Um pingado

por - 11:08

Pingado


Eu não tinha a menor chance contra aquele quanto de café com leite. Droga! Ele era muito forte. Não somente pelo que me proporcionava ao paladar, algo formidável que por si só já me fazia estar sobre seu domínio, mas também por estar mais quente e em maior quantidade que eu.


Nunca precisava abrir os olhos quando ele vinha até mim, eu simplesmente os fechava como numa prece, e na parede interna das pálpebras eu enxergava aquela mistura de cor e de cheiro ocorrendo bem na minha frente. Sentir o copo americano quente na mão e levar de forma prudente um tanto até a boca, uma forma adorável de começar a manhã. Dona Délia era uma santa e aquele pingado que preparava para mim todas as manhãs era a prova cabal disso, e era de graça, era um milagre.


Acho que ela gostava de mim porque eu a defendia das crianças que apareciam em sua padaria para comprar doces e caçoar dela. “Pinguim, pinguim, pinguim!” A chamavam dessa forma pelo seu jeito de andar por conta de ter nascido com uma perna maior que a outra. Para tentar amenizar o problema ela usava um sapato especial em um dos pés, com uma espécie de plataforma que compensava o tamanho da perna menor, mas mesmo assim ela ainda mancava, parecia um pinguim.


Aquelas manhãs ridículas, meu Deus, que coisa horrorosa, ela correndo atrás dos moleques, completamente descabelada com o avental engordurado e uma escumadeira que usava para mexer os pastéis que fritava, eu não aguentava ver aquilo acontecer.


Uma série de três cartazes dispostos no fundo do balcão aquele dia organizava uma sequência vermelha esmaecida na qual um sujeito parrudo prometia puxar um ônibus enorme pelas orelhas. E por um momento eu ri.


No primeiro ele aparecia acompanhado de uma mulher gostosa com um ônibus ao fundo vestindo uma roupa de ginástica impossível, que me fez lembrar imediatamente o Ted Boy Marino, numa pose heroica com as mãos na cintura contemplando um horizonte ensolarado ao final da tarde, o bigode reluzindo. “O Homem mais Poderoso do Universo está na cidade”, dizia.


Perguntei se ela ganhava algum dinheiro colocando aquela coisa na parede. Ela disse que nunca havia feito aquilo antes, mas dois sujeitos de fala engraçada a ofereceram cinquenta reais para deixá-los ali. Até eu aceitaria.

Seguia-se outro ainda mais sensacional, onde uma multidão contemplava acima de suas cabeças aquele sujeito sem centro puxando um ônibus de seis toneladas pelas orelhas, era o que dizia o cartaz, ele puxaria um ônibus de seis toneladas pelas orelhas, detalhando que a façanha seria realizada em uma rua em aclive, com observadores do Guinness Book para registrar o feito.


Ted Boy Marino


O terceiro dizia que o evento único e gratuito ocorreria na Praça das Garças aquele mesmo dia, dali meia hora, e trazia o tal Mr. Johnny Max, o Homem Mais Poderoso do Universo, coçando de leve uma de suas orelhas, deitado sobre o tal ônibus de uma forma que ele provavelmente achava muito sensual.


Quem ele pensava que era? Tive vontade que meu avô estivesse ali para mostrar a ele o que era algo realmente incrível, meu avô, que certa vez teve a audácia de fugir de um marido ciumento pelo buraco de uma fechadura. Aquilo sim era algo espetacular. Tamborilei os dedos no balcão de vidro da padaria. Quanta idiotice, aposto que a praça estaria repleta de gente querendo ver essa tremenda baboseira.


Dona Délia chegou a perguntar se eu não iria ao tal evento, mas eu tinha mais o que fazer e a ofereci uma moeda de um real para pagar o que havia consumido. Ela, como sempre, incapaz de me cobrar qualquer coisa.


Enquanto saia da padaria para ir embora pisei em algo esquisito que prendera levemente meu pé sobre o chão, puxei mais forte, era um chiclete. Um fio enorme e fino de chiclete esticou-se enquanto eu levantava minha perna, até se quebrar.


Eu ia pra casa, sério mesmo, ia para o meu quartinho no andar de cima da padaria para escutar rádio, mas minhas pernas foram aos poucos se apossando da minha pessoa, aquela sensação de grude enquanto eu andava, e sem perceber eu dei a volta por trás da padaria e tomei o rumo da Praça das Garças. Eu não era um especialista em mim mesmo.


Antes de chegar à exibição eu ainda cruzaria com aquelas figuras tipicamente urbanas, um viciado em crack me pedindo qualquer trocado, o mesmo homem de sempre que parece estar em todo lugar com um terno vagabundo e com uma bíblia segura por uma das mãos, amassada contra o peito, me perguntando se eu queria aceitar Jesus; e uma moça com uniforme de uma grande loja de departamento querendo que eu fizesse um cartão.


Eu não respondia ninguém, só pensava no quão maravilhoso seria se eu tivesse um robô que me fizesse café.


Quando cheguei até a Praça, o lugar estava abarrotado de gente, mas consegui subir em um banco expulsando uns pirralhos. Mas, se arrependimento matasse...


Foi uma coisa lamentável. Lá estava ele, com a mulher gostosa do cartaz, coçando as orelhas, foi com toda sua pompa puxar o ônibus para tentar registrar o novo recorde, as amarras firmes nas orelhas, todas as veias pulsavam freneticamente e os músculos gigantescos iam explodir, as orelhas seriam arrancadas de sua cabeça e seriam projetadas para trás como em um estilingue se ele não desistisse em tempo. Foi patético, ele mal conseguiu mover a porcaria do ônibus, foi socorrido, passou mal.


No outro dia o jornal da cidade diria que a comida do hotel onde estava hospedado não havia caído bem ao Homem Mais Poderoso do Universo. Pfff.


ectoplasma


Corri até minha casa, e completamente às pressas escrevi uma carta para meu avô contando sobre tudo que havia acontecido, e pedi desesperadamente que em resposta escrevesse sobre o dia em que ele, um cabra macho que só, foi capaz de fugir de uma situação adversa pelo buraco de uma fechadura.


Dias depois recebi a resposta, duas folhas, frente e verso. Na primeira ele perdia tempo conversando mole e fazendo mil piadas sobre o homem que queria arrastar um ônibus pelas orelhas. Mas na segunda ele me presenteou esmiuçando sobre o dia em que “fez mal” para uma moça casada, me confidenciando inclusive alguns detalhes que nunca havia compartilhado com ninguém, como o fato de não ter sido um engano, ele realmente sabia que a mulher era casada.


Deus do céu, o marido começou a esmurrar a porta da frente com a garrucha e logo, como um raio, apareceu na janela do quarto e atirou contra a tramela. Meu avô, usando de toda habilidade e astúcia conferidas unicamente a ele, driblou os tiros saltando da cama mais rápido que a faísca das balas, atravessou o cômodo, vestiu suas roupas tão rápido que o marido enlouqueceu de raiva, e feito um ectoplasma fugiu, escapando pelo buraco da fechadura da porta do quarto.


Dona Délia caiu na gargalhada enquanto eu lia a carta em voz alta, mas eu não a culpava, ela havia acabado de me servir outro pingado pelo qual não cobraria. Olhei para os cartazes desbotados e os imaginei livres de toda aquela pasmaceira, com uma grande fechadura no primeiro e o meu avô se desdobrando miraculosamente no espaço e tempo dos cactos e do gado magro, se prolongando pelos outros dois, formando uma imagem fantástica fechadura afora.


Quanta bobagem, meu Deus, quanta bobagem.

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