Um papo com sobre tours na gringa com Erick Cruxen (Labirinto)

por - 14:09

Erick Cruxen_Arco

Erick Cruxen é uma das cabeças da banda instrumental Labirinto, que pra quem ainda não sabe é de São Paulo. No mês de maio estive por lá para conferir os (incríveis) shows do Explosions In the Sky no Brasil (que shows!) e fiquei hospedado na modesta “mansão labiríntica”. Durante o período batemos longos papos sobre as tours no exterior feitas pelo Labirinto, já que eles tinham voltado recentemente de uma pela Europa, onde a banda tinha feito 11 shows em 25 dias por lá, passando por diversos países. Antes disso, em 2011 e 2012 os caras passaram duas vezes pela América do Norte, e na segunda,  realizaram 21 shows em 28 dias pelo continente.


Por conta desses papos, resolvi fazer uma entrevista com o Erick sobre como fazer e se preparar bem para tocar no exterior. Passando algumas dicas para que outras bandas brasileiras se aventurem no mundo, porém sabendo um pouco por onde pisar. Falamos também sobre as diferenças (se é que elas existem) entre tocar no Brasil e fora dele, além de alimentação, espaços de shows, post-rock, entre outras coisas.


Bom, a gente conversou por aí sobre as tours que o Labirinto vem fazendo no exterior e recentemente vocês fizeram uma tour considerável com um gringo pelo país. Então a primeira pergunta é se você acha mais fácil fechar shows (ou turnês) por aqui ou fora do Brasil?


Cara, com certeza fazer na gringa. Gostaríamos de fazer mais shows por aqui, isso não acontece devido às infraestruturas que necessitamos, pelo tamanho físico da banda, quantidade de instrumentos, etc. Além daquele velho problema dos organizadores e produtores de shows no Brasil acharem que estão fazendo um favor para as bandas. Nessa última turnê recebemos um tratamento muito mais bacana, com espaços abrindo para show só por causa do Labirinto.


A última foi a Europa, né? Eu lembro que você falou que tinham espaços onde vocês tocaram nos EUA que eram lugares pequenos, acanhados, sem essa infra estrutura toda.


Sim, foi na Europa. Na verdade alguns lugares nos EUA eram menores, outros espaços eram muito legais. Lugares onde bandas como Explosions (In The Sky), Russian Circles, Capian tocam. E em quase todos os lugares, por menor que fossem, a preocupação com a qualidade do som e o respeito com banda e público é superior a quase todos os espaços de show daqui. Infelizmente. Pelo menos nos que tocamos. Nos Estados Unidos, Canadá e Europa, você manda o som de sua banda, se não gostarem, já te falam na cara. MAS TE RESPONDEM. Não ficam enrolando!


Contudo, com a tour do thisquietarmy e Labirinto conhecemos diversos produtores, coletivos entusiastas que tentam a muito custo melhorar as coisas por aqui, realizando eventos na base do faça você mesmo. São esses caras que temos de ajudar para fazer as coisas acontecerem no Brasil.


Vocês criaram o lühm (entre outros motivos musicais) pela facilidade que o projeto tem de viajar mais pelo Brasil? Fala um pouco sobre a proposta do Luhm ai... Ele também vai sair do Brasil?


Sim, criamos o lühm também por esse motivo de locomoção e de poder tocar em lugares menores. Mas é algo diferente do Labirinto (apesar de algumas referências em comum), tentamos explorar algumas sonoridades que acabam sendo menos "lapidadas". Por isso chamamos de dark folk. As apresentações são mais curtas, menos trabalhosas e com possibilidades maiores de intervenções eletrônicas e experimentais. Quanto a ir pra ginga, se aparecer uma oportunidade, estamos aí!



A primeira passagem de vocês pela América do Norte rendeu um documentário bacana que vocês liberaram no Youtube. Eu sei que a segunda turnê por lá também terá um, acredito que a europeia também. Então pergunto, por que você acha importante registrar e divulgar tais atividades nas tours? Digo, é uma satisfação pessoal ou tem algo mais nisso?


Sinceramente, quando pensamos em filmar e posteriormente, realizar o documentário, era para registrar momentos muito bacanas da banda, e servir de incentivo para diversos amigos que tocam, e sempre tiveram vontade de fazer shows na gringa. Para gente é muito difícil e trabalhoso realizar essas turnês; mas é algo bastante gratificante e prazeroso. Várias bandas vieram pedir conselho, sugestões e auxílio para armar suas turnês lá fora, depois de assistirem ao documentário. Isso é muito bacana. Planejamos fazer o documentário da segunda e terceira tour também.


E quais seriam essas dicas principais? Além de disposição, o que é que precisa?


Cara muita coisa. Das que parece mais bestas de como se locomover, de que cidades são legais para tocar, onde comer (barato e com qualidade), onde dormir, contatos de espaço de shows e obviamente os perrengues, alegrias, desafios da empreitada e dos próprios registros dos shows. Foi uma das coisas que fizemos em que mais recebesse mensagens, inclusive de exibição no canal Play TV. Na segunda turnê (EUA-CANADA) foram 28 dias e 21 shows. Na Europa 25 dias e 11 shows, principalmente devido as distâncias que percorremos nessa última tour, fizemos menos shows. Sem ser piegas, precisamos de muita disposição, amizade, respeito, amor pelos shows e muita paciência.


Qual a melhor maneira de se locomover em tours? Muda da América para a Europa? E as cidades que são legais pra tocar, não seria necessária a vivência de ter ido até lá pra saber?


