O Turista e as Cidades-Fantasma

por - 11:06

coisas de turista
Dizem que as ideias boas surgem nos lugares mais inesperados. Esse texto me veio à cabeça numa fila de trem. Por mais que o local seja inesperado, talvez a ideia não seja tão boa; trata-se mais de um desabafo rabugento a respeito de um ser em especial: O Turista. Primeiramente, gostaria que ninguém se sentisse ofendido assim, de antemão: eu me considero um turista. Gostaria de deixar claro que o que vem a seguir trata-se da minha humilde e possivelmente desnecessária opinião, então a consumam por conta e risco. Mas sem mais conversa, vamos lá.


Tiradentes é uma pequena cidade no interior do estado de Minas Gerais, a terra do pão de queijo, do uai, e – pasmem – de Tiradentes. É claro que Minas é infinitamente maior e mais diversa do que mostram esses símbolos, mas é exatamente isso que símbolos quase sempre representam: uma espécie de resumo, quase sempre incompleto e de mais fácil digestão das características marcantes de alguma coisa, ideia ou lugar.  No nosso mundo, a simbolização das coisas ganha uma importância enorme, tendo em vista a nossa fome febril por economizar tempo e acumular tudo mais que exista. Acontece que a transformação de um conceito geral num resumo – ação que pode vir a ser incrivelmente útil – acaba por se transmutar, nesse mundo, em algo mais tosco e grotesco, que eu pretendo conseguir explicar ao longo do texto.


De qualquer forma, O Turista (me referirei a essa criatura especificamente com as letras maiúsculas, para não o confundir com o turista comum) não deixa de ser, por si só, um desses símbolos grotescos; uma espécie de estereotipo. Eu já havia cruzado o seu caminho várias vezes ao longo da minha vida, mas esse último final de semana em Tiradentes me permitiu traçar um mapa mais completo do seu habitat, dos seus meios de sobrevivência e outras ferramentas, bem no estilo documentário do National Geografic mesmo.


Ele se apresenta de diversas formas, mas um elemento em especial facilita a identificação: a câmera fotográfica. Devo lembrar mais uma vez, de que nem todo ser com uma câmera é um turista. Mas O Turista faz uma utilização exemplar dessa ferramenta. A fotografia para ele substitui a experiência do local. Por mais que a câmera tenha sido uma das invenções mais importantes da humanidade e tenha aberto um espaço gigante para a arte e a divulgação de informações, ela também impulsionou o fenômeno do empossamento de momentos.  Quando O Turista passeia pelas ruas irregulares e antigas de Tiradentes,  ele não vê casas antigas, obras da arquitetura de outra época nem os restos de vidas de outras pessoas que vieram muito antes dele; ele enxerga possibilidades para fotografias. Ele fotografa, então, cada um dos centímetros desse lugar, guarda sua câmera na bolsa, e avança para o próximo ponto turístico, tendo em mente quanto espaço o HD do seu laptop conseguirá guardar, e que outro lugar renderá uma boa dose de fotografias. O Turista pensa em acumular experiências e momentos da mesma forma que guarda suas moedas e cartões de crédito oriundos de diversos bancos diferentes. Só que não é bem assim.


Outra forma muito fácil de encontrar Os Turistas é procura-los em filas. Os Turistas geralmente são pessoas oriundas de cidades grandes, com trabalhos exaustivos e estressantes. De tal forma, depois de meses a fio se torturando e aprovando memorandos, lutando contra o imposto de renda e as contas de luz, nada mais esperado do que encontrá-los no período de férias, tentando descansar a cuca fundida. O inesperado (e o mais perigoso) n’O Turista é que ele tem a tendência aparentemente inconsciente de reproduzir o seu ambiente infernal de estresse a qualquer lugar que ele pise, como um tipo de Midas turista. Dessa forma, O Turista provavelmente será encontrado em suas férias em uma das seguintes situações: (a) reclamando de uma fila; (b) reclamando do fato de todas as outras pessoas estarem na mesma fila que ele; (c) reclamando do fato dele próprio estar numa fila; (d) reclamando do fato daquela fila não atender os pré-requisitos de uma fila padrão, ou ainda; (e) organizando uma fila.


