Marmita

por - 11:06

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Longa e branca ela se estendia reta pelo chão, correndo vertical. Presa entre o chão e o teto do apartamento ela nunca iria a lugar nenhum. Lisa como uma folha de papel, necessitava cor, mas permaneceria pálida.


Mais um dia, outra marmita de oito reais, morna como sangue de um dente quebrado após um soco numa contenda de bar. Eu falo sincero a quem quer que se proponha a me ouvir, sem voltas nem revoltas, aquela tarde foi tão clara. E meu rolo estava a prumo, firme, lambuzado em tinta esmalte branca, pronto pra rolar macio sobre a parede daquela sala grande, de um apartamento cujo preço custava milhões e milhões de marmitas de oito reais, recheadas de beterraba, feijão, cenoura e carne cozida. Uma rodela de tomate na terça.


Meu sustento dependia do quão habilidoso eu fosse com aquele cabo de vassoura encaixado em um pequeno pedaço de cano marrom que se acoplava a um rolo de pintura. Em anos fazendo isso não me lembro de ter deixado uma única bolha nas paredes que pintei. E essa não foi diferente.


O que acontece é que algo insistia em mim, enfraquecendo um pouco a vontade da última mão. A ideia de que muito provavelmente aquela bela parede tão reta e branca seria encoberta por uma réplica salobra de algum pintor famoso. Fosse um original, eu ficaria em paz, mas uma réplica não era páreo para uma pintura sem bolhas.


Por isso o meu sonho sempre foi ser pedreiro, a obra de um pedreiro jamais é encoberta por nada, a não ser que toda a construção seja derrubada por um tratorista louco.


Falavam muito sobre o modo como eu pintava, mas isso não me animava em nada, eu continuava a fazer o que fazia e do jeito que fazia pra não ficar devendo o aluguel. E a tarde era tão clara, a luz do sol era pesada sobre minha parede enquanto os pedreiros trabalhavam no banheiro.


Na sala, o eletricista e o bombeiro hidráulico conversavam sobre o apartamento enquanto a parede me fitava com gratidão. “Porra, você viu o tamanho do apartamento? Queria descer até a garagem pra ver os carros que esse pessoal deve ter”. Ou ainda, “cara, eu ainda vou ter um apartamento assim, um dia... Vocês vão ver.” Era muita idiotice em tão curto espaço de tempo.


A varanda era bem mais interessante que ouvir aquilo. Era o quarto andar, nem era tão alto assim, mas de lá a vista dava para um bosque enorme, e se eu caísse, minha vertebral seria reduzida a pó.


Seguindo a copa das árvores em direção ao lago via-se o aeroporto, os aviões indo e vindo com as preocupações e compromissos dos passageiros, a loucura disfarçada de praticidade e rapidez do transporte humano. À esquerda, mais prédios fechavam em torno do bosque a selva branca que machucava meu astigmatismo.


Os rapazes continuavam construindo pacientemente seus contos de fada, porque não os tinham prontos para serem reformados. E eu avistei duas pessoas no terraço de um prédio mais ao longe. Elas observavam a decolagem e o pouso dos aviões com o que parecia ser uma luneta. Eram pequenas, de onde eu estava aquelas duas pessoas cabiam entre o meu dedo indicador e o polegar quando eu fechava um olho e aproximava os dois dedos em frente ao que estava aberto.


− Romildo, me passa meu rolo aí, por favor.


− Pra quê, num tem nada o que pintar aí na varanda.


− Mas que merda, homem! Deixa pra lá, eu mesmo pego.


Apoiei o rolo sobre meu ombro e a tinta escorreu pela minha camisa, eu sentia os pingos gelados no pé, atento a tudo de forma tão imersa que podia ouvir nitidamente o “plic” que eles faziam nas minhas unhas e dedos, uma por uma. O rolo era uma espingarda pronta para ser disparada, as vidas daquelas duas pessoas estavam em minhas mãos, seria um único tiro, esperaria pacientemente o momento em que uma cabeça desaparecesse sobre a outra, se sobrepondo como em um eclipse, e usaria uma única bala.


− Que diabos você tá fazendo? Com impaciência e irritação colocadas sem cuidado na voz, perguntou Romildo.


Planejei cuidadosamente um sussurro.


− Cala a boca, homem, senão eles podem ouvir.

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