Um papo sobre bad trip com o Munha (Satanique Samba Trio)

por - 14:08

Satanique Samba Trio

Serei sempre suspeito para falar da banda brasiliense Satanique Samba Trio, desde os primeiros discos do grupo, ou pelo menos os primeiros que ouvi, lá pelos idos de 2005 com o EP Misantropicália. As suspeitas só aumentaram depois desta trilogia da simulação bad trip. Para quem não viu e ouviu, saiu a última parte, o Satanique Simulator #3 em que os caras resolveram trabalhar a "viagem errada" em cima de ritmos nordestinos como o xote, o forró, frevo, entre outros. Mais um belo disco, e mais um grande trabalho de transformação musical de alta qualidade do grupo, que não deve em nada as simulações e afrontas a MPB e o samba dos números anteriores. Alguns destaques desse novo registro são canções como "Hellcife Blues", "Forró Mata" e "Sodoma & Gonzaga".


Aproveitando este gancho, batemos um papo com uma das cabeças do Satanique, o grande Munha da 7. Além da simulação aos dogmas da música brasileira, falamos também de algumas "viagens erradas" passadas pelo grupo, mercado, música instrumental e shows, ou as propostas de. Aproveita e dá play abaixo aí no último disco da banda e ouça enquanto lê a entrevista. Pra baixar os três discos da trilogia bad trip clique aqui.



Agora que acabou a trilogia do Badtrip Simulator, uma dúvida que paira minha cabeça desde o primeiro disco. Honestamente, a Bad Trip está nos estilos escolhidos para simular ou realmente na simulação feita por vocês?! Por que eu particularmente acho que vocês até melhoraram alguns dos estilos escolhidos...


Na simulação, lógico. Aliás, se tem algo que falta ao percurso temático da MPB – e isso inclui os ritmos tradicionais brasileiros – é justamente a admissão de nossa propensão ao “baixo astral”. É incrível que em quinhentos e tantos anos de Brasil, nossos artistas tenham ignorado – salvo raras exceções – nossos horrores históricos e cotidianos. O Satanique Samba Trio está aí pra suprir esta lacuna, injetando podridão onde sempre deveria haver. Não há muita “Bad Trip” no frevo, mas vamos entorta-lo até extrair dele tudo que há de indigesto.


E de maneira prática, quais seriam os nossos "horrores históricos e cotidianos" que adentram a nossa música?


Empiricamente, está aí pra quem tiver olhos e ouvidos. A violência e os horrores estão em todo o lugar. Escolhemos representa-los na maneira com que dialogamos com o ouvinte: ritmos compostos, timbres desagradáveis, harmonias tortas e joelhada metafórica na fonte.


Como você vê o Satanique Samba Trio na música atual? Em termos de mercado, onde se encaixa a banda para os sataniques? Porque eu vejo a banda como um coringa e isso pode ser bom ou ruim...


De fato, o SS3 age como coringa. Ao mesmo tempo em que não temos público algum, temos todos. Talvez nosso único mercado fixo seja o dos gringos doidões. Esse aí é sempre aposta certa.


Mas vocês já fizeram apresentações fora do Brasil? Se sim, qual a principal diferença em termos de evento/festival?


Ainda não, apesar dos convites regulares. Sempre acontece alguma tragédia quando estamos prestes a ir. De qualquer forma, eu falava dos nossos números em vendas de CDs quando me referi ao público gringo.


Fala algum caso dessas tragédias ai? E os convites regulares são de alguma região especifica?


Tragédias não faltam: o Lupa (nosso baterista) ficou doente na véspera de uma dessas turnês, fomos enganados por produtores mal intencionados e tivemos problemas financeiros de ordem tsunâmica, dentre outras tretas e contratempos. Os convites vinham de lugares e realidades diferentes. Ou seja, posso dizer que QUASE tocamos na Inglaterra, na Espanha, em Portugal, na Bélgica e na Áustria. Mas só quase.


 


Zorn diz que a música instrumental e experimental nunca vai ser popular, mas também nunca irá morrer. Será sempre uma música de nicho, com aquele público cativo que varia de tempos em tempos. Como você vê isso?


