"Poupe-me, Papa"

por - 15:01

papa


A constituição brasileira assegura liberdade religiosa a seus cidadãos e mesmo sabendo que ela assegura uma caralhada de outras coisas das quais não temos ou temos precariamente, ela ainda vale num contexto maior que o aplicável na prática e é isso que importa, acho. É bem verdade que muita coisa ligada à nossa amada república é predominantemente católica, o que não necessariamente impede festividades religiosas de outras matrizes, afinal de contas São Jorge é Ogum também, mas algumas coisas são engraçadas de se observar neste jogo envolvente de diversidade sociocultural.


A não ser que você esteja vivendo embaixo de uma pedra, ou mesmo queimando uma, você deve saber que o Papa está fazendo uma turnê no Brasil. Talvez por não dar a mínima para religião, não tenho noção da importância da figura dele no catolicismo. No entanto sei o quanto gente religiosa pode considerar muito o que aquele distinto velho de saiotes pode falar e esta é a parte que me preocupa. Não cheguei a acompanhar seus passos como um coroinha de cabelinho partido de lado, mas chegou ao meu conhecimento que ele andou dando pitacos sobre nossa realidade. Tudo bem, qualquer um tem o direito de falar. Mais ainda o papa pop que anda de carro popular, mas com 29 seguranças acoplados na lataria que transformam seu humilde automóvel no Optimus Prime de Jesus. Só que aí vou começar a ser chato.


Como qualquer um que fala aquilo que acha que deve falar para causar uma boa impressão, o papa pop falou algo sobre drogas. Mas que senhor irreverente, veja só. Até imaginei ele e o presidente do Uruguai andando de fusca, queimando linguiças na churrasqueira de latão de óleo cortado e batendo uma bolinha na garagem. Golzinho de chinelo, claro. O problema apenas é que tal como um bom brasileiro coxinha, o papão falou, mas não pensou muito. Pelo que soube, ele disse que é contra a liberação das drogas para finalizar com o tráfico, apesar de ser totalmente contra o tráfico. Ok, não podemos crucifica-lo por ser contra o tráfico, aliás, quem não é contra o tráfico? Entretanto, se pensarmos como um maconheiro de domingo, com a legalização das drogas, o lucro que as autoridades teriam vendendo seria muito maior do que as propinas, contrabando e violência que hoje o tráfico causa.


Mas vamos estruturar este pensamento melhor. Esta seria uma saída fácil e talvez até simples demais para um problema que temos desde muito tempo no país. O mal de fumar cachimbo é que ele deixa a boca torta. E talvez a caganeira, se o cachimbo for de crack. Em outras palavras, se um problema é cristalizado, sua solução não é tão simples quanto parece no sentido de que o hábito pode gerar sequelas a médio e longo prazo. Isso porque o tráfico vem diretamente do alto escalão para o baixo e não o inverso, ou seja, não é tão simples ir contra algo praticamente instituído subversivamente pela própria figura do executiva. Eu tendo a acreditar naquela história de que o crack foi implantado pelo FBI para combater os Panteras Negras, por mais conspiratório que seja (e obviamente, sem provas substanciais). O fim do tráfico de drogas com a legalização simbolizaria também o fim de uma parte da corrupção daqueles que tentam enfraquecer a população de um modo que a própria população se sinta culpada de suas atitudes. Mas talvez aí já estamos viajando demais.


De qualquer forma, acho que ainda não conseguiremos legalizar as drogas. E isto por um lado é bom. Por mais que as possibilidades de corrupção por um lado fossem diminuídas, outras possibilidades se abririam. Se ainda conseguem utilizar dinheiro público sem que saibamos, ou mesmo sabendo, imagine como soa simples e indolor desviar o dinheiro de uma arrecadação de substâncias químicas psicoativas de recreação. Antes de legalizar, é preciso combater "o mal". Sem passeatas, por favor. E "o mal" não será combatido com rezas, muito menos com o papão gente boa. Nada contra ele, mas só lembrando que outros papas já falaram merda antes. Ou você se esqueceu que um deles já mencionou que usar camisinha na África era pecado? Por mais que ele estivesse tentando dizer que fazer sexo antes do casamento é errado, a frase soou pior do que a imposição de uma regra opressora relacionada à conduta católica. Faça sexo se quiser fazer, de preferência com preservativo (se for mulher, de preferência comigo) e se for realmente errado, Deus perdoa e já era. E sobre aquele papo de seguir o papão gente fina no Twitter pra levar menos tempo no purgatório, considere novamente fazer sexo antes do casamento.


jesus-manero


 

 

 

 

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