"Que se foda a minha mãe?"

por - 15:07

brown


Na maioria das vezes, família é uma coisa legal. Gente que pode até não te entender totalmente, mas que torce para que você se dê bem na vida e fique de boa. Tá bom que nem sempre é esse mar de rosas, mas a tendência é que seja mais ou menos assim. Isso sem falar nos defeitinhos que cada uma acaba tendo, natural do processo de humanidade inerente a todos nós, mas que adicionam tempero à relação familiar. Sua família, ou quem te serve como família, é crucial na infância porque vai definir basicamente como você se relacionará com os outros num âmbito maior. E a cultura tem um papel absurdamente importante nessas horas.



Minha família toda é vinda do nordeste. “Onde tem baiano, tem respeito”, uma vez disse Jong de Cerqueira. É difícil falar por toda uma demografia, mas em meu caso, acredito que a frase tenha suas verdades, afinal de contas, nunca matei, roubei ou fui preso por algo que não tivesse realmente feito. Na verdade nunca fui preso. Falei assim só pra você ficar se questionando se realmente já puxei cadeia. Se minha mãe me ouvir falando uma coisa dessas, ela provavelmente ficaria irritada. “Onde já se viu? Dei educação, comida, mandei essa porra estudar”. Todos os palavrões que conheço aprendi com ela. E aprendo até hoje. Dê um tema e minha mãe terá o maior prazer em passar horas e mais horas inventando jeitos criativos e sensacionais para ofender a sua mãe.



Com esse lance do julgamento dos pepas que participaram do massacre do Carandiru, que aliás rendeu ‘Diário de um Detento’, só consigo pensar em mães. Pois é, pode parecer bizarro, mas passei uns bons minutos de meu tempo refletindo sobre o número de mães que sofreram com este acontecido. Não quero soar hipócrita, mas não somente há mães que sofrem e sentem a dor de ter perdido um ente querido graças ao mais elevado nível de imbecilidade de uma operação policial conduzida por alguém que não tinha PC bom pra rodar Doom em casa e quis transferir o jogo pra vida real. Agora os policiais presos pagarão por seus atos. Ou melhor, pelos atos do comandante que os mandou fazer a merda. Se negar a entrar ou a matar todo mundo era uma opção, mas no calor do momento parece que a questão não é tão simples como parece. De qualquer forma, agora mais mães ficarão sem os filhos.



Faz-se injusto chamar alguém de filho da puta nessa ocasião. Mães são inocentes, não faz sentido culpa-las pelas atitudes de sua prole. Quando eu quebrei o porta retrato da sala brincando de bola (eu era criancinha, mas se ela ler isso eu tô fodido porque culpei minha prima) a culpa não foi da minha mãe. Tudo bem que nascemos somente porque nossos pais não usaram preservativos, mas talvez seja meio leviano culpar-se por algo tão naturalmente complexo. Até porque uma gravidez apresenta N fatores determinantes para se ter a criança ou não. Além disso, existem mais N + Y fatores que determinarão se a criança vai ser de fato um merdinha ou não. Considerando que este tipo de julgamento é muito feio de se fazer, é mais fácil calar a boca e não xingar mãe nenhuma só pra garantir que a aura sagrada dela e esperar a criança completar dezoito anos para acertar na ofensa. Em outras palavras, se estiver com raiva de alguém, relaxa e deixa pra lá.


swag-will-smith


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