O que já devem haver percebido é que O Turista costuma ser uma criatura incrivelmente egocêntrica. De tal maneira, ele espera veementemente – e de seu ponto de vista, nada mais natural que isso, tendo em vista toda a sua vida gasta em trabalho duro, privação, culpa, alienação e possivelmente, falcatruas – que tudo ao seu redor (ao menos no período de suas férias)  se curve e molde exatamente à forma que ele deseja, como se o planeta terra nada mais fosse do que um enorme mordomo cósmico chamado Jarbas. Qualquer medíocre entendedor de física infelizmente pode explicar a Os Turistas – com uma distância segura deles – que o mundo não se transformará num enorme mordomo, ao menos não com o nosso atual nível tecnológico. De tal forma, as férias não deixarão de ser uma experiência humana, publica, com eventual interação entre seres humanos e portanto, divergências.  Os Turistas eventualmente ficarão presos em engarrafamentos, tendo em vista que cidades turísticas tendem a ficar cheias;  Os Turistas terão de fazer escolhas e até mesmo abrir mão de algumas visitas ou desejos, ou ainda pior: Os Turistas terão de interagir com outros Turistas, turistas e moradores do local. É mais ou menos nessa altura que aparece uma característica chave deles: o ódio reprimido. Por sorte ou azar, o ódio Turístico costuma se traduzir nas mais variadas atitudes: uma furada de fila “porque não sou obrigado a aguentar isso nas férias”, um olhar de desprezo a um morador de rua “olha, eles também tem disso aqui”, ou eventuais explosões em buzinas no trânsito, ou empurra-empurra para ganhar acesso aos mais diversos lugares, desde museus até passeios de charrete.


tiradentes, portinari

Ok; agora que O Turista está relativamente bem descrito, eu imagino que você vá pensar: Mas que cara pé no saco, esse que escreveu o texto! É só isso? Deixa O Turista ser um babaca e encolher a alma dele em paz, ora essa! Talvez você esteja certo, leitor. Acho que boa parte desse texto surgiu da minha pura falta do que fazer e facilidade pra reclamar das coisas. Mas acreditem, outra boa parte surgiu de uma preocupação sincera. Os Turistas, por mais cômicos e caricaturais que possam parecer, têm um certo poder. Eles se transformaram nos senhores das cidades turísticas, e eles devoram tudo ao seu redor como se fossem buracos negros. O que eu pude ver em Tiradentes, na praça da cidade, na fila do trem, aos pés da igrejinha matriz, é que a cidade não estava mais lá. Tive a sensação clara de que Tiradentes havia morrido e não me referia apenas ao militar revoltoso que foi injustamente escolhido de bode expiatório e depois, novamente e injustamente escolhido como herói nacional. A cidade de carne e osso, com propósitos, história, povo e principalmente, um significado, parecia haver desaparecido. Para todos os cantos que eu olhava, eu só pude enxergar lojas, lojas e mais lojas; construções antigas, preservadas, sim...  mas tudo aquilo me parecia muito como uma maquete inerte, ou talvez uma daquelas bizarras cidades temáticas de faroeste que construíam nos Estados Unidos. Os Turistas não pareciam perceber nada de errado. Às vezes eu encontrava um ou outro morador da cidade  ou alguém que estava interessado com o que havia acontecido por aquelas ruelas durante todos esses séculos passados. Talvez eu esteja completamente errado; o turismo é, afinal de contas, uma das principais fontes de renda pro país. Muitos desses moradores que eu encontrei devem dar graças aos céus todos os dias pela cidade ter se transformado no que se transformou, porque o turismo realmente gera empregos. Mas não posso negar; durante a maioria do tempo, tudo que eu via eram as lojas, a fome insaciável e o estereótipo do turista-colonizador devorador de culturas, sorrindo e cantando por ter conseguido transformar mais uma cidade de verdade num enorme shopping–center.

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