Poxa, pelas nossas experiências creio que seja melhor alugar uma van e mandar bala nas estradas, que em sua maioria são espetaculares. Nos EUA, além do dólar ser mais baixo que o euro, a logística é bem mais fácil. Hóteis, internet, lugares para comer (principalmente para vegetarianos) pela estrada, lojas de instrumento e serviços. Contudo, a receptividade (em muitos lugares dormimos e comemos na casa do pessoal das bandas, organizadores dos shows, amigos, coletivos, artistas) é parecida em ambos. Agora, na Europa e Canadá obtivemos mais retorno e repercussão em relação aos nossos shows.


Quanto ao lance de vivenciar para saber em quais cidades tocar; o relato e os conselhos de alguns amigos nos ajudaram muito para planejar e engendrar nossas tours. Foram dicas preciosas que evitaram muitos perrengues. Como existe um circuito "fixo" de cidades que valorizam o tipo de som que tocamos, esses conselhos são fundamentais, principalmente para bandas e artistas que planejam e realizam turnês estruturadas, e que não saem às cegas, simplesmente para falarem que fizeram uma turnê na gringa.


Vocês fazem um trabalho visando o público internacional faz tempo, lembro que você me disse que o termo "Post-Rock", mercadologicamente falando, é "coisa de gringo". Pois, é importante usar tal termo por lá? Você acha que existe um preconceito com o termo no Brasil (ou entre as bandas brasileiras)?


Na verdade, fazemos música para quem quiser ouvi-la, e não pensamos se quem tá escutando é gringo ou não, isso seria uma besteira. Lógico que trabalhamos nosso material, e o preparamos para que possa ser divulgado por aqui, e lá fora, já que tem bastante gente que gosta da banda por lá. O número de resenhas sobre os nossos discos é 20 vezes maior lá fora do que aqui. Talvez pelo tipo de música que façamos ser mais acessível, tenha mais visibilidade lá fora, mas está mudando. Ficamos muito felizes quando os gringos percebem conceitos, ideias e inspirações nas coisas que sentimos e vivenciamos em nossos cotidianos no Brasil, e principalmente quando procuram se informar sobre isso. Nas trocas de experiências que tivemos sempre foi importante, pois em diversos lugares fomos a única banda da America do Sul que eles conheceram, e procuram saber mais sobre as coisas por aqui.


Sobre o termo post rock ser coisa de gringo, não foi isso que quis dizer. É que o termo é mais conhecido e utilizado lá fora, até pelos motivos que citei. Para nós é uma nomenclatura que carrega uma indefinição própria nela, abrange muita coisa. E serve para enquadrar mais ou menos onde o som pertence. É muito mais rico quando as pessoas definem o som (experimental, rock instrumental, progressivo, etc). Não sei se existe preconceito, na verdade não nos preocupamos com isso. Porque a música é muito maior que isso tudo.


Zeca Viana, que tocou baixo no Labirinto na primeira tour pela América do Norte, disse em entrevista na revista MI03 que o principal conhecimento que ele iria levar da tour era o modo de ver o Brasil de fora, pensar global as coisas e não localmente ou nacionalmente na música e objetivos. Qual sua opinião sobre isso?


As experiências que tivemos durante as tours, certamente nos ajudaram a entender e vivenciar outras formas de lidar com a banda, e a música em geral. Você vive pela banda 24 horas por dia, numa perspectiva diferente, do que se estivesse por aqui. Existem outras possibilidades em se ter, e de como se levar um projeto artístico (de música, cinema literatura, etc)


Fala um pouco mais dessa cultura vegana, do fato de ter muita opção na estrada. Rola isso na Europa também ou apenas na América do Norte?


Na America do Norte é muito tranquilo para encontrar comida vegetariana e até vegana pela estrada. Tem muita opção e muito barato. Agora na Europa é bem mais difícil e caro. Na cidade você encontra alguns locais (que fecham muito mais cedo que nos EUA e Canadá), agora na estrada é bem complicado, principalmente nos trechos entre Portugal e Espanha. Veganos sofrem demais, exceto nas casas de show que oferecem jantares excelentes, e sempre perguntam sobre a dieta dos músicos. A preocupação é maior. Contudo, em algumas estradas da Europa chegamos a passar fome, o que salvava era fazer rangos na van, com que comprávamos nos supermercados quando passávamos pelas cidades maiores.


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1 comentários

  1. Infelizmente a realidade é essa mesmo: portais de música brasileiros não respondem às bandas. Tenho um projeto de música, enviei pra muitos sites, tanto gringos quanto brasileiros. Vários gringos responderam, inclusive dando toques tipo "tua produção tá meio ruim, você pode fazer isso, isso e isso pra melhorar" (e foi por esse feedback que resolvi fazer mais cursos pra áreas específicas de mixagem). ATÉ FEEDBACK NEGATIVO AJUDA. Quem fica putinho com um feedback tipo "teu som tá ruim, trabalhe mais" não sabe o que está fazendo.

    Lidar com arte é lidar com gostos das pessoas. Mesmo Beatles e Pink Floyd têm críticas pesadas. Então aprender a extrair coisas positivas de feedbacks negativos é muito importante. E essa falta total de feedback, principalmente da mídia nacional independente, quebra as bandas menores, iniciantes.

    Gostam de aplaudir as bandas brasileiras que tocam na gringa, mas não valorizam as bandas brasileiras que fazem música boa e que não conseguem marcar seu primeiro show.

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