Serviços noturnos de um tabelião

por - 11:08

Daily Life Stories


Todo dia era a mesma coisa, apenas diferente. Você não entendeu, né? Bom, vou tentar explicar melhor.


Todo dia ele evitava voltar para casa, largava religiosamente às seis da tarde do cartório no centro da cidade, onde passará os últimos 15 anos de sua vida. Ele esperava o relógio central marcar 18h, arrumava sua maleta, guardava seus papeis na gaveta e passava a chave, conferindo depois se realmente a gaveta estava trancada. No início, não se preocupava em sair às 18h em ponto, sempre fazendo um pouco mais do que deveria, a ideia era mostrar serviço. Passado alguns anos, começou a esperar ansiosamente o bater o ponto, para poder sair de lá o mais rápido possível, mesmo que ainda trancasse a gaveta e conferisse se estava tudo certo. Hoje ele não faz mais questão de correr, faz tudo com calma e de forma tranquila, normalmente saindo pela porta da frente e desejando boa noite para o porteiro cerca de 15 minutos depois do encerrar do expediente.


Às 18:15, o céu já estava escuro no centro da cidade, que era iluminado por postes de luzes precários mantidos pela prefeitura, além de todos os farois de ônibus e carros que se acumulavam em todas as vias, parados, esperando o nó do trânsito se desfazer. Era tudo muito caótico para ele, olhava na direção da principal, do ponto de ônibus e via uma multidão se amontoando e tentando de qualquer maneira entrar nos lotações que já nem conseguiam fechar suas portas. Ele não fazia isso, ele não tinha pressa para chegar em casa.


Em vez disso, se dirigia ao boteco que ficava atrás da rua do cartório, onde não precisaria ver aquela confusão de homens e máquinas, nem se quer ouvir o barulho de buzinas. Não que o bar fosse silencioso, mas os bregas antigos e boleros tomavam conta do espaço em que não se ouvia nada além de músicas e das falas dos presentes. Ele mesmo, vez por outra se pegava falando com um estranho no balcão, sobre como tudo mudara em dez anos. Duplicara o número de ônibus, a quantidade de pessoas triplicará, enquanto a de carros, estes era impossível saber por quanto foram multiplicados e além deles, hoje ainda temos diversas motos, pessoas de bicicleta, patins, skate (palavra que aprenderá a falar corretamente outro dia), e os apressados andando sem parar pra nada.


Preferia o bar, de maneira metódica como quase tudo em sua vida, pegava uma mesa ou um espaço no balcão por volta das 18:30 e não saia de lá até ser expulso, por volta das onze e meia da noite. No molho, predominava a cerveja, mas existiam dias para o uísque, o conhaque (este sempre com o alcatrão, dupla infalível), a cachaça e porque não, vodka. Sempre que saia do bar, lembrava-se dos dois ônibus que precisava tomar para chegar na sua morada e que provavelmente precisaria do famoso “bacurau” das madrugadas. Nunca pegava os coletivos da avenida principal, muita gente (mesmo tarde), muito barulho (não existem vizinhos no período da noite). Sempre saia para o lado contrário e pegava as mesmas duas linhas, onde já era o conhecido bebum da meia noite, menos nos dias de uísque e cachaça.


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Os dias de uísque e cachaça eram sempre os piores, se nos outros dias se bebia para esquecer, a ponto de chegar em casa e apagar, nesses dias era diferente. Nestes dias, ele ficava aceso, ligado em tudo no bar e fora dele. Quando era expulso, pegava linhas de ônibus completamente diferentes, tentando sempre ir parar no terminal mais distante. Chegando lá, esperava o da madrugada para retornar ao centro, e acontecia metodicamente a mesma coisa. Entrava no coletivo vazio, mas não antes de ver seu interesse adentrar. Molhava a mão do cobrador e do motorista e acontecia o mesmo papo, só mudava a vítima.


A última foi uma morena grande, com uma saia até as coxas, carnuda (talvez um pouco demais, mas quem liga?). Sentava-se próximo a ela, sorriso no rosto (sabia ser simpático), depois de um tempo de papo legal, quando estavam apenas os dois próximos ao centro da cidade, soltava que iria cochilar lá atrás um pouco e se quisesse conversar, era apenas ir pra lá. Em 90% dos casos, conseguia fazer a moça ir lá para trás. Voltavam a conversar, um cara bom, falava da família, ouvia as lamentações, e quando menos a jovem esperava, ele já estava passando a mão entre suas pernas, a moça tentava tirar, mas ele sempre era mais forte. Mesmo agora, aos 40 anos, continuava sendo mais forte. Nesse momento, o motorista aumentava o som e o cobrador apenas olhava de soslaio. A morena gritou, ele fez que não ouviu. Enquanto o velho virava a moça de costas, subia sua saia, já tirando sua calcinha e revelando a enorme bunda. Não existia preliminares, ele tinha 10 minutos até o ponto final e não precisava de mais que isso.


Depois disso, as ameaças aconteciam, falava em vídeo no ônibus, que iria mostrar pra todo mundo, que o filho dela e o marido iriam ver e que no fundo ela tinha gostado. Nesse dias aconteceu uma coisa diferente, enquanto falava de maneira até ensaiada a morena encheu sua mão na cara dele, que apenas riu e foi embora. Normalmente acontecia sempre da mesma maneira, fora o tapa. Na semana passada foi uma estudante loira, que estava um tanto bêbada e não apresentou muita resistência, mesmo chorando. Depois disso, ele pegava seu transporte para casa, onde sua mulher esperava dormindo, quando não estava fogosa, mas nunca rolava nada.


