Entrevista: Filipe C. e Vitreaux

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[caption id="attachment_22020" align="aligncenter" width="640"]Vitreaux Vitreaux[/caption]

Tem um bom tempo que eu me interesso especialmente por música independente nessas nossas terras tupiniquins, e desde então eu decidi que é sobre isso que eu quero escrever. Mas como todo bom novato, eu dou umas vaciladas. Foi assim quando eu conheci o trabalho do Filipe Consolini (a.k.a Filipe C). Fui cobrir um show do cara aqui em Belo Horizonte quase que completamente desavisado do que esperar; confundi ele com outros caras da sua banda, e não fazia a menor ideia do seu passado musical já prolífero (além do projeto solo que ganhou prêmio de melhor disco indie do ano, ele já fez parte do Venus Volts ).  No final das contas eu amei o concerto e o Silence EP, e acho que a cobertura conseguiu fazer jus ao trabalho pra lá de profissa do cara. Mas o trabalho dele dividirá os holofotes da matéria de hoje com o pessoal da Vitreaux.


O trio faz um som que eu geralmente encaixaria num tipo específico, e por isso não imaginava ser capaz de me seduzir; admito que andava meio cansado das bandas na vibe mais rock n roll sessentista  até ouvir a faixa "Ossos de Amor", e talvez tenha sido justamente esse fato a me chamar a atenção, no final das contas. Numa mistura de rock n’ roll iê-iê-iê e folk, fazendo uso de letras divertidas e em português, a banda consegue passar por cima dos clichês e lugares comuns (que convenhamos, são transbordantes nessa área) e fazer um som leve, gostoso, despretensioso e com uma boa dose de originalidade. Não sei se consegui demonstrar o meu ponto, mas vou resumir da seguinte forma: é realmente tranquilizador ouvir no cenário musical de hoje, às vezes tão pesadamente sério e reflexivo, uma musica super bem feita que fale sobre o amor de dois cachorros. O EP dos caras tá previsto pra sair em setembro, e ele foi produzido por quem? Filipe Consolini, pelo seu novo selo, o Mono.tune. Abaixo vem, então, uma entrevista com Filipe e Lucas Gonçalves (vocal e compositor da Vitreaux) sobre o trampo deles, o selo, e a questão da musica “independente” hoje no país.


Então, uma pergunta pra você Lucas, pra começar, e eu sei que pode ser uma pergunta meio pé-no-saco: de onde veio o nome Vitreaux?


Lucas Gonçalves: Sinceramente, eu poderia falar sobre a arte que envolve um vitrô e coisas assim, mas a real é que estávamos num bar, tomando umas cervejas e eu fui ao banheiro e vi esta janela típica de banheiros e eu lembrei da minha avó dizendo “fecha o vitrô os criança” (risos), saí do banheiro decidido: ou resto da banda aceitava, ou eles concordavam. O nome “vitrô” já havia sido tomado, eu não ia desistir tão facil e virou Vitreaux, um quase francês (risos).


Como é que vocês se conheceram como banda? E quando/como é que você, Filipe, entrou no processo?


LG: Eu vim de Minas, com a ilusão de que os integrantes da banda que eu tinha por lá viriam em seguida - pelo menos foi o combinado - um ano depois eu me dei conta de que eles não viriam. Foi um balde de água fria; eu estava com sede de banda, de tocar o meu som. Eu estava me sentindo num beco sem saída e a mãe da minha namorada, que sempre foi meio fã do meu som, falava desse garoto que tocava bateria. Ela dizia que ele era como eu, amava a música... eu resisti no principio, finalmente mandei uma mensagem; ela estava certa, foi mágico e o inicio. Eu considero ele vitalício na banda. O baixista João, eu conheci num show na Casa do Mancha, onde eu fazia uns bicos na época que acabou virando um fixo (ele não fez parte da gravação do EP) . Filipe gravou os teclados e eu gravei os baixos. Nesta época, se o cara tocasse contra-baixo eu já convidava para um teste. Ele foi o que melhor se encaixou, sem grandes mágicas a respeito, exceto o fato dele realmente curtir o mesmo som que eu. O tecladista entrou muito recentemente, ele não fez parte da gravação deste EP e eu o conheci através de anúncio num site de procura-se músico desesperadamente (risos). Eu conheci o Filipe no show dele, na casa do Mancha. Conversamos, nos adicionamos no Facebook, um dia eu estava participando de um concurso para ganhar mix e master no Abbey Road e minha namorada e a mãe dela saíram compartilhando a música pra todos, inclusive o Filipe, que curtiu e entrou em contato, querendo produzir um EP. Foi massa porque eu já tinha uma imagem bem profissional dele.



Eu vejo muito isso acontecer, aqui em Belo Horizonte mesmo, dessa transformação do músico propriamente dito em produtor musical. Por que vocês todos acham que isso acontece? É uma tendência natural ou algo do tipo? E você, Filipe, quando veio a ideia de criar o selo? A vontade de produzir outros projetos já rolava antes, já era antiga?


