Um papo sobre arte com Paulo Borgia e Rafael Passos

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Borgia e Passos Topo


Essa espécie de coluna, já que estamos na segunda (leia a primeira), está sendo uma experiência e tanto para nós! Nela, resolvemos convidar os artistas que desenvolveram capas para as coletâneas do Hominis Canidae (veja todas as artes aqui!) ao longo dos nossos quatro anos de existência para um papo. Além de fazer desse conversa um espaço para divulgar mais o trabalho e as ideias dessa galera, esse é também um belo exercício de pensar perguntas voltadas para o universo das artes visuais (somos mais acostumados a fazer isso com música). Desta vez escolhemos dois parceiros que realizaram artes para nós utilizando a fotografia, ambos tiram fotos normalmente no dia-a-dia, mesmo que apenas um deles se diga profissional e realmente fotógrafo. Fizemos perguntas distintas para ambos e algumas idênticas, em podemos perceber algumas diferenças no modo de pensar dos camaradas, que não se conhecem.


O paulistano Paulo Borgia é jornalista de formação e fotógrafo por paixão. Paulo brinca de tirar fotos desde os idos tempos de criança, quando crescido, se arriscava em shows por diversas cidades do interior de São Paulo registrando momento de diversos artistas ao vivo. Atualmente está montando com a Bea Rodrigues e o Oswaldo Cornetti o coletivo Zebra, voltado para fotografia e em breve veremos esses trabalhos por aí.


O paraibano Rafael Passos já é velho conhecido aqui do site, já postamos sessões com fotos feitas por ele de diversos festivais do nordeste, como o Festival Mundo (de João Pessoa) e os pernambucanos Abril Pro Rock e Coquetel Molotov. Rafael hoje em dia faz da fotografia o seu sustento, inclusive participando e ganhando concursos no estado da Paraíba.


Sem mais apresentações, segue o papo numa edição louca.


Quando você se viu fotógrafo? Ou trabalhando com algum tipo de arte visual? Você tem alguma formação técnica?


Paulo Borgia: Cara, eu sempre gostei de foto, desde menino mesmo. Meu pai é engenheiro civil, mas um ótimo fotógrafo amador. Nós viajávamos muito e ele sempre levava sua Minolta pendurada no pescoço. Isso me inspirou de algum modo. Ganhei minha primeira máquina com 12 anos. Uma Kodak basicona, só pra brincar. Depois de uns anos desencanei dela, e então voltei a tomar gosto pelas fotos quando entrei na faculdade, aos 20 anos. As aulas de fotojornalismo ativaram em mim algo esquecido e então fui atrás de uma nova máquina, uma Pentax K1000 – a máquina mais usada em faculdades de jornalismo em todo o mundo. Apaixonado por música desde sempre, comecei a fotografar shows. O primeiro foi do Rappa, em Taubaté. Fotos desastrosamente escuras, mas não desanimei. A partir daí comecei a cobrir shows de bandas independentes, coisa que faço até hoje.


Não tenho nenhuma formação técnica. Aprendi alguma coisa ou outra na faculdade, mas o que sei hoje foi na raça. Também não tenho muito saco para ir atrás de referências, ou me inspirar em alguém. Sou muito fã do Glenn E. Friedman, o "quinto elemento" do Fugazi, mas não uso suas imagens como inspiração. O que quero dizer é que não sou bitolado em ir atrás de novas técnicas ou saber o que os outros fazem. Faço o que faço, do meu jeito e pronto. Isso tem os dois lados, o bom e o ruim. De um ponto, mantenho meu estilo, sem interferências. De outro, perco por não me aprofundar mais no assunto e, talvez, melhorar minha técnica e conhecimento. Mas enfim, isso pode mudar com o tempo. Apesar de não ir muito atrás das novidades no campo da fotografia, sou aberto a elas – desde que cheguem a mim sem que eu precise correr atrás. (Risos)


Tu falou em arte visual. Pois é, isso é algo que penso direto e acaba sendo uma frustração. Gostaria de desenvolver algo mais artístico, mas ainda me vejo muito limitado. Talvez por falta de tempo, ou paciência, mas não consigo desenvolver algo que fuja um pouco do padrão estético da fotografia. Fiz algumas tentativas, mas nada muito interessante. Mas não desisti. Ainda penso em fazer algo meu, do meu jeito, solto.


