Feijão

por - 14:08

São Sebastião


Chegou da rua ofegante, suando tal qual um pastel de palmito tirado a pouco do óleo. Havia talvez corrido por nada, mas tinha um plano, e ajoelhou-se no chão da sala com a mochila entre as pernas, em frente à imagem de São Sebastião, que ficava em um vão da estante logo abaixo do retrato de casamento e chamou pela mulher.


Ela deixou na cozinha o feijão no fogo e o rádio ligado. Gostava de cantar junto com o rádio enquanto cozinhava. Passava da uma da tarde, veio enxugando as mãos no pano de prato rasgado sem entender muito a razão da euforia do marido, mas logo o entendimento seria posto na luz.


— Anda mulher, vem ver o que eu achei!


— Onde você achou isso? Olhou para a mochila vermelha com ar de desconfiança, mas esperançosa pela metade de um momento, só pelo amor que sentia por ele disse a si mesma em voz baixa que o marido estava convertido, não deveria se preocupar.


— Achei na rua, ora.


— Então abre logo pra gente ver o que tem dentro.


Deslizou rápido o zíper da mochila, e na mesma hora as batidas na porta fizeram tremer todas as madeiras do barraco. Então, conduzindo o olhar até a mulher, ele preparou por dentro dos olhos grandes a armadilha e a conseguiu prender, era agora devoto de São Sebastião, não podia ter cometido falha.


Outras batidas violentas acompanhadas de uma voz branda, quase delicada, pedindo que se abrisse a porta fizeram a mulher tremer. Era ele de novo, querendo o que sempre queria, em seu traje apocalíptico. Os dois projetaram na cabeça a imagem a qual haviam se acostumado e se entreolharam, o mesmo já os visitara outras vezes. Um café como advertência, um almoço sem convite, indiretas quanto a certos comportamentos do homem da casa. Mas nunca os tinha visitado com aquele propósito fixo, que se sentia através das madeiras do barraco.


— Abre a porta, mulher.


— Não, dessa vez não. Tremia como se queimasse em quarenta graus de febre, suando frio.


— Abre o raio dessa porta, porra!


Se fez o rangido pelas mãos da mulher e o homem entrou, carregando nos ombros toda pompa e arrogância que lhe era tão particular.


— A mochila fica comigo, seu marido anda com hábitos muito feios, recorrentes, inclusive. Não posso deixar essas coisas passarem assim. Disse com o cigarro entre os dentes enquanto sentado na poltrona cheia de mofo carregava o tambor do revólver.


A mulher já sabia o que se passava, todos sabiam, mas ela era a única dentro daquela sala que não queria admitir, o amava demais. Saiu da armadilha do marido, tomou a mochila de suas mãos e a entregou ao vampiro sedento sem dizer nada. O marido continuou ali, ajoelhado no meio da sala, olhando pro santo sem o brilho de felicidade que a mochila lhe proporcionara, ou mesmo a esperança que demonstrava na foto de casamento.


Sentado, o homem engatilhou o revólver e o descarregou, Sebastião caiu perante seu homônimo de gesso, e suas flechas eram balas.


O homem se despediu da mulher que chorava tímida com as mãos juntas e dedos entrelaçados embaixo do queixo dando-lhe um beijo na testa. O cheiro do feijão queimando não causara alarde em ninguém. No rádio, lá longe na cozinha, Tim Maia cantava... “E eu gostava tanto de você”...

Você também pode gostar

0 comentários