"Devia não ter ligado, agora não tenho mais crédito"

por - 15:21

rock in rio


Quase nunca eu faço isso, então acredito que talvez esta seja a hora derradeira. Não a hora em que me redimirei de meus pecados ou a hora em que serei aceito pelo grande público como um grande fanfarrão que não representa ninguém, mas a hora em que me retratarei com você. Eu não devia ter dito que o Rock in Rio é um festival caro e sem relevância nenhuma, tal como não devia ter dito que as bandas são fracas e horríveis por não acrescentarem nada ao nome do festival, que antes podia até ter sido algo relevante e digno da grandeza que todo mundo diz que tem. Ninguém gosta de quem fala coisas óbvias.


Depois de um estressante dia de trabalho, ainda tenho que fazer as vezes de estudante na faculdade da qual curso. O caminho para a mediocridade é uma trilha de cacos de vidro, passando pelo riacho de álcool, atravessando os campos de merthiolate. Quando ia para a sala após toda aquela merda de dia acontecer, peguei um elevador para chegar a minha sala e responder a chamada para poder ir embora o quanto antes. Claro que as coisas não podem ser simples. O elevador lotou. Chato, pois o ônibus que eu peguei também estava. Está sentindo a raiva brotando de seus olhos ao ler coisas óbvias? Porque obviamente São Paulo tem trânsito em todo o lugar, inclusive em lugares que você não imagina.


Voltando ao ponto, no elevador lotado, um ser destoava. Não era eu neste caso. Um cidadão que ignorou todas as leis do “foda-se” e que cantava como se estivesse concorrendo a um papel no novo musical do Rei Leão. Eu estava tão chateado com a situação que ignorei com todas as minhas forças. Mais forte ainda quando ele emendava os falsetes e os vibratos de voz. Uns riram, por achar que estavam numa daquelas pegadinhas do João Kleber, que aliás são sensacionais apesar de terem pelo menos uns dez anos de reprises. “Bem boladas”, ele diria. Uma senhora de idade o interrompeu para elogiar sua voz. Sua cara dizia claramente “se você gosta da minha voz, vou dar mais um pouco dela para você” e fez o inimaginável ao estalar os dedos num ritmo freneticamente irritante.


Uma vez que todos no elevador pareciam contagiados, por bem ou por mal, com o momento musical, fiz o que pude para fingir não estar incomodado com a torrente de bad vibes que estava passando. Ele não tem nada a ver com o trânsito que peguei pra chegar até lá, tampouco com as merdas que tenho que enfrentar no trabalho, muito menos com o fato de terem bloqueado meu cartão após ter errado três vezes a senha ao tentar digitar bêbado na maquininha na sexta feira anterior quando queria comprar paçoca. Fiz um grande esforço e, mesmo podendo ter me passado por uma pessoa constipada ou só mais idiota que o normal, não esbocei reação nenhuma sobre aquilo que o cara estava fazendo. Quando saí do elevador, outras pessoas também saíram. Nem deixaram fechar a porta, desferiram todos os palavrões que conheciam ao Senhor The Voice Brasil.


Aquele foi um momento de aprendizado, afinal de contas. Devemos lembrar que o mundo não é sua bolha e que você tem que dividir o sofrimento com todos os outros, assim como devemos separar bem as coisas e os momentos, das pessoas. O Rock in Rio é um festival comercialmente estrondoso e vexatório em todos os outros aspectos, mas de modo geral, acho que o rapaz cantor no elevador me mostrou o quanto as vezes algo idiota para uns pode ser bacana para os outros. Por isto, devemos respeitar estes momentos, uma vez que eles podem ser importantes nas vidas alheias. Digo tanto que devemos respeitar a opinião alheia que as vezes esqueço de ouvi-la. E é por isto que talvez te deva um pedido de desculpas, amigx que lê o texto. No entanto, você automaticamente vai me desculpar porque eu acho o Rock in Rio uma merda. Mas fim de papo, voltamos à programação normal.


por isso

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