e lado B.


Na semana passada lançamos a primeira parte do faixa a faixa com ele, contemplando as faixas do Lado A do disco. Caso você não tenha lido, basta clicar AQUI. Agora iremos falar do Lado B de Molho, que continua a partir da faixa oito. Nesta segunda parte, ele comenta mais sobre os instrumentais do disco e de suas letras, falando mais uma vez sobre bar, insegurança, sobre envelhecer e lidar com o passado. Além de trocar uma ideia a respeito das participações especiais do disco e suas influências, entre outras coisas. Segue o papo...


08. "Meu Deus, Eu Virei um Garçom"



E essa doideira ai? Tu passa muito tempo no bar? Parece um sonho isso. E que instrumental viu meu velho? Uma beleza, fale um pouco sobre ele também, além da letra.


Graxa: Ultimamente eu passo mais na minha casa, ou na casa de amigos. Na música do garçom o cara não é um garçom. É um figura que vive no bar e que nada impediria que alguém lhe dissesse, "você fica mais no bar do que o garçom". É o lance de se procurar um lugar onde se possa passar despercebido, onde se possa ficar tranquilo, mas isso nunca acontece.


Indiretamente significa aquele tipo de coisa. Num meio onde as pessoas procuram ser idolatradas, por algum tipo de "talento", sempre tem algum que quer apenas "fumar um cigarrinho na dispensa". Que quer ficar na sua. Aquela pessoa que quer distância de idolatria. Dá pra entender o que eu quero dizer? Eu que quero explicar tenho a ideia na cabeça, mas nem sempre é o que outro, que está ouvindo, lendo, consegue entender. Mas não é nada demais. É só uma pessoa que quer ficar à parte.


O instrumental eu devo muito ao piano que Matheus Mota colocou. Ele já trampou em São Paulo como garçom. De alguma forma essa música chegou aos ouvidos dele. Creio que tenha sido na casa de Domingos (D' Mingus). A gente tocando assim, saca? Cada um suas músicas. Ele ouviu a do garçom e disse que queria gravar o piano nela. Demorou muito, mas eu percebi que é a forma dele trabalhar mesmo. Sem pressa. Eu sou afobado. Aquele bicho é tranquilaço nesse sentido. Tem uma guitarrinha de slide que é bonita. Tipo, Santo e Johnny, saca? Guitarra havaiana. Mas o grande potencial da música está no piano. É uma música que tem gospel nela. Seria massa numa igreja americana com umas negonas cantando em coro. Batendo palmas. Seria muito comovente.


 09. "Que Resignação"


Essa é mais uma deprê romântica né? Um pedido de desculpas? E o esquema de dueto deixa a música mais viva pra você? Fala um pouco sobre isso.


Graxa: É. É uma música que fala de insegurança, desconfiança. Na música não tem nem espaço pra desculpas. Acabou tudo. E acabou tudo pelos motivos que eu disse antes. Quem cantou comigo foi Aninha Martins - como na do doutor também. Seria pra trabalhar em cima do homem e da mulher numa situação como essas. Sendo que, aos mais atentos, dá pra perceber que Aninha cantou com um sorriso no rosto. Eu achei interessante. Ficou como se fosse a mulher relembrando do homem falando tudo aquilo, ou até ela mesmo contando pra outra amiga, com um sorriso no rosto, de felicidade, por tê-lo deixado na merda. Não todas, mas muitas mulheres gostam disso.


10. "Os Sintomas da Velhice de Agora"


Essa é sobre conformismo? Sobre a geração de pessoas que apenas esperam a morte. Essa guitarra suja lembra projetos antigos seu, essa música é recente? Legal o efeito na voz.


Graxa: "Os Sintomas..." é uma música de gente que tem sintomas de velho, mesmo sem ser velho. Ou acha que tem esses sintomas. Na verdade não que seja sobre pessoas que apenas esperam a morte, mas sim, aquelas que em algum momento percebem que a única coisa certa mesmo é isso, que vão morrer. Que vai parar de funcionar. O resto é conversa mole.


Outra coisa que eu procuro ao menos citar nessa música é a questão dos tiozinhos. Peço as forças do espaço que eu nunca vire um tiozinho. Aqueles coroas deprimentes que embaçam e embaraçam as mulheres com aqueles tipos de ser deprimentes. O mundo é cheio de tiozinhos. E tem muita gente jovem - em comparação a gente velha de verdade - que é bem tiozinho. Por isso que tem essa mistura de tempo na música sem defini-lo. Cabe a interpretação.