LG: Cara, isso você vai ter que perguntar para o Filipe, porque eu só produziria o meu próprio som, eu tive sorte de cruzar o Filipe. Filipe, diz aí! (risos)


Filipe C.: Na verdade a ideia do selo veio junto com a ideia de produzir a Vitreaux. Criei esse selo para trabalhar exclusivamente com artistas/bandas novas, que façam um trabalho massa mas que não saibam direito ainda por onde começar.  Então assumo a produção musical, gravamos juntos e através do selo fazemos uma assessoria básica para o som da banda rolar por aí, aparecer em sites, blogs, enfim, chegar no maior número de pessoas possível. Mas a concepção do selo foi algo completamente natural! Gostei do som da Vitreaux, achei os caras gente boa e vi que eu poderia fazer algo pelo som deles. E esse é o critério das próximas bandas que eu pegar pra trabalhar.


Quanto a Vitreaux, podem ser sinceros; a descrição que eu fiz deu pra passar a ideia que vocês tem do som? Se não, o que a gente pode esperar das próximas faixas do EP, além de "Ossos de Amor"?


LG: Eu curti muito sua descrição, o Filipe escolheu as músicas, se eu pareço mais ensolarado, mérito dele. Eu componho desde os 15 e foi difícil pra mim ver o Filipe escolhendo, falta de costume talvez, só pode fluir porque eu confio nele.


FC: O Lucas é uma maquininha de fazer rifs divertidos e música boa. Eu só dava o rec e ele saia gravando, de vez em quando soltava um “e aí? Tá bom?” (risos). Eu acho que no EP está bem claro isso; músicas com histórinhas, climas e atmosferas bem únicas.




[caption id="attachment_22021" align="aligncenter" width="640"]Filipe C., por Gabriela Portilho Filipe C., por Gabriela Portilho[/caption]

Filipe, você tá lançando single novo agora. "The Day The Sun Did Not Set" parece mostrar que seu projeto se encontra numa fase já um bocado diferente da que a gente sente em Silence EP… A melancolia ficou mais folk mesmo? Já tem uma data preparada pro lançamento ou alguma outra prévia do que a gente vai ouvir nele?


FC: A melancolia não ficou mais folk! Esse single é um pouco mais puxado pra esse lado, mas meu objetivo sempre é não me prender à somente uma sonoridade. Eu acho que essa liberdade é importante pra qualquer pessoa que compõe e produz. Eu acho que para esse próximo trabalhar dá pra esperar uma variedade de timbres e estilos como foi no Silence, mas o que eu estou buscando agora é um som sem tantas camadas, mais intimista mesmo. Ainda não tenho data nem nome para o EP.


Lucas, e o EP do Vitreaux, tem nome? E vocês já tem algo marcado pro lançamento, um show, mais algum single?


LG: Sim, o nome é Dois por Dois. Ele tem dois significados pra mim, primeiro porque foram dois que iniciaram a banda, eu e o Guilherme, segundo, só nós dois gravamos o EP.


Voltando ao Mono.tune, quais são os planos futuros? A ideia é reunir mais bandas? Mais álbuns do Vitreaux, por exemplo?


FC: Poxa, eu considero o Vitreuax prata da casa (risos). Eles já tem free pass lá em casa sempre que quiserem gravar algo novo! O selo está aí pra isso. Pegar bandas/artistas que estejam no começo, gravar e mostrar pro público da melhor forma possível. O Mono.Tune tem interesse até no cara que só grava em casa e nem tem a banda formada ainda.  Se o trabalho for legal e tiver como eu ajudar musicalmente, eu compro a ideia. Abro meu email todo dia na esperança de encontrar algo novo que me pilhe em trabalhar! Mandem suas lo-fi-zices!



O que todos vocês acham desse papel da produção de música independente no país, hoje?  Os selos tão em falta ou é a interação entre as bandas e os músicos que tem que crescer mais?


LG: Cara, eu poderia ficar enchendo linguiça, pesquisar a respeito, mas o lance é que eu faço música há muito tempo, mas é a primeira vez que eu faço seriamente e eu tive sorte de encontrar o Filipe. Eu não tenho vivência suficiente para achar alguma coisa a este respeito, fico devendo uma resposta.


FC: Eu acho que existem muitos meios de gravar sua música e botar pra rodar hoje em dia. Existem muitos sites bacanas (como esse por exemplo), super abertos à novidades e dispostos a divulgar, resenhar, entrevistar, enfim, mostrar o trabalho que o pessoal tem feito por aí. Os músicos sempre conversam e se articulam. E o que tenho mais ouvido desde que resolvi colocar o Silence “na rua” é que os lugares legais, com infra, bom cachê, publico interessado, etc, são poucos. Pode ser bem desmotivante você ensaiar durante semanas para tocar num lugar com um sistema de som horrível e além de tudo, por um cachê que não paga nem a sua gasolina. Talvez os músicos devessem se organizar e não ficar baixando a cabeça por aí em troca de qualquer “oportunidade legal de mostrar seu som”.  Cachê e infraestrutura é o mínimo em qualquer área, não só na música. Como alguém disse um dia por aí “quem baixa muito a cabeça, acaba mostrando a bunda”.

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