Eu assino embaixo, com uma ressalva: o que é considerado “experimental” varia de década pra década, de movimento artístico para movimento artístico. Com isso, a popularidade deste escopo varia muito, na linha temporal da História da Arte. O mesmo pode-se dizer a respeito da música instrumental, mas sua trajetória é menos convulsiva: de Spade Cooley pra cá pouco se vê de música instrumental no mainstream. Eventualmente presenciaremos outro boom, mas temo que o apocalipse zumbi ocorra antes.


Uma dúvida minha, o que pode ser considerado influência do Satanique Samba Trio?


A resposta sincera-porém-monótona seria "todos os sons que ouvimos no Universo". A resposta levemente fantasiosa e amplamente reducionista seria "Gustav Mahler, Anton Weber, Nelson Cavaquinho, Marcel Duchamp e aquelas coletâneas horríveis da série Millenium MPB". Vou deixar as duas registradas, só pra não dar o braço a torcer pra ninguém.


Beleza, eu consigo ver Nelson Cavaquinho e Duchamp no som da banda, o que me remete aquela pergunta do ser popular, mas não ser. Já que transita em diversos ambientes. Então a minha pergunta seria, de onde surgiu o grupo, ou por que o Satanique Samba Trio existe ou ainda de onde partiu tal necessidade?


O Satanique Samba Trio existe como um mero canal de diálogo entre os dogmas da MPB e a pequena parte do público que não os engole. Convenhamos... É muito clichê, regra e frescura pra um cenário musical tão amplo e difuso em suas arestas estéticas.


O universo imagético que nossos artistas vinham criando e exportando quando eu comecei a estudar música era uma revisão moderna do mito do bom selvagem, por mais cínico que isso possa parecer a essa altura do campeonato. Mas sendo completamente sincero, sempre achei essa suposição de ingenuidade automática no retrato que o artista pintava do povo ofensiva pra cacete. Era banquinho pra lá, violão pra cá e um oceano de pessoas sofridas, porém sorridentes entre os dois. A música não contestava nem essa balela nem a si mesma, salvo raras exceções. Estivemos, estamos e estaremos aí pra isso.


Então, o que vem agora? Depois da trilogia Bad Trip Simulator?!


Tudo indica que lançaremos uma coletânea no exterior, um vinil compilando os "badtriptronics" e um disco cantado. Este último, já em 2014.


Quem é o cantor da Satanique? Por que a necessidade da voz?


O cantor não pertence à formação atual. Planejo, inclusive, convidar vários vocalistas diferentes para o disco. Um por faixa, talvez. A necessidade da voz vem dos caminhos que ainda não trilhamos em nossa crítica babaca à MPB. Aguarde e verás!


O grupo já tocou no nordeste? Porque aqui tem um público que curte a banda e alguns festivais afins (que poderiam encaixar o grupo). Já aconteceu algum contato?


Contatos, muitos. No entanto, nenhuma negociação evoluiu. Estamos disponíveis e muito interessados em tocar no nordeste. Muito. Sério mesmo.


Existe alguma coisa que eu não perguntei, mas deveria ter perguntado?


Nada especifico, creio eu. Se der pra mencionar que estamos vendendo os discos - Bad Trip Simulator #3 incluído - no site da banda e por nosso e-mail oficial (sataniquesambatrio@sataniquesambatrio.com.br), agradeço muito. Também divulgue os links do bandcamp, facebook  e soundcloud.


Obrigado pela entrevista. Ótimas perguntas!


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6 comentários

  1. Hahahaah! Surreal!

    Bela banda... orgulho nacional.

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  2. Talvez das melhores entrevistas que vi faz tempo

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  3. Valeu james, caso queira ler outras, neste mesmo site tem uma com o Thiago França que particularmente tenho orgulho de ter feito.

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  4. Essa talvez seja a banda mais punk do Brasil. A ironia é que o som deles tá longe de ser punk rock...

    Tapa com luva de pelica no movimento inteiro!

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  5. Muito boa, a entrevista. Se eu não conhecesse a banda, provavelmente me interessaria em conhecê-la. Como ja sou fã, fico feliz pelas informações sobre essa galera obscura.

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