VICTIM! - Lar

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VICTIM! - Lar

Lar

VICTIM!

4 Eyes Netlabel (2013)

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É engraçado notar como os músicos que lidam com o noise lançaram vários e vários discos ao longo de um ano ou uma carreira. O Merzbow tem um amontoado de fitas k7, o Dominick Fernow possui uma vasta discografia com o Prurient e o Marco Corbelli tinha bastante coisa gravada também com o Atrax Morgue e é bem provável que existam inúmeros registros perdidos de coisas que o Corbelli fez antes do suicídio. Enfim, se Merzbow, Dominick Fernow e Corbelli têm o costume de gravar registros em um curto período de tempo, o carioca Cadu Tenorio parece ser adepto também desta prática.


Lar é o quarto registro lançado pelo VICTIM! desde sua existência – pouco mais de um ano – e apesar de conter duas faixas, o disco tem suas peculiaridades. Por exemplo, em entrevista ao Floga-se, Cadu Tenorio disse que este álbum é uma continuação do anterior, Lacuna e que foi trabalhado de modo simultâneo com o outro registro, “Quando recebi o convite da netlabel [4-EYESnetlabel], fui meio que fazendo em conjunto (com o Lacuna)”.


A simultaneidade com que os dois discos foram gravados trouxe um conceito que permeia Lacuna para dentro do Lar: a ideia de preencher os espaços, trabalhar com memórias e explorar locais que não foram visitados com o VICTIM!. Apesar da primeira faixa, “Parede”, ser um noise dos mais barulhentos, ela começa em silêncio e as nuanças dos ruídos – como os vários momentos em que eles acabam desaparecendo por milésimos de segundos -, não foram feitos até aqui por Cadu em outras músicas.


Em “Parede”, pela forma com que Cadu ambienta o ouvinte, a sensação que causa a quem está escutando é a de estar preso, trancafiado, mesmo que dentro deu lar e que é necessário sair, nem que seja por minutos. O noise, as grandes agitações e distorções feitas na primeira faixa, mostram algo: “Aos poucos / O silêncio revela sua farsa, / Escondida por trás das paredes / Que chiam”.


A segunda música de Lar é “Janela”, que pode enganar por seu começo um tanto dark-ambient. Seu início é como se fosse uma visão um tanto bucólica de algo pela janela. A rua, o barulho que seus dedos tentam abafar e vem de fora. Com o desenrolar da faixa – que parece dividida em atos, pois há vários momentos de silêncio completo nela -, alguns elementos chegam: torneiras abertas, chuveiros, encanamentos e rangidos, mas ela não estoura como “Parede”, pois o problema da janela aqui não é o chiar, é a paisagem bucólica (a mesma que encarta o disco), as memórias guardadas na cabeça de quem compõe, um pouco da inocência de quem via o mundo diferente da janela e hoje não há mais o que olhar.


Em Lar, Cadu Tenorio continua a explorar sim os espaços do Lacuna, como dito, entretanto, dá um pouco mais de foco a sensação simbólica da nossa casa e das antíteses presentes nela: o abrigo e a prisão, a “Parede” que chia tanto e incomoda, a “Janela” que não te deixa mais ver a vida como quando criança e revirar suas memórias, para no final das contas, tudo acabar. “Passou, / Os anos fizeram o trabalho / Que nunca seremos capazes de fazer”.


“As portas rangem demais / E as paredes precisam de pintura. / Já não importa... / Elas continuarão trancadas / O corredor nunca será um cômodo, / Apesar de ter coberto / Minhas incertezas / Com sua fraca luz.”, VICTIM, Lar.

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