Volcano Choir - Repave

por - 11:08

Repave

Repave

Volcano Choir

Jagjaguwar (2013)

Encontrar
Site Oficial

É altamente curiosa (e um tanto mágica) a forma como as questões e dilemas culturais de uma sociedade ou de qualquer grupo determinado se apresentam frequentemente como analogias de outras questões encontradas em outras esferas da vida social. Pensando nisso, eu gostaria de falar um pouco sobre a música experimental. Essa noção de vanguarda, de experimentação e de entrega – sempre me tirou do sério a coragem das primeiras tentativas das pessoas de reinventar as coisas – é um dos pontos que move a este "estilo", e ao mesmo tempo, a criação artística como um todo. Foram esses valores, ainda que imaginados por mim, que me trouxeram a paixão por música e, portanto, o experimentalismo tem um espaço especial no meu coração. Dessa forma, eu me sinto especialmente incomodado com a relação desse tipo de som com o grande público e consigo mesma: tenho a impressão de que o experimentalismo existe como algo "para poucos" e corre o risco de se deixar perder dentro dos seus próprios clichês. Não se trata de uma questão de fama ou reconhecimento; entendo que arte não deve ser feita pensando na sua divulgação, mas sinto um aperto no peito quando imagino no número de pessoas que não vai sentir e pensar coisas novas, movidos pelo que essa área menos acessível da música tem a oferecer. É nesse ponto que eu pretendo introduzir Repave, o segundo álbum do supergrupo Volcano Choir, lançado neste mês.


Antes de qualquer coisa, as apresentações que podem se fazer necessárias. O grupo é formado pelos músicos Jon Mueller, Chris Rosenau, Matthew Skemp, Daniel Spack, Justin Vernon e Thomas Wincek, ou de modo mais facilmente reconhecível, por músicos do Bon Iver, Collections of Colonies of Bees e All Tiny Creatures. Os nomes são todos relacionados aos mais recentes “hypes” da música instrumental, experimental e - no caso específico do Bon Iver – do folk pop. Justin Vernon é um desses caras que surge no lugar certo, no momento exato; For Emma, Forever Ago , seu primeiro disco, foi incrivelmente bem aclamado pelo público no mundo inteiro, e daí pra frente sua história se tornou cada vez mais conhecida. Me espanta de uma forma agradável o nível de aceitação do seu som, e quanto ele se disseminou em públicos que geralmente não digerem muito bem o folk mais seco. Pode-se chegar à conclusão clara de que os elementos pop do seu trabalho foram essenciais para a febre que o Bon Iver se tornou. Mas como todo trabalho musical consolidado, surge uma identidade. A restrição de um artista a um ou dois estilos é perigosa, mas nota-se que essa é uma tendência.


Pensando nesse background, é fácil imaginar que o Volcano Choir tenha tido esse papel de fuga de uma rotina musical quase inevitável. Sem o peso do nome Bon Iver nas costas, Justin Vernon parece se sentir mais livres para experimentar, principalmente acompanhado de músicos tão vividos no que se trata de inovações. O nome do primeiro disco do grupo, Unmap, só parece reforçar esse sentimento: os marmanjos se encontram livres pra escrever completamente fora de qualquer mapeamento. O resultado foi um disco incrível e uma consequência curiosa: os fãs do Bon Iver parecem ter aceito relativamente bem o trabalho, ainda que tão distante do folk intimista e pop anterior.


A impressão que fica é que em Repave, os caras perceberam o potencial agregador que tinham em suas mãos, e digo que o utilizaram com maestria. Em oito canções, Repave é um som mais concreto e completo, na medida em que repete a fórmula pop+experimental de forma melhorada: já não é mais tão simples distinguir onde estão as mãos de Justin Vernon do resto do grupo. Outro aspecto libertador se encontra no conteúdo das letras, que às vezes dão a impressão de terem sido escritas numa noite de um porre homérico, já em outros momentos, elas são sérias e sentimentais. É um álbum de emoções variadas. Ainda que não tão facilmente compreensíveis, as letras parecem reforçar o quanto os caras estavam se divertindo – e não dando muita bola para o que iam pensar depois. Ao final do disco, é difícil dizer do que ele se trata, e creio ser esse um dos maiores sinais de êxito: a incapacidade de se encaixar algo num estilo específico. Infelizmente, a distribuição do disco não parece ter aproveitado essa essência eclética do trabalho, e Repave não deve ser facilmente encontrado nas lojas brasileiras. Como músico, tomo esse disco como um dos maiores exemplos de 2013, pela possibilidade de popularização das músicas mais complexas que ele representa. E pode até ser que seja utopia ou preocupação desnecessária, mas música - assim como a grande maioria das coisas nesse mundão - tá aí pra ser compartilhada, certo?

Você também pode gostar

0 comentários