O sábado seguinte

por - 14:04

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Ia vacilando pelos paralelepípedos com a alma intacta, o casaco não servia naquela época do ano, era setembro e fazia um calor infernal. Provavelmente Lúcifer havia deixado as portas abertas de novo. Murmurou um leve arrependimento de ter saído de casa com o casaco. Mas que diabo de ideia havia sido aquela?


Foi lembrando conformado que havia saído com o maldito por conta de uma nódoa em uma das mangas da camisa, única social que possuía em seu armário. Praguejou a falta de dinheiro e cuidado em ocupar-se de pensar nessas ocasiões que detestava. Sempre um monte de gente se perguntando quem é aquele outro monte de gente, mesmo que a cidade inteira se conheça e saiba cada um mais da vida do vizinho que da própria. Um lapso de “eu não vou” atravessou sua cabeça como um raio luminoso e instigante que o fez sentar-se em um banco de madeira que havia embaixo de dois postes.


Encolheu a manga do casaco para olhar a mancha da camisa, só pôde suspirar. De onde estava já podia escutar a música e ver as pessoas chegando. Puxou uma caixa de fósforos do bolso, preferia os palitos, sem dúvidas muito mais baratos, o isqueiro perdia-se fácil, além de ser mais caro, levavam-no como souvenir por o terem conhecido, era uma merda.


Enrolou e acendeu seu cigarro de palha e ficou lá olhando os vãos entre um e outro paralelepípedo, procurou não pensar no calor que sentiria durante a festa inteira, ao invés disso lembrou-se da canjica que a mãe preparava quando ele era criança. Adorava quando chegava da rua e via ter sobrado ainda um pote inteiro com todo aquele gostinho de açúcar queimado atrás das garrafas de água gelada.


Desejava de todo coração não ter que ir a essa festa, principalmente depois que descobriu porque havia saído de casa vestindo um casaco, ficaria mais feliz em ficar a noite toda pensando nas coisas que encontrava na geladeira quando chegava da rua todo sujo de terra em casa e a mãe não se importava, não ralhava com ele.


Colocou o cigarro entre a ponta do dedo médio e o polegar e o disparou no chão pisando-o em seguida com o sapato marrom de couro rachado. Os pífanos, a sanfona, a viola, toda a batida soando mais alto.


Levantou-se com o passo cheio de incertezas, embotado em direção à festa, mas se não aparecesse, no dia seguinte a cidade inteira o faria doente. Teve de ir, não queria adoecer, mas a possibilidade de arrependimento pelo marasmo que sentiria durante o evento inteiro não escapava de suas atenções.


Chegou pelo corredor de luzes incandescentes, vendo as moças e seus vestidos de pano estampado com flores, seus cabelos longos e cheirosos para a ocasião, ele com suor escorrendo debaixo dos braços.


Logo encontrou onde encostar-se para esperar ser visto por uma quantidade considerável de pessoas, para não correr o risco de acordar doente.


Foi quando o olhar sólido passeando entre as diversas pessoas da festa tropeçou na dança de uma mulher, e o ruído dos pífanos e demais instrumentos foi tragado por alguma coisa no tempo claro do céu, e de uma hora pra outra, de toda a zoada, só sobrou ela e o barulho de sua sandália arrastando no chão, e ele naufragou lentamente quando ela o olhou de volta em um giro da dança, era um sábado bêbado aquele. Foi a pique quando ela piscou e mandou um beijo, soluçou timidamente sem motivo aparente, e não houve tempo para marasmo, a festa acabou depois do soluço.


No sábado seguinte, sobre as mesmas incertezas e mais uma, sentou-se no mesmo banco, enrolou e acendeu outro cigarro com um palito de fósforo, desejando não soluçar depois do beijo.

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