Li que você começou a trabalhar e estudar fotografia por volta de 2007, quando saiu de um trabalho em uma loja de eletrônicos. O que te levou pra fotografia? Você tem alguma formação técnica?


Rafael Passos: Não sei o que me levou, entrei naturalmente no mundo da fotografia. Fui sendo convidado por amigos pra fazer os mais diversos trabalhos fotográficos e fui me descobrindo e descobrindo a fotografia. No momento estou concluindo Comunicação Social, habilitação em Rádio e TV.


Mas explica essa saída da loja de eletrônicos para fotografia, porque não se vê uma ligação clara. Como se deu o processo?


Rafael: A eletrônica era meu trabalho. Quando fui demitido comprei minha primeira câmera reflex. O contato que tenho lembrança com fotografia foi na adolescência. Tentava comprar com frequência revistas de surfe, de skate e de música. É o contato que tive com a fotografia.


Hominis Canidae #7


Mas não seria também a fotografia um tipo de arte visual? A capa que você fez pra nossa coleta poderia ser um exemplo, não? De onde veio a ideia da capa lá?


Paulo: Acho que me expressei mal. sim, é um tipo de arte visual, mas o que faço não é tanto abstrato quanto eu gostaria de fazer. Faço fotos, mas não sei se por cobrança demais comigo mesmo, sinto que ainda não é suficiente. Sei que fiz boas fotos nesses anos todos, mas falta algo que as pessoas vejam e falem: essa é do paulo borgia. sacou? Ou essa arte abstrata (foto ou manipulação de imagem) é do borgia. Sinto que falta uma identidade maior.


A capa foi uma arte um pouco fora do meu padrão. Nem posso dizer que foi abstrata, não é, mas vi nela uma possibilidade de passar uma sensação relacionada a coletânea do Hominis Canidae. Eu queria poder fazer mais isso com mais naturalidade. A ideia da capa foi sem querer, na verdade. Quem está lá é minha ex-mulher. Um dia ela estava trocando de roupa no quarto, de costas pra mim, praticamente do jeito que está na capa. Pedi para ela parar do jeito que estava e fazer alguns movimentos com os braços. Movimentos lentos. Ela colocou a mão na orelha, boca, cabeça e fui clicando. Vendo as fotos depois senti que uma delas serviria pra capa, e foi.


Você fala com relação a deixar uma marca né? Criar uma espécie de padrão fotográfico que te caracterize. Falando nisso, você faz parte de um grupo que faz fotos de shows, o We Shot Them! Pode ser viagem, mas eu consigo ver uma identidade dentro do grupo, fale um pouco sobre ele.


Paulo: Na verdade fazia. O grupo se dissolveu após, uns 3 anos de parceria. Foi uma dissolução pacífica. Somos amigos, numa boa, mas estávamos pouco ativos e isso poderia se tornar prejudicial para um grupo com cinco pessoas. Quem sabe não fazemos algo novo mais pra frente? Como você disse, havia sim uma identidade dentro do WST. A principal dela é a de que priorizávamos bandas independentes em nosso repertório. Fora isso, cada um tinha seu perfil: uns com imagens com mais efeitos, outros com mais movimentos, outros mais clean (meu caso, acho). Fizemos muitas viagens juntos, algumas furadas, mas valeu a pena. Temos um material vasto e muito bonito ali. Até pensamos em fazer um livro desse período. Quem sabe...


Crescemos nesse underground. Vivemos grudados nas bandas, nos perrengues, bebedeiras, frios, farras e, claro, nos muitos momentos de "que merda tô fazendo aqui?". De algum modo isso é um pouco punk, não?


Hominis Canidae #9


Sei que você tira fotos fora do ambiente da música ou cultural. Tanto que a arte que você fez pra nossa coleta foi com uma foto de um senhor com uns cachorros. Aquilo foi no centro? Explica a ideia da capa que você mandou pra gente.