Não por conta dela, mas ele não conseguia ter ereção. Independente do dia, mesmo quando bebia cerveja ou vodka, ele nunca conseguia. Não era falta de amor, ele tinha absoluta certeza que amava aquela mulher, apenas não funcionava. Seria a cama? Seria o quarto pequeno? Ele sempre achava que a culpa era dela, pela pressão imposta para que seguisse no emprego e trouxesse o sustento para ela e o filho, agora chegando à adolescência. E todos os dias ele bebia, pelo menos duas vezes na semana eram dias de uísque ou cachaça, variava com seu humor ou quantidade de dinheiro que tinha no bolso de sua calça social.


Dez dias depois, saindo do bar cheio de cachaça na cabeça, acabou indo parar em um novo terminal, que ele não conhecia. Nele, viu três garotas em paradas de linhas diferentes. Eis a enorme vantagem de ir para o centro, praticamente todos os transportes passavam por lá, independente do caminho a percorrer. Escolheu uma branca, de vestido longo, que aparentava ter a idade media entre as outras duas. Parecia um ator, tudo ensaiado, dificilmente um cobrador ou motorista não precisava de um troco a mais. Trocava sorrisos com a moça, conversava sobre a família - essa era de igreja -, mas foi para trás do coletivo mais fácil que as outras. Quando a mulher percebeu, tentou fugir e pedir ajuda, mas de maneira tímida e chorosa. Ele resolveu que iria comer esta com seu vestido, apenas tirou a calcinha (que inclusive, resolveu guarda em sua mala) e a colocou para cavalgar sobre ele. Percebeu nesse dia que ambos gozaram, e que a moça fizera isso em meio a orações. Achou interessante. Não as orações, mas o fato de que em 10 minutos a moça passou da tensão à excitação extrema, coisa difícil de acontecer para ele.


Depois dessa, vieram outras tantas, outras linhas, outros motoristas, gozos e expressões. Boa parte de suas escolhas eram mulheres jovens. Vez por outra alguma mais madura, mas nada que chegasse a idade de sua mulher, e assim seguia sua vida.


Numa noite de uísque, quando completava quarenta e dois anos, escolheu uma morena alta, carnuda ao estilo mulata de carnaval. Adentrou o automóvel, trocou olhares, molhou as mãos que precisava e começou o papo. Ela estava indo trabalhar, fazia pouco tinha sido deixada pelo marido, que também levou o filho. Ele foi bastante educado, solicito, ouvindo e comentando que tudo iria melhorar, até soltar a bravata do cochilo na parte de trás. Ambos foram, viu que ela o seguia com sua saia solta até o pé, via todas as curvas e se excitava ainda mais.


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Chegando na traseira do coletivo, ele começou a cochilar em seu ombro e quando tentou um movimento pelas pernas dela, foi imobilizado rapidamente pela dona. Ela perguntou então se ele não lembrava, e que por conta da atitude dele perdeu o marido e o filho. Ele, bêbado, realmente nem cogitou que estaria repetindo a vítima e pensou estar encrencado. Foi quando ela acabou o discurso e disse que se ele quiser, tem que ser direito, numa cama. Ele ficou surpreso, mas aceitou o presente. O centro se aproximava e desceram em frente a um dos motéis baratos. Ela ainda disse que ele foi uma das melhores transas da vida dela e que até hoje se masturbava pensando nele.


Chegando ao quarto do motel, ele radiante com o “presente de aniversário” que o destino lhe reservará. Ela, completamente excitada, já agarrando ele antes mesmo de fecharem a porta. E foi na hora do “vamos ver” que “o junior” não funcionou. Frustração total para ele, revolta total para ela, que entre outros nomes o chamou de sádico e viado, além de tapas e demais agressões físicas, antes da moça deixar o quarto ainda se vestindo.


Após se recompor, mesmo que ainda completamente frustrado, ele se levanta, paga o quarto e sai para as ruas do centro à noite. Para no primeiro boteco e pede três doses de cachaça que bebe virando em sequência e retorna ao ponto de ônibus, completamente zonzo. Entra no ônibus que o levará ao seu destino, pensando que essa noite estaria acabada e dormiu até chegar no terminal. Lá, ele toma mais cachaça, começando a trocar as pernas e pega o ônibus que o levaria até em casa. Quando avista (de forma embaçada) uma dona de vestido longo na frente do coletivo. Logo relembra do ocorrido e desiste de qualquer contato, partindo diretamente para o fundo do veículo, querendo realmente dormir.


Ainda cochilando, começa a sentir um formigamento cada vez maior em sua região íntima, ao abrir os olhos, a mão da dona já se encontra dentro de sua calça e a boca dela em direção ao seu mastro. Não consegue reagir antes dela engolir seu pau por inteiro e sugá-lo em ritmo acelerado, até que ele atinja o gozo e o mande direto pela goela da mulher. Ainda gemendo, vê a mulher erguendo o vestido já sem calcinha e começar a encaixar o membro dele (um pouco flácido) dentro dela. Com o rebolar, percebe que seu pau enrijece rapidamente, demorando cerca de 10 minutos para que ambos cheguem ao gozo juntos. É quando ela diz ao pé de seu ouvido: “feliz aniversário, meu amor!”. Neste momento sua vista volta e percebe que está sendo abusado por sua mulher, a mesma a qual não tocara nos últimos quinze anos.


No segundo seguinte ele percebeu que ainda estava ereto, com sua mulher no colo, motorista, cobrador e o único passageiro além dos dois, cantando parabéns para ele. Tudo estava em seu devido lugar e como deveria ser.


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