Sete de Setembro

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Carlos acordou de um susto às seis e meia da manhã. Sua esposa o beijou num misto de preocupação e sonolência perguntando se havia sido um sonho ruim. O beijo seguinte foi mais apertado e desperto, e Carlos sorriu fracamente enquanto coçava os olhos e o mundo entrava em foco. “Feliz aniversário, pai!”, disse o moleque que rastejou vindo de lugar nenhum até se empoleirar no seu pescoço. O calendário comentou que era sete de setembro. O tempo passava rápido demais, e às vezes Carlos tinha dúvida sobre a sua capacidade de parar e pensar sobre tudo que já havia feito. Será que a vida lhe valia a pena? Por ventura qualquer, o tempo passava, o relógio tocava e ele se deixava levar, como um projétil em movimento, em inércia. Sua casa não era muito grande, nem sabia dizer mais se ainda amava sua mulher. Aprendera que a amava, e aprendera que batalhara muito por aquele teto que podia chamar de seu.  Na vida,  tudo pode se aprender. É uma pura questão de foco e instinto. Coragem. Sempre admirara a coragem e, independente de qualquer resto, os olhos daquele moleque sorriam um valor maior do que qualquer desejo que Carlos pudesse ter. Seu filho tinha cara de esperança. Era sábado.


Saiu de casa para o trabalho e lamentava lembrar-se de que era fim de semana. Não gostava de feriados no sábado, mas tinha uma paixão antiga pelo Sete de Setembro. Uma paixão grande o suficiente para que conseguisse sorrir um riso sincero para as pessoas que encontrava na rua a caminho do serviço. Não era uma questão específica do significado do feriado; por mais que tivesse aprendido ainda na escola o que era o dia da Independência, nunca realmente sentira o que aquilo significava. O sentimento que tinha do Sete de Setembro não tinha nada a ver com o país, ou com a história dele. Era a lembrança dos desfiles que assistia com seu pai, tantos anos atrás. Enquanto dava bom dia às pessoas nas ruas, se lembrava das pessoas sorridentes amontoadas ao seu redor em tons de sépia;  o medo de tanta gente e ele próprio, pequeno, agarrado ao braço forte do seu pai. Porto seguro. E aquele mar revolto se abrindo de repente na frente dos seus olhos à medida que o pai o guiava até a grade: o desfile lá na frente, as pessoas acenando e sorrindo, pulando e dançando junto à banda que marchava e aos homens fardados. As fardas limpas e bem passadas, os cabelos cortados e a expressão jovem de orgulho em todos os rostos. Puxava a mão de seu pai e lhe perguntava: “o que é a Independência, pai?”. O velho resmungava algumas palavras, e dava um abraço ao filho. Não sabia explicar o que o dia significava exatamente, assim como a maioria das pessoas ali não sabia. Ninguém era o estado, e a independência de cada membro daquele povo se construía no trabalho suado que eles faziam em dias que não eram feriados. A inércia infantil ainda lhe era inocente, e Carlos aprendeu a amar o Sete de Setembro por um motivo simples: as pessoas lhe pareciam felizes.


Trovejava quando entrou em sua sala e encontrou seus colegas. Todos estavam sérios e andavam de um lado para o outro, agitados. O ambiente cheirava a suor e medo. Seu estômago revirou-se quando o rádio tocou e seu chefe atendeu. A movimentação se tornou mais intensa à medida que os outros homens se vestiam e se preparavam, ouvindo as ordens. “Tudo baderneiro filha da puta!”, “Vamo fuder essa playboyzada!” gritou um último enquanto Carlos acordava mais uma vez de suas memórias. Lhe incomodava fortemente a aura pesada que se formava naquele dia. Ele fora capaz de internalizar o aprendizado de diversas coisas. Aprendera a entender a violência, a ordem, o silêncio e o “não” duro, seco. Achava um tanto quanto mágico esse poder que a mente humana tinha sobre o corpo. Gostava de ser capaz de se calar. Devidamente preparado, colocou seu quepe e seguiu os colegas em direção ao carro.


