A baleia

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Baleia


Seria realmente muito interessante se saísse daquele elevador um homem barbudo senil, vestido em trapos e usando galochas amarelas com olhar profundo e ar messiânico, praguejando contra a baleia da qual acabara de ser regurgitado. Mas eu sabia que isso não aconteceria.


Três andares e uma lentidão inexplicável, mas a demora era ainda melhor do que a ideia de subir pelas escadas. Eu devia cultivar um bigode, pomposo, no melhor estilo Charles Bronson em Desejo de Matar, ir tomar um sorvete e por casualidade de impulsos incontidos por uma máquina fotográfica acabar com um malfeitor. Bang, bang! Meu Deus, a Sessão de Gala domingo de madrugada tem me afetado.


A lentidão do elevador só me fazia salivar mais e mais sobre aquele prato de macarrão que havia reservado para o almoço de hoje, envolvido em papel filme, triste e só na geladeira. Não é nada pouco desgastante rodar metade da cidade em uma bicicleta fazendo entregas.


Mais duas ou três possibilidades de chegar até meu apartamento se chocavam devagar contra minha cabeça, coisas pueris como o que o Chapolin Colorado faria naquela situação. A porta do elevador se abriu e de lá veio o odor costumeiro de papelão molhado.


Seu Pedro acabara de me liberar para o almoço após outra de suas intermináveis histórias sobre a moça da loja de costura duas lojas à frente da floricultura. Contou-me que saíram para dançar noite passada e que conversaram até tarde antes de se despedirem com um beijo cinematográfico. Ficava imaginando que se de fato tais encontros aconteciam seriam fatos ilustrativos da palavra banal, aconteciam entre um e outro passeio que ele dava pelo comércio, inevitavelmente entre uma e outra baforada no cachimbo, muitas vezes à revelia dos dois inclusive, eu sabia que não passava daquilo. Mas por algum motivo que escapava à nossa relação de trabalho eu as ouvia, e enquanto estava ali lhe dando atenção, tudo era a mais pura verdade.


A floricultura ficava perto da minha casa, o que era uma vantagem. Eu até poderia arranjar algo “melhor” e que pagasse um pouco mais, mas eu preferia as entregas, a expressão no rosto das pessoas de surpresa ou de indignação ao lerem o cartão na minha frente. Engraçado como nunca esperavam, pelo menos comigo sempre acontecia de lerem o cartão na minha frente. Aquilo agregava valor ao meu salário miserável.


Seu Pedro não era uma má pessoa, era só um velho simples e sozinho, um mentiroso inofensivo que falava intimamente de pessoas com quem nunca havia trocado nem mesmo dois palitos. Não mentia por maldade, mas por falta de opção.


Abri a porta e entrei em casa acompanhado do cheiro de papelão molhado que se alimentava do prédio e automaticamente liguei a televisão para evitar o silêncio. Macarrão requentado, era impossível existir algo melhor no mundo, comi enquanto via televisão, o bloquinho com folhas adesivas sempre alerta do meu lado.


Eu costumava ter essa mania naqueles dias, anotava frases aleatórias que escutava no rádio ou na televisão, quando não qualquer coisa sem muita significância que saia da minha cabeça desocupada ou de uma conversa alheia na rua. Não raro topava com uma delas ao abrir alguma gaveta em busca de um abridor de latas. Quando abria a janela da sala era possível ouvir as ideias farfalhando na parede, as grudava em locais improváveis. Outro dia durante o banho esbarrei em uma pequena transcrição de um diálogo entre um guardador de carros e uma moça.


“Cinquenta centavos, pra eu tomar de pinga, não vou mentir pra senhora, é pra eu completá uma pinga!”
“Tudo bem moço, quando eu voltar, quando eu voltar...”.


Presenciei a cena entre uma e outra entrega semanas atrás, a mulher assustada voltou para o carro com o empacotador da mercearia lhe servindo de guarda, o homem nem lembrava mais dela, já estava no boteco do outro lado da rua. Conseguira uma moeda de um real com outra pessoa.


Com o telejornal sendo processado na minha cabeça e meu estômago travando uma batalha com o macarrão de ontem já posso pensar em voltar para cima da bicicleta e peitar a segunda parte do dia. Um traço de vinho pra que eu entre na sensação de sonho, e, depois, o cochilo antes de voltar para a floricultura.


Uma voz grave que fazia anúncio de uma série de programas especiais sobre a África que seriam exibidos pela TV pública me acordou. Pensei em visitar um pouco de pornografia antes de voltar ao trabalho, mas achei melhor poupar energia para a bicicleta. À propaganda se seguiu um grande vazio branco na tela e uma frase escrita com letras como que feitas à mão. Por dois segundos podia-se ler: “A condição humana revela-se ao se lavar a louça”; e uma mulher entrou com uma esponja amarela esfregando e limpando as palavras da tela com água e sabão. Sem marcas, sem nome de autor, sem anúncios de qualquer tipo depois disso, a tela simplesmente ficou preta e a TV emudeceu.


Peguei a caneta e anotei a frase em um pequeno pedaço de papel como sempre fiz, e ao me levantar para ir até a cozinha lavar o prato eu era um equilibrista, atravessando uma corda vinte metros acima do chão. Consegui chegar ileso até a pia.


Deixei o prato lá dentro e fiquei observando com as mãos na cintura a torneira choramingar sobre ele. Grudei o papel na parede oposta à pia e voltei a observar o prato. O vitro da cozinha jogou gotas de luz do sol nos rastros de molho de tomate rabiscados, e na sombra um único fio de macarrão escorria pela borda branca do prato.


Desci pelas escadas correndo, enfrentando o cheiro de papelão molhado, e desacorrentei minha bicicleta do poste em frente a minha janela, não voltei para as expressões de surpresa aquele dia. Queria sair e praguejar sobre minha baleia.

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