Sujeito sem classe

por - 14:05

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Tenho apenas um par de sapatos, o que de alguma forma é muito importante. Todo o universo pode estar em colapso gravitacional agora mesmo, e toda vida ou pretensa forma dessa coisa pode deixar de existir ao longo da vastidão do cosmo, em apenas uns dias, tal é a velocidade que tudo é sugado para dentro de si. Mas o que realmente importa é que a sola do meu único sapato decidiu que era hora.


Vou lhes dizer como foi. Aconteceu em silêncio, um silêncio sem final, digo, talvez eu esteja mentindo sem um propósito de ludibriar vocês, pode ser que minha audição tenha me traído, mas eu ouço meu coração trabalhando, e, no entanto, não ouvi quando minha sola se foi. E ela foi mesmo, tal felino quando caça indeciso.


Curioso é a sensação de estar bem sem estar realmente, enfim, é só uma sensação que me envolve quando o sol acaricia o meu rosto, como que me dando um beijo à moda de Judas.


Não vou trabalhar, eu pasto a caminho do trabalho sabendo que não chegarei de fato até ele. Pelos gramados da rua, pela lanchonete e um arroto de coca-cola, pelos três comprimidos pra nada, como uma vagabunda a se oferecer por aí, ruminando nada, eu fabriquei tempo pra poder dar hora de voltar para casa, com medo de deixar transparecer a todos na rua que a cada passo que eu dava minhas pernas tremiam por medo de me deixar expor dessa forma. Com medo.


Toda época é melhor quando a mesma haja passado, minha memória está em colapso gravitacional, e todos os meus pensamentos estão entrando em si e se revelando ridículos, cigarro após cigarro naquela impaciência frente a um posto de gasolina. Cada um deles, reunidos em sua particular insignificância, se juntando a um todo para me dizerem o quanto eu apenas não sei de nada. Volto pra casa após horas no pasto, tarde, com a cabeça repleta de cenas clássicas da pornochanchada.


Foi nesse exato momento em que a senti desaparecer por completo, no degrau que antecedia a porta da casa em que eu morava. E eu chorei por ser pobre, e mais ainda por não ter uma mulher suspirando de alívio lá dentro por eu ter voltado.


Desgraçado, ele sabia que eu era pobre, sabia que eu precisava dele num provável dia seguinte e que não havia possibilidades de eu comprar outro par de sapatos. Como se sabe, há coisas na vida que só funcionam como um par. Em minha cabeça anuviada passeavam os dois, um após o outro, embebidos em graxa, brilhando como duas estrelas numa noite de blecaute.


Eu não andei mais com um do que com o outro, eu não caminho torto, não havia motivos para que uma parte da sola de um tenha praticamente desaparecido de uma hora pra outra e a outra continuasse apenas um tanto lisa. “Você, meu caro, é um sujeito sem classe”, disse sem inteligência a mim mesmo.


Sentei-me na cama aos soluços, olhando através da cratera em meu sapato o tempo escorreu, e eu vi o assoalho do meu apartamento, perfeitamente encerado. Eu cheguei a ser um sujeito cuidadoso e limpo. A ambulância lá fora ecoava sua sirene com alguém enfartado a caminho do hospital, inutilmente. E meu sapato tinha um buraco inexplicável que ameaçava engolir todo o quarteirão, às duas e quinze da manhã, mesmo o homem enfartado na ambulância já teria adentrado o maravilhoso mundo da certeza incalculável. Eu morri, não há nada, é só sono, eu durmo, sei fazer isso. Fim.


Liguei o rádio, satisfatória ocupação de tempo inútil frente o zumbido eterno em meu ouvido. Deus, todo o universo será tragado por si próprio, e no final só sobrará esse zumbido, impossível de onomatopéia, até mesmo você perecerá, será tragado, por sua própria sobrançaria. Você é um paspalho.


No rádio, ali na minha frente, e bem longe de mim, um homem contava a história de como havia chegado a essa cidade na época em que tudo ainda estava sendo construído. Eu cheguei bem depois, meu caro, cinquenta anos depois, eu vim ajudar em sua queda, em sua derrocada, mas eu é que estou sendo arruinado, a começar pelos meus assoalhos. Que incompetência, meu Deus, os meus sapatos vão fazer comigo o que eu deveria ter feito antes com tudo o que me cerca, e o universo vai me arrastar para dentro de algo completamente estranho a mim. Mas disso eu não tenho medo, não é essa a palavra, eu tenho nada, a mesma coisa que tudo será daqui um pouco, então eu tenho muito, mais que qualquer um possa vir a ter. Deus, você é um paspalho.


Uma esmola, uma migalha de felicidade me invadiu por causa disso, como uma música no “repeat”. Felicidade, silêncio, intermitência desconhecida, felicidade, silêncio, zumbido...


Meu corpo foi tomado por minhas roupas, os botões da minha camisa cravaram-se como balas em todo o meu tronco, adentraram minhas entranhas, e o que me trazia mais felicidade era o fato de eu não estar engomado. Soltei meus sapatos no chão brilhoso como o da propaganda dublada e deixei meu próprio peso pesar sobre mim. Eu cumpri meu papel, fui pobre, honesto e limpo, um hipocondríaco criado pela televisão da minha época, um bastião de inutilidade.


E tudo ficou escuro, mesmo o zumbido foi ficando gradativamente menos perceptível a qualquer um dos meus sentidos enquanto meu coração tomava forma de uma gigantesca espiral. Uma última memória atravessou meus olhos, os pirulitos babados que trocava com as garotas quando eu era criança, só pra ter a sensação de que as havia beijado, então um sorriso veio à baila, e eu senti raiva por isso. A raiva crescia enquanto cada traço meu de consciência deslizava para dentro, e só sobrou ela. Pelo menos era feminina, a raiva, não era ódio, ainda bem que no final de tudo sobrou a mulher, sozinha no escuro, que com o tempo também vai passar.

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