Acordar tarde

por - 14:05

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Acordar tarde, sentir as queimaduras que o último sonho causou em meus braços e por isso vestir uma camisa de mangas compridas, por vergonha das marcas. Lembrar de seu rosto, sentir o toque de seus dedos cutucando minhas bochechas assim que eu acordo e não precisar mais lembrar, porque agora você está do lado de fora da minha cabeça, mas é só um sonho, eu me contento com ele. E se isso parece confuso, tente imaginar você montada em um elefante enquanto me olha de maneira terna e gentil. Trocar duas ou três frases e depois dizer que conversamos por horas a fio. E com que propósito?


Eu deveria fumar mais um pouco, um Lucky Strike, talvez. Droga, só tenho Pall Mall. Mas isso não é importante, quem sabe o propósito seja o mesmo pra tudo. Os dias quentes e acolhedores falam por si, e eu sou só uma vírgula esperando por uma pausa breve em sua frase.


O que você vai dizer, em que momento eu devo entrar pra fazer você respirar um pouco? E se você optar pelo silêncio? Então espero, e não canso, o cansaço é só uma desculpa e o que você sente é só seu, o que você sente é só seu e tudo é pequeno, por enorme que seja. Por mais que eu sinta e entregue toda ternura que tenho dentro de mim pra você, ainda assim seria pequeno. Não seria pouco, apenas pequeno. É diferente, é florido, sou eu quando penso estar escutando algo além do zumbido imperecível dos meus ouvidos.


Nem tudo que se guarda se sente. Sim, eu sou um hipócrita, e pouco me interessa a condição humana e toda aquela ou mesmo essa baboseira, porque eu vou sempre achar que era o elefante que devia montar em você. Dá até pra rir, não é mesmo?


O quarto era branco. E eu gostava, ainda o faço, de maneira deliberadamente premeditada e vil. Não era um refúgio, era só o que eu me propus a aceitar.


Deito-me na cama feita de chão e durmo com o sol no rosto, acordo, durmo de novo e ainda é dia.


Eu acho que vou fritar alguma coisa enquanto a espero, isso talvez amenize a ansiedade, besta ansiedade. Não, ao invés disso eu abro uma cerveja, assim é mais fácil. Será mais fácil se eu estiver um pouco desligado do lado de cá, porque eu sei que ela vai chegar montada em seu elefante indiano. Mas antes de irromper no meu apartamento com toda sua graça e esplendor, ela vai estacionar o carro com pressa, e antes de desligar o motor vai buzinar duas vezes na esperança de que eu apareça na janela para um aceno e um posterior convite para subir.


E eu faço. Por que eu não faria do mesmo jeito sempre? Não tenho razões lógicas para isso. Eu ouço, é o barulho do motor de seu Monza 92.


Ela buzina bem embaixo do meu apartamento, do mesmo jeito de sempre, eu me ponho na janela, cumprimento-a e a convido para subir de forma ansiosa e boba porque eu sei que é assim que ela gosta que eu faça.


Eu escuto seus passos leves subindo a escada, meu coração age com indiferença, mas o peito não, o peito não é mais só ele, é o calafrio que o cordeiro sente ao ver a raposa bem na sua frente e a fome da raposa que está há dias sem comer uma única migalha, é tudo de uma só vez. E isso resulta em um frio voluptuoso que só dura até a porta ranger e eu contemplá-la, linda e como o esperado, montada em seu elefante indiano.


Ela entra na minha casa correndo, seu perfume cítrico agora dançando entre os móveis. Passa a chave na porta, me abraça e é forte e quente. Seu casaco azul amarrotado, o All Star velho, os olhos de sono, eles sempre estão assim e isso me encanta. A pele rosada, seu rosto em contato com o meu, pronto.


Elephant Tapestry - Alexis Sallandrouze


Duas cervejas, três, quatro, até perdermos a conta. E acabada a cerveja ainda tínhamos uma garrafa de gim, outra de vinho e uma vitrola a tocar músicas, qualquer LP.


— Ah, você é um verdadeiro bandido, me fazendo ficar desse jeito. Disse ela com a voz adocicada.


— Eu? Eu não te deixei de jeito nenhum, eu não te obriguei a nada.


E nós dois rimos de nada, o mesmo nada que eu tinha feito.


— Dança comigo?


— Você está bêbada. E acredite, eu disse isso sem duvidar de minhas propriedades ilusórias de pessoa sã.


Não dançamos, cambaleamos pela sala durante uma boa meia hora ao som de Secos & Molhados, eu acho. Até que a peguei no colo e rodei, rodei, rodei, até perder completamente o equilíbrio e sairmos os dois da órbita planejada e cairmos no chão sem propósito, sem órbita, sem estratagema, sem teogonia, apenas com a vontade de estar ali, caídos no chão sem a necessidade prática de se perguntar por quê. Então, com o sol no rosto rosado, ela dormiu ali mesmo no tapete da sala. E quando acordou me pediu um copo d’água e um cigarro.


— Nossa, sua janela é bem grande. Disse com um daqueles bocejos enormes.


— É... Eu gosto. Suspirando e com uma indiferença sutil.


— Por que você não tenta fazer algo mais bonito, mais leve, algo que me faça sorrir?


— Não tenho mais paciência pra nada. Respondi de forma carinhosa.


Terminou o cigarro e voltou a dormir, e mesmo tendo ficado dormindo e acordando o dia inteiro, me recostei ao seu lado e caí em sono profundo também.


O olhar turvo, a cabeça pesada. Era eu tentando acordar do grande cochilo, sem surpresa notando através da minha janela que o sol ainda estava lá, duro, imponente, uma moeda amarela que não se deitava jamais, queimando meu rosto de maneira despretensiosa, aquecendo o cordeiro e a raposa.


E ela? Ela já foi, deixou pra mim a bagunça. É uma espertalhona, uma coisa que eu não sei explicar, é algo mais bonito, mais leve, algo que me faz sorrir.

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