Pulseira

por - 14:06

poesia

Com licença? Ah, olá. Boa noite. Você tem um minuto? Ahn, não, você não me conhece. Não, não estou vendendo nada, só preciso desabafar sobre algo. Eu perdi uma das minhas pulseiras hoje. É, uma pulseira. São dez da noite e eu estou na rua falando com você porque eu perdi minha pulseira, sim. Sabe, eu já procurei por ela em todos os lugares: eu estava no banho quando percebi que ela não estava mais lá. Meu braço tinha uma daquelas marcas embranquecidas dos lugares isolados que o sol não consegue alcançar, como se eu fosse mais branquelo do que sou ou tivesse alguma espécie de doença cutânea. O que eu não tenho, por sinal.


Mas prosseguindo, eu procurei por ela em todo o meu apartamento, e isso não é muita coisa. Então desci até a rua e procurei por todos os lugares em que eu estive. Passei pela casa dos meus pais, dos meus avós, pela minha antiga escola, olhei em baixo de cada uma das carteiras e recorri ao achados e perdidos. Visitei a casa das minhas três ultimas ex-namoradas e a pulseira também não estava lá. Ao menos é o que todas as três me disseram, mas apesar dos pesares, tenho de admitir que elas provavelmente estavam falando a verdade. Foi mais ou menos nesse ponto em que eu decidi ir até a delegacia e fazer um boletim de ocorrência. Porra, você está rindo? Eles também riram. “Uma pulseira, cara? Que merda é essa? Você não tem nada melhor para fazer, ou ela é uma pulseira de ouro?” Respondi que não era uma pulseira de ouro. E não era mesmo.


Era uma daquelas pulseiras feitas a mão, por algum hippie miseravelmente feliz ou alegremente miserável, daqueles que a gente encontrava em quase toda esquina. Eu não me lembro mais do homem que me vendeu a pulseira, e nem me lembro mais se ele tinha barba ou se tinha outras pulseiras. Era uma daquelas pulseiras do reggae, sabe? Daquelas que adolescentes aspirando a qualquer vida que não a deles mesmos usam pra se sentir bem. E sim, eu era um desses adolescentes quando consegui essa pulseira. Você sabe o que eles diziam sobre essas pulseiras e todas essas outras brincadeiras-sérias adolescentes? Diziam que elas podiam lhe conceder desejos. Sim, como um gênio da lâmpada, só que amarrado na porcaria do seu braço. Eu me lembro que comprei umas cinco dessas. Eu tinha quatorze anos, porra. E veja bem: as pulseiras eram adolescentes. Elas não eram pulseiras com desenhos pequenos e coloridos. Já não acreditávamos mais em cor naquela época. Mas ainda assim, como quem passa um segredo por debaixo do pano, nós nos deixávamos acreditar nos desejos que elas poderiam realizar. Se você me perguntasse antes se eu realmente esperava que eles se realizassem, eu te diria : “É claro que não, porra!” Mas a pulseira estava ali.


No início, eu podia usar a desculpa de se tratar de um acessório de moda. Em pouquíssimo tempo aquelas coisas saíram de circulação e eu já não tinha mais desculpas; inventei que era vintage. E por malditos 8 anos aquela porcaria de pulseira se grudou ao meu braço. Sem saber, eu acreditava cada vez mais nela. Ela enfrentou fogo e água, fumaça, facas, sangue, unhas vindas dos mais variados tipos de dedos e até mesmo dentes: a desgraçada nunca arrebentou. Sem arrebentar, não havia realização de desejos, e assim eles foram se amontoando no limbo das coisas que nunca foram. E assim como um som repetido durante toda a eternidade discretamente no fundo do seu ouvido pode vir a se tornar familiar e inaudível, eu passei a me esquecer que a pulseira existia. Ela havia se tornado tão esperada quanto a minha pele ou o pôr do sol que eu via pela janela no fim da tarde.  Ainda assim, eu tinha a certeza escondida de que ela estava lá; ninguém olha pro pé de cinco em cinco minutos pra conferir se ele está no mesmo lugar, certo? E talvez por essa confiança inabalável na sua existência, ela tenha durado tanto tempo.


A droga da pulseira durou mais que qualquer cigarro, porre, noite ou relacionamento que eu tenha tido em toda a minha vida. Se eu for parar pra pensar, até as células do meu corpo foram embora nesses sete anos; a pulseira era mais eu do que eu mesmo. Ahn? O que? Ah, eu agradeço muito a sua atenção e preocupação comigo. Eu adoraria voltar para casa, entenda; mas eu já não posso. Veja bem: às vezes nós não damos valor suficiente à adolescência ou a qualquer outra dessas fases de travessia.  Nesses momentos de tensão extrema, em que a gente não sabe bem quem é (e talvez queira ser todo mundo ao mesmo tempo) a gente acaba por guardar o pouco que já é em algum lugar escondido, secreto, só por segurança. Você não imagina o quanto as pessoas colocam das suas almas em promessas e sonhos. Não, eu não sei mais onde é a minha casa, ou qual o meu nome, ou quais foram os nomes dos amores que eu amei. Ah, tudo bem. Eu entendo. Sim, um cigarro ajuda. Não guarda sonho nenhum, mas a fumaça dá uma vontade boa de dormir. Com licença? Ah, olá. Boa noite. Você viu uma pulseira por aí?

Você também pode gostar

0 comentários