Mente Vazia Num Ônibus Lotado: o cobrador e as minas

por - 11:08

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Era uma tarde de domingo com sol forte, segundo os relógios de rua: 32ºC, qualidade do ar ruim, 16h22. No corredor, aguardava meu ônibus como quem sabia que ia ficar um bom tempo ali, esperando, e quem nem adiantaria reclamar posteriormente com a SpTrans, afinal, eles fazem os intervalos entre ônibus de modo que agrade os usuários - ou não.


Em meio ao vai e vem de pessoas por ali, surge meu ônibus. Fico feliz e agradeço mentalmente ao prefeito, Fernando Haddad, por não me fazer ficar esperando por cinquenta minutos para que ele passasse. Quando vou subir, duas moças, meninas, com seus 16, 17 anos, saem correndo do ônibus que iam embarcar para subir as escadinhas do mesmo veículo que eu. Ok, pensei, todo mundo quer pegar essa linha mas desiste porque é foda ficar esperando.


Elas subiram antes que eu. Não sei como. Quando fui passar na catraca, uma delas, vestida mais sensual que o clássico "calça apertada, boca de sino, de blusa decotada perfumada e sorrindo", que canta Ice Blue em "Estilo Cachorro", vira e pergunta ao cobrador: "podemos passar as duas pela catraca e pagar uma condução?'. O cara, de meia idade, quebrou a ideia do senso comum e respondeu, com toda ironia do mundo "não, não pode". A mina ficou desesperada. Achou que iria ganhar com a saia, o decote, o cabelo loiro e o sorrisinho malicioso. O cobrador devia amar sua mulher - ou estar com a carga hormonal muito baixa.


Comecei a pensar que as minas estavam sem grana, mas quando pediu pra passar, a outra, falou "é que ela só tem R$ 3". O cobrador, rápido como um gato, retrucou "esse é o preço da passagem". Elas disseram que iam pegar outro ônibus e ele perguntou para onde iam, porque era provável que naquele corredor tinha uma linha com o destino certo. Aí veio a sensação de que aquilo era uma puta migué: elas não sabiam. As ideias começaram a não bater, como em um interrogatório estranhão feito por um policial americano que só tá afim de ganhar a hora extra.


Uma dizia que era para um lugar, a outra, para outro, com uma distância de mais de cinco quilômetros. Chegaram a conclusão que estavam indo para a casa de uma amiga e que ela que tinha dito para pegarem esse ônibus (ou aquele outro, que elas iam embarcar). O cobrador pediu o endereço, elas não sabiam. Falou para elas ligarem para a amiga, elas também não ligaram, ficavam de risinho, dizendo que não dava e não sei o quê. E eu ali, com uma mochila muito cheia, sentado, com um sol na cara e só ouvindo a ideia, pensando que elas não conseguiam dar um bote certeiro, ligeiro e preciso.


Depois de muita conversa, nenhuma ligação e as ideias voltando a não serem as mesmas, elas passaram na catraca. A loira pagou, pelo o que notei. Desceram no mesmo ponto que eu, pensei em ajudar, mas sabe, a mochila estava pesada e eu desci a rua. Fui pra casa tendo a certeza que elas só sentaram na parada de busão pra dar mais migué. Dali em diante nem notei mais nada. O cobrador deveria estar bem feliz e elas, se tudo for verdade e eu estar fazendo um julgamento muito imbecil do caráter alheio, provavelmente ainda estão no ponto, esperando a suposta amiga.


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3 comentários

  1. Compilação do "Mente Vazia Num Ônibus Lotado" para as livrarias faria a viagem no transporte público uma parada fora de série.

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  2. Opa, eu tenho um livro antigo que escrevia, chamado "Memórias de um individuo em um coletivo" ( que deu origem a essa série de posts), quem sabe um dia animo e termino ele.

    hahahahaha

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