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O veículo enorme disparava como uma bala pelo centro da cidade. Carlos, sentado no banco de trás, olhava para a janela como uma criança. Haviam escolhido um trajeto que não passava por perto da região onde acontecia o desfile – aquela não era a sua área – e admitia que lhe incomodava o silêncio naquele dia. Seus colegas gritavam, irritados, furiosos, pedaços de carne transcendentes numa catarse triste, desmotivada.  E esse barulho, a sirene acesa e paranoica, e o bater descompassado do seu coração não faziam jus à memória da fanfarra militar que fazia o povo sorrir na sua infância.  Depois de alguns minutos, estacionaram o carro e continuaram a pé. Não chovia, mas o céu tomava a cor de um cinza tão escuro que quase se confundia aos prédios enormes que formavam o corredor silencioso pelo qual passavam. O peso do seu corpo grande parecia cada vez mais insuportável com o silêncio, até que o som distante dos tambores chegou aos seus ouvidos. Seu coração rapidamente entrou no compasso que se aproximava aos poucos e a excitação se transfigurava aos poucos em alegria à medida que as músicas se faziam ouvir. Como carnaval no meio do caos, os vultos jovens se aproximavam no horizonte torto em enormes números. Carlos começou a correr e entre seus suspiros ofegantes, nasciam sorrisos. O mar de gente ali estava, cem metros à sua frente, e ele pulsava e cantava, tão vivo e esperançoso como nos seus sonhos infantis.


Quando finalmente chegou à distancia que lhe permitiria ver seus rostos, percebeu que estes estavam cobertos. O desfile não era carnaval; era guerra e cortejo fúnebre. O ribombar dos tambores pouco resistiu ao som duro das balas que cortavam o ar e quebravam o andamento das canções, e as valsas carnavalescas se transformaram em hinos de ódio. Seus colegas seguravam as armas com uma intensidade doente, como se tentassem transferir suas dúvidas para as balas. Carlos não entendia o que acontecia ali. Os gritos de dor e as gotas de sangue substituíram os sorrisos e vivas, e o barulho era alto demais para ouvir a fanfarra da sua infância. Carlos corria e tentava fazer com que todos se calassem, tentava ouvir a fanfarra alegre por trás de todo aquele ódio e solidão. Não entendia onde estava a fanfarra e atirava suas balas ao léu enquanto tentava também expulsar as dúvidas que surgiam rapidamente em sua cabeça. Balas em inércia, balas de esquecimento, balas catárticas da sua própria ignorância. Em minutos, o mar de gente se desfez à sua frente, como se Carlos fosse o próprio Moisés; mas dessa vez, não havia braço de pai que lhe puxasse, nem fanfarra que tocasse ou rosto que sorrisse. O barulho infernal do grito surgiu de um vulto atrás dele, quase ao mesmo que a explosão da bala de sua arma mirada instintivamente na cabeça do vulto, da forma fria que aprendera a aprender. Os olhos do rapaz caído ao chão na sua frente pareciam chorar, embebidos do sangue, mas isso não impediu que o corpo de Carlos fosse ferido pelas palavras que o rapaz soltava junto aos gritos de dor. “Por quê?”


Os colegas de Carlos retornaram para a viatura. A rua vazia sangrava silêncio. Carlos entendeu que não poderia se forçar a ter coragem, nem se coagir a sentir a felicidade ou o amor. A cidade morria e as balas presas nas paredes dos prédios haviam quebrado a inércia inicial; Carlos não sabia de nada.


Carlos acordou de um susto às seis e meia da manhã do dia seguinte. Era domingo e sua mulher não lhe disse nada. O policial não foi capaz de olhar seu filho nos olhos naquele dia, mas haveriam outros dias, nasceriam outras fanfarras.  O rosto meio coberto do rapaz caído sobre o asfalto tinha cara de esperança.

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