São sintomas que acontecem em qualquer fase da vida, mas que acontecem mais com os mais velhos, em teoria, sabe. Seu José mesmo, o avô de Juvenil, é um senhor que deve estar na média dos oitenta anos, salvo o engano. Teve um dia em que eu fui na casa de Juvenil e o coroa tava quebrando uma calçada com um escopo. As pedras quebravam bonitas e ficavam pequenas como conchinhas do mar. Eu fiquei vendo aquilo e pensando que Juvenil deveria ser um bom neto com ele, pra que tudo ficasse bem. Tenho pra mim que ele, Seu José, quando jovem, foi estivador, ou algo do tipo. Só sei que eu era mais jovem do que eu sou agora e tive a total convicção de que, se me botassem numa arena de luta com aquele coroa, se eu saísse do coma depois disso seria a maior prova da existência do bom e sagrado Deus.


Essa música não é velha. Nenhuma das músicas de Molho é velha. Eu não sou muito chegado em regravar nada não, saca? Estou pensando em fazer isso agora, recentemente. Pegar duas músicas do copo de leite e mais duas, que eu não gravei no tempo dos Insites, e colocar pra gravar.


Essa música foi inspirada no disco Corky's Debt to His Father, de Mayo Thompson. É um dos discos mais fabulosos que eu já ouvi. O controle musical desse disco é fora de série. Sou pirado. Boto ele no patamar do Madcap, de Barret. E já cheguei, em dias inspirados, em dizer que esse disco de Mayo é bem melhor. Mas não levem isso a sério. São dois grandes discos de dois grandes músicos. Não há o que se comparar


Sobre a guitarra e a voz. Eu gosto muito do fuzz. Sonics, Stooges, MC5. A guitarra dessa turma é a guitarra. São uns timbres que são capazes de cortar uma árvore se você colocar um caixa do lado dela. São essas guitarras que eu acho um barato, bicho. A base dela é descaradamente influenciada em Kinks. Gosto muito das composições de Ray Davies. Os Kinks, em dias inspirados, ou não, são de minha predileção total dos anos sessenta. E as crônicas que Ray Davies faz sobre a classe média inglesa são geniais. Então eu fiz isso. Uma base inspirada em Kinks, um refrão em Mayo Thompson, o bom e velho fuzz de guerra e uma letra falando dessas coisas que eu disse acima. Sendo que quem fez fui eu e saiu do meu jeito.


A voz não tem efeito. Eu só dobrei uma grave e outra média ou aguda. Acho que é média. Eu não sei se isso é um efeito. Acho que não.


11. "Tendo no Espelho Saudades do Meu Cabelo"


Me lembra Raul Seixas em alguma coisa, não sei se é a voz ou o instrumental. Tem umas palminhas de fundo? É difícil lidar com o passado?


Graxa: Acho mais ela na vibe Erasmo Carlos. Ela tem palminhas, mas antes tinham mais palminhas. O barato foi a percussão de Leonardo Vila Nova. A música tava pronta, mas faltava algo, saca? Acho que foi no Desbunde desse ano que Léo chegou muito animado, cantando molho. Aí eu disse pra ele: "tenho uma música pra tu colocar uma percussão, bicho. Vamos marcar". Aí a gente marcou. Rolaram imprevistos - nesse disco rolaram vários imprevistos. Do tipo de o disco quase se perder por completo. Mas aí rolou. Ele gravou a percussão em um take só em cada sessão de cada instrumento. O cara realmente manja do instrumento que toca.


Começa no violão numa vibe Jorge Ben, depois entra a percussão e tudo o mais num grande agito. É uma música groove. Gosto dela. Tem a guitarra de Jean Nicholas conversando com a de D' Mingus e fica tudo rodando e rolando e é um barato esse som. O legal é que pessoas diferentes sempre vinham em dizer que músicas diferentes eram suas prediletas, mas as saudades do meu cabelo foi a que teve mais pessoas em comum. Deve ser porque muita gente tá perdendo o cabelo que nem eu, e por isso a identificação. Ou até mesmo não estão, e devem dizer, "puts, graças a Deus que eu não vou ficar careca".


Sobre o lance do passado. Eu não acho que seja difícil lidar com ele. Não, não é. O passado é uma hora atrás, no mínimo. Tem coisas piores que o passado. Acho o passado uma coisa muito justa e honesta. Cuido bem dele hoje em dia e desde sempre.


12. "O grande Encontro Criptosodomita"



Outro tecladinho peculiar e vocalização também. Essa música passa uma calmaria danada. Quem é a nata pernambucana ai?


