Pensar constrangida

por - 11:06

casa-vazia


A mão na cintura acompanhava as horas de espera no batente da porta. A vermelhidão do sol batendo forte nos cabelos emaranhados, quebrados pelo sabão vulgar, os olhos fundos se perdendo lá pela estradinha de terra, olhando o vento cor de barro. Ao lado pastava o boi perdido, seu vestido liso balançava na altura de suas canelas finas.


A casa era mais vazia quando estava nela sozinha do que quando não tinha ninguém, pensou consigo que verdade maior não podia existir, afinal como ela poderia saber o quão só era a casa quando ela não estava lá? Mulher pensativa martelava isso desde o dia em que chegou com o marido naquele lugar.


Era feriado, domingo de páscoa para ser mais exato. A casa às vezes falava, especulava qualquer coisa a respeito do filho que saiu na noite passada e lá pela seta das seis da tarde do outro dia não tinha chegado. Havia saído para tentar ganhar algo no jogo, a mãe tanto lhe advertiu sobre os riscos do carteado, dinheiro e cachaça na mesa. Menino novo para estar se envolvendo com isso, mas depois que o pai decidiu cair no mundo não teve jeito, não tinham nada além da casa e um terreno pequeno onde não crescia nada que se plantava, não era do agrado de ninguém, mas foi a maneira que o filho arranjou para colocar comida na casa.


A noite já ia tomando forma quando teve fim a aflição da mulher pensativa, os olhos fundos esboçaram alívio e o coração voltou ao peito.


Valderi tinha lá seus vinte e poucos, mas voz distorcida. Bateu as botas no capacho do assoalho da varanda agigantando-se perante a figura da casa vazia. Cada passo que dava em direção a mãe encarregava-se de espalhar o cheiro que remetia aos mais afeiçoados um prostíbulo, mas à mãe remetia regresso.


A arma exibida na cintura com todo luxo que o restante da roupa lhe conferia. Corrente de ouro, pingente de crucifixo, ele era seu próprio esconderijo.


Cumprimentou a mãe tirando o chapéu e foi até a cozinha, a mãe em silêncio admirando a casa cheia de novo, confundindo lembrança, imagem e pensamento, esperou ele voltar com o copo de geleia de mocotó cheio de cerveja sem se dar conta de que ele havia perdido a geladeira numa das apostas meses atrás.


Lá da cozinha ele resmungou algo sobre as paredes estarem sujas, e ao voltar sentou-se displicentemente ao lado do cachorro de porcelana que havia na entrada da casa. A mulher pensativa em silêncio, não conseguia fazer duas coisas ao mesmo tempo, ou pensava ou falava, gostava mais de pensar. E pensou em perguntar se ele havia conseguido o dinheiro, mas não perguntou isso, disfarçou querer saber se ele tinha fome, a resposta foi negativa.


Valderi sentiu a garganta seca enquanto a noite se definia, estava quente, quente que se sentia dia não fosse por estar ao redor da casa aquele escuro típico da roça.


Levantou-se para pegar a cachaça que guardava no móvel da sala, e voltando para o lado do cachorro de porcelana ofereceu um trago de pinga para Deus e outro ao diabo.


— Mãe, não consegui o dinheiro. Sua mãe tirou de novo o coração do peito e o colocou a disposição do filho, e imediatamente parou de pensar.


— O que vamos fazer?


— Eu apostei a casa. Mais uma talagada na cachaça.


A mulher olhou pra dentro da noite procurando desespero, mas sorriu constrangida, sentou-se junto ao filho e pediu uma dose da cachaça, pensando que não teria mais que se preocupar com a história da casa vazia.

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