Rafael: Aquilo foi na comunidade Porto do Capim, centro de João Pessoa. Lugar onde nasceu a cidade. Lugar representativo. É muito próximo onde acontece a cena independente de João Pessoa. Essa foto da coleta foi tirada durante uma sessão de fotos da banda Rotten Flies. Então como rolou esse encontro achei que ela cairia bem como capa de uma coletânea musical.


Mas aquela foto tem alguma coisa ligada ao Rotten Flies? Explica essa ideia de fazer fotos fora do âmbito cultural, li até que você tem uma ideia de um livro de fotos, como seria isso?


Rafael: Não tem nada haver. A ligação é por ter sido no dia da sessão. O carro que aparece na capa do disco "Rota de Colisão" foi feita em frente a barraquinha do senhor com seus cachorros. A ligação é essa.


Tento me sustentar com as minhas fotografias. Banco de imagens, concursos, exposições, etc. Procuro ficar ligar nos editais. É uma forma de viver da fotografia. A ideia do livro tá amadurecendo. Quero deixar um trabalho relevante sobre a cena independente em João Pessoa.




[caption id="attachment_22193" align="aligncenter" width="640"]Rafael Passos: foto sem titulo, ganhadora do prêmio SESC PB 2012 Rafael Passos: foto sem titulo, ganhadora do prêmio SESC PB 2012[/caption]

Pra ser um bom fotógrafo você acha que é importante ter talento? No sentido de "dom", nasceu para aquilo, etc. E como você não fez curso (de fotografia), sente falta disso?


Rafael: Não sou muito crente em talento ou dom. A fotografia como qualquer outra atividade pede muito esforço, estudo, pratica. Se não tiver isso o talento não aparecera, nem o dom.  Sinto necessidade de muitas coisas. Vou correndo atrás. O estudo tem que ser frequente incessante.


Paulo: Acho que sim. O talento é o que diferencia o grande fotógrafo dos medianos. Acho que esforço e disposição pra crescer contam muito, mas sem talento esse cara só vai ser bom e não "O cara". E outros têm talento e não sabem usar, acontece. Eu não sei se tenho talento. Mesmo. Talvez eu seja os do que não sabem usar, ou só sou mediano. Não me acho ruim, mas ainda tenho muito o que aprender e crescer. Talvez me dedicando mais, me apaixonando mais pela fotografia, pela arte, solta e sem comprometimento. Sem pressão por julgamento. Não sinto falta exatamente de um curso, mas de mais dedicação mesmo. Acho que é possível aprender sozinho e sou um exemplo disso. Faço o que faço porque aprendi na marra, mas sempre dá pra melhorar.


Hoje em dia, com a popularização da fotografia, qualquer um se diz fotografo, liga a câmera e coloca no macro e sai se achando o artista do dia. Como você vê esse processo? O que você acha disso?


Paulo: Rapaz, vou te dizer, não acho nada. Claro que tem muita gente que acha que faz muito mais do que realmente faz, mas até aí, cada um na sua. A pessoa tem liberdade para criar/fazer a partir dos seus conceitos e não tenho como julgá-la. Posso não gostar do que uma pessoa faz, e isso acontece muito, mas os métodos usados não me interessam.


Acho, na minha ingenuidade, que a gente sabe quando a arte é feita com a alma, no conceito mais brega que você possa interpretar. E isso vale muito mais. Como disse lá no começo da conversa, não sou fotógrafo, mas vez ou outra, eu me arrisco a fazer umas fotos. Volta e meia acerto a mão, em outros casos erros pacas, mas faço com dedicação. Se eu gosto, já é um grande passo. As pessoas gostarem ou não, é outra questão e que não deve interferir no rumo de uma criação.


Rafael: A câmera fotográfica é apenas um equipamento eletrônico, mecânico, descartável. O que torna uma pessoa fotógrafo é a sua demonstração de um olhar com a câmera sobre determinado assunto. Existem inúmeras opções de uso da fotografia.   Esse mundo de Instagram, redes sociais de fotografia servem para disseminar ainda mais a fotografia. Isso é bom para quem faz diferente. Boas fotografias vão se sobressair diante de um turbilhão de imagens.




[caption id="attachment_22194" align="aligncenter" width="425"]Karina Buhr pelas lentes do Paulo Borgia Karina Buhr pelas lentes do Paulo Borgia[/caption]

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