Graxa: A nata pernambucana nesse conto musicado são os personagens citados na letra. Cientistas, artistas, universitários, atores, modelos, empresários. Todo o suprassumo pernambucano reunido num fim de semana inesquecível. É uma valsa, talvez por isso a calmaria. Foi uma das primeiras que eu compus do disco. Muitas pessoas também se identificaram com ela.


13. "Você É um Estouro"



Essa declaração musicada em tom de bolero tem dona? É mais uma que remete aquela vibe brega do começo do disco.


Graxa: Não. Ninguém em especifico. É só aquele lance de você ver fotos de pessoas na internet e elas são bem melhores do que quando são encontradas pessoalmente. Tem vários exemplos. Você mesmo deve conhecer algum.


E essa não é brega, e tal. Ela é um blues em lá maior. Tem uma coisa que se tem que ver. Nem tudo que tem um "quê" de tristeza seja referente ao brega clássico. Sambas antigos, como os de Cartola, Nelson Cavaquinho e Nelson Sargento são músicas, muitas delas, que trazem a tristeza na letra. Essa música não se encaixaria no brega. Mesmo a do "domingo" tendo essa sonoridade do teclado associado ao brega, ela tem muito de samba clássico na letra, como a do Doutor também. A do Estouro é um Blues em lá maior.


14. "Noia?"



Noia? No ia? Noi a? N oia? Esse jam noise de guitarras rock n roll é instrumental desde o início ou faltou letra?


Graxa: Nunca pensei em colocar letra nela. Pensei em colar trechos de falas de filmes. Também pensei em colocar gritos de quem estivesse no Pé de Cachimbo Records. Mas não passou disso. Preferi deixá-la como instrumental. Ela começou a nascer no espaço de tempo que Domingos tinha que se ausentar do PdC (Pé de Cachimbo). Aí eu abri uma faixa nova e comecei a gravar, entende? Por fim ele colocou a bateria. O que eu fiz questão mesmo foi que Rama colocasse um didgeridoo e ele fez de uma forma muito interessante, parecendo como se fosse um tipo de fala de um inseto gigante. E outra coisa que eu fiz muita questão também foi que Thiago Marditu participasse com seu estilo único de noise que é bem conhecido por quem saca o famigerado Marditu Soundz, que eu gosto muito. Ele me perguntou quais eram as notas... Sei lá. Eu disse a ele que ficasse tranquilo em relação a isso. Ficou ótimo. Ninguém faria uma guitarra daquela.


Eu queria que toda a Kazoo Orquestra participasse do disco e isso aconteceu. Um barato!


15. "Um Bando de Crocodilos"



Esse rock garageiro totalmente alto astral ia ficar fora do disco? A letra é bem música de partida, vamos nessa embora do bar (ou desse bar). Um bando de crocodilos, tipo aquela galera sem molho né?


Graxa: É. Quem é sem molho é crocodilagem. Ela ia ficar de fora porque eu a fiz pra uma coletânea local que vai sair logo em breve, com uma porrada de gente legal daqui de Recife que tá fazendo um som massa. Como eu te disse, eu num gosto de tá regravando e esse tipo de coisa. Como eu tava pra lançar o disco, eu queria jogar na coletânea outra que não fosse uma música do disco. Na verdade, acabo de me lembrar, que essa música era pra ter saído no Recife Split, que era um projeto que Zeca Viana tava organizando. Ele queria lançar o split comigo e com um cantor chamado Gonza. Não rolou. Aí ficou de rolar na coletânea do Desbunde. Também num rolou. Sendo assim, eu decidi colocar ela no disco e pronto.


A locação da música na verdade é numa casa descolada, não num bar. Eu não me sinto à vontade em ambientes assim. Não é que eu não goste, a gente tem que saber entrar e sair em tudo que é pico, sendo que eu me sinto muito mais a vontade em um pico em que eu provavelmente me sente em dois tijoloa fazendo um "T", em algum quintal, com um caldeirão de feijoada no fogo de lenha, violões, ou um som decente, algumas cervejas e nada mais do que isso. Mas se quiserem me convidar, fiquem a vontade.


Paulo André (produtor do Abril Pro Rock) veio me dizer o quanto que ele tinha achado "Molho" legal, depois de ouvir na coletânea do desbunde. Eu disse a ele que ele tinha que ouvir a do crocodilos, mas eu disse isso porque eu estava bêbado. Se eu não estivesse bêbado eu diria outra coisa. O que seria eu não sei dizer.


molhosemfonte

Você também pode gostar

0 comentários