Lúcidos, sonham

por - 11:08

Saturno_devorando_a_sus_hijos


Durante a sinfonia onírica de jazz o homem escutava um som bem diferente daqueles trompetes. O chiado aumentava a cada nota do saxofone e tomava conta da acústica, tornando-se mais alto que as vibrações das cordas de piano. Uma estridente dor no pé o acordou desses sonhos intranquilos e o homem suava frio, não reconhecendo o ambiente que o cercava.


O chiado ainda era presente e atacava seus tímpanos, a dor se tornava mais pontual. Chutou as cobertas em um impulso e notou o volume que chiava se movimentando por debaixo da colcha. Seu dedão sangrava e molhava a colcha de vermelho escuro, o seu pé se aquecia no líquido espesso. Assustado, ele segurava a respiração no medo de gritar. Mas o medo precisava de uma válvula de escape e todo o seu rosto se contorcia numa mistura de ódio e vingança por aquela criatura que ele prendia debaixo da colcha.


Desabava com os punhos sobre aquela figura macia e esquisita - que tinha o tamanho de seu pé - enquanto ela gania, seu chiado invadindo cada canto de seu quarto, cada poro de sua testa que expelia um suor azedo e insistente. Seus punhos batiam e voltavam pelo amortecimento do colchão, os dentes cerrados mantinham sua mandíbula cristalizada em expressão de dor e desespero até que o calombo debaixo da colcha se tornava uma massa mole, menos sólida e material - era impossível distinguir se a cor vermelha que banhava a cama vinha dele ou do pé do homem.


Seu corpo todo retesado, o homem não sabia mais quem era. Perdeu-se e caiu no vão entre o sonho e a lucidez quando acordou de susto com aquela dor que ainda palpitava em seu dedão: estava em carne, a branquitude do osso iluminava seu rosto. Levantou a colcha para encontrar o monstro, o demônio responsável. Estava quase irreconhecível, mas aquele rabo longo e esguio não podia enganar: era um rato gordo e cinzento que há instantes tentava aplacar a fome.


Acordou pela segunda vez essa noite. Quando deu por si debaixo da marquise da igreja às três e vinte e sete da manhã (apontava o relógio da praça) notou que seu pé já não doía. Estava ensanguentado. Ele segurava, com as mãos em semi-concha, o corpo flácido de uma ratazana de esgoto. A carne lhe forrava o estômago e o líquido quente e salgado escorria pelo canto da sua boca, encharcando sua longa barba